Hora do adeus

1218 Palavras
Milena narrando Acordei no meio da madrugada com aquela sensação estranha de não saber onde eu estava. Demorei alguns segundos para lembrar. A casa. O quarto. Tudo que tinha acontecido. Meu peito apertou na mesma hora. Passei a mão no rosto e senti que estava coberta. O ar do quarto estava gelado por causa do ar-condicionado. Fechei os olhos por alguns segundos tentando voltar a dormir, mas não consegui. Meu corpo estava cansado, mas minha mente parecia presa num pesadelo que não acabava. Me levantei da cama devagar. O chão frio fez meu corpo arrepiar. Fui até o pequeno banheiro, lavei o rosto e fiquei alguns segundos me olhando no espelho. Meus olhos estavam inchados de tanto chorar. Respirei fundo e voltei para o quarto. Abri a janela. O morro ainda estava silencioso, um barulho distante de moto. Aquela casa era grande, bonita, mas pra mim parecia uma prisão. Essa casa é estranha pra mim. Voltei e me sentei na cama, abraçando minhas próprias pernas sem saber o que fazer. Eu estava cansada de dormir, cansada de chorar, cansada de sentir aquele vazio. Eu só queria meu pai. Foi quando ouvi passos no corredor. Meu coração acelerou. A porta se abriu e Teteu entrou no quarto. Meu corpo ficou tenso na hora. Ele me olhou por alguns segundos, como se estivesse pensando no que dizer. Milena: Posso falar com meu pai? Minha voz saiu baixa, mas firme. Ele passou a mão na nuca e fechou a porta atrás de si. Teteu: Tenho uma parada difícil pra te contar. Meu estômago afundou. Milena: O que foi? Ele ficou me olhando por um segundo que pareceu uma eternidade. Então falou. Teteu: Teu pai, se matou. O mundo parou. Meu coração bateu tão forte que pareceu doer. Fiquei olhando pra ele sem conseguir entender aquelas palavras. Milena: Não… Sussurrei, balançando a cabeça. Milena: Não… isso não é verdade… Algo dentro de mim explodiu. Levantei da cama de uma vez e fui pra cima dele. Minhas mãos começaram a bater no peito dele, nos braços, onde eu conseguia alcançar. Milena: A culpa é sua! Minha voz saiu quebrada, cheia de dor. Milena: Você matou meu pai! Ele segurou meus braços tentando me parar, mas eu me debatia, tentando bater nele de novo. Milena: Você fez isso! As lágrimas começaram a cair sem controle. Milena: Se você não tivesse pressionado ele não teria feito isso! Meu peito queimava. Eu não conseguia parar. Milena: Eu nem pude me despedir! Minha voz quebrou completamente. Milena: Eu nem consegui falar com ele. Quando ele disse que meu pai tinha se enforcado, aquilo me atravessou como uma faca. Meu corpo inteiro perdeu a força. Minhas pernas começaram a fraquejar de repente, como se não conseguissem mais me sustentar. O chão pareceu sumir. Antes que eu caísse, senti os braços dele me segurando forte. Teteu me puxou contra o corpo dele. Eu não tive forças para lutar. Não tive forças para empurrar. Não tive forças para nada. Meu rosto acabou encostando no peito dele e o choro veio com ainda mais força. Milena: Meu pai… Minha voz saiu entre soluços. Milena: Meu pai… Eu agarrava a camisa dele sem perceber, como se aquilo fosse a única coisa me segurando naquele momento. Toda a raiva, toda a dor, todo o desespero se misturaram dentro de mim. Eu só chorava. Chorava como nunca tinha chorado antes. Porque agora eu tinha entendido uma coisa. Eu tinha perdido minha mãe. E agora, tinha perdido meu pai também. Teteu me deixou sentada na cama quando minhas pernas finalmente pararam de tremer tanto. Eu ainda chorava, mas já não era aquele desespero de antes. Era um choro pesado, silencioso, que parecia vir de um buraco fundo dentro do peito. Ele saiu do quarto sem dizer nada. Fiquei ali sentada, olhando para o chão, tentando entender como minha vida tinha virado aquilo tudo em tão pouco tempo. Primeiro minha mãe. Agora meu pai. Eu estava sozinha. Completamente sozinha. Depois de alguns minutos, ouvi os passos dele voltando pelo corredor. A porta abriu e ele entrou segurando um copo. Teteu: Bebe isso aqui. Levantei o olhar devagar. Era um copo de água com açúcar. Balancei a cabeça negando. Milena: Eu não quero. Minha voz saiu fraca. Ele se aproximou mais e colocou o copo na minha mão. Teteu: Bebe. Milena: Eu disse que não quero. Ele me olhou sério. Teteu: Bebe logo, Milena. O jeito que ele falou não deixava espaço para discussão. Eu levei o copo até a boca e bebi. A água desceu rápida pela minha garganta enquanto eu engolia em goles grandes. Quando terminei, entreguei o copo para ele. Milena: Eu quero ir no enterro. Ele me observou por alguns segundos e depois assentiu com a cabeça. Teteu: Tu vai. Respirei fundo. Milena: Eu preciso ir em casa pegar uma roupa. Olhei para minhas próprias roupas. Milena: Eu não tenho nada aqui. Ele pensou por um instante e depois respondeu. Teteu: Então bora. Saímos da casa dele em silêncio. O caminho até minha casa pareceu mais curto do que eu lembrava. Quando chegamos, meu coração apertou de novo. Ainda tinha gente na frente da minha casa. Os vizinhos estavam ali, conversando baixo, alguns chorando. Quando me viram descer do carro, vários olharam na minha direção. Alguns começaram a se aproximar. Mas Teteu levantou a mão e os homens dele se colocaram na frente. Ninguém chegou perto de mim. Eu entrei na casa sem olhar para ninguém. Assim que passei pela porta, a dor voltou com toda força. Aquele lugar tinha o cheiro da minha família. Caminhei pela sala e fui direto para o quarto dos meus pais. Quando vi a cama deles, algo dentro de mim quebrou de novo. Me joguei ali em cima e comecei a chorar. Chorei como uma criança perdida. Milena: Por que vocês me deixaram? Minha voz ecoou no quarto vazio. Milena: Por que eu fiquei sozinha? Aquele silêncio da casa parecia responder com mais dor ainda. Milena: Eu preciso de vocês… Apertei o travesseiro contra o rosto e chorei até meu corpo doer. Depois de um tempo, consegui me levantar. Eu precisava ser forte. Pelo menos naquele momento. Fui até meu quarto. Abri o guarda-roupa e comecei a pegar algumas roupas. Não todas. Só metade. Algumas blusas. Algumas calças. Roupas íntimas. Peguei também uma foto antiga da minha mãe e coloquei dentro da bolsa. Quando terminei, olhei ao redor do quarto. Meu peito apertou de novo. Eu não sabia quando pisaria ali de novo. Saí da casa sem olhar para trás. Voltamos para a casa de Teteu em silêncio. Assim que chegamos, fui direto para o banheiro. Abri o chuveiro e deixei a água cair sobre mim. Não sabia se estava lavando o corpo ou tentando levar embora aquela dor. Quando terminei, me vesti. Coloquei uma saia preta longa e uma blusa preta também. Prendi meu cabelo e fiquei sentada na cama esperando. O tempo parecia não passar. Já era de tarde quando ouvi passos no corredor novamente. A porta abriu e Teteu apareceu. Ele me olhou por alguns segundos. Teteu: Bora. Milena: Pra onde? Minha voz saiu baixa. Teteu: Pra igreja. Meu coração apertou de novo. Teteu: O corpo chegou. Respirei fundo, sentindo os olhos arderem mais uma vez. Era hora de me despedir do meu pai.
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