Dando a notícia

1147 Palavras
Teteu narrando O sono foi embora na mesma hora depois daquela notícia. Fiquei uns segundos sentado na cama, olhando pro nada, tentando organizar a cabeça. Aquilo não tava nos meus planos. Eu sabia que o velho tava desesperado, mas nunca imaginei que ele ia fazer uma parada dessas. Passei a mão no rosto e levantei. Fui direto pro banheiro. Abri o chuveiro e deixei a água cair gelada mesmo. Era pra despertar. A madrugada ainda tava pesada e minha mente precisava ficar clara. Enquanto a água caía nas minhas costas eu pensava numa coisa só, Milena. Quando ela soubesse disso, a parada ia ser feia. Saí do banho, me sequei rápido e troquei de roupa. Coloquei uma bermuda, camisa preta e amarrei o revólver na cinta da bermuda. Costume. Chefe nunca anda desarmado. Desci as escadas e peguei a chave da moto. O morro ainda tava meio silencioso, aquele clima estranho de madrugada virando manhã. Liguei a moto e fui direto pra contenção. Quando cheguei lá os moleque já tavam me esperando. Robinho não tava. Mas uns três vapor vieram logo falar comigo. Vapor: Chefe… Teteu: Qual foi? O moleque coçou a cabeça, meio sem saber como falar. Vapor: A vizinha encontrou ele no quintal. Franzi a testa. Teteu: Encontrou como? Vapor: Morto. Respirei fundo devagar. Teteu: Morto como, porr@? Outro respondeu. Vapor: Tá lá ainda, pendurado. Meu maxilar travou. Teteu: Cadê o Robinho? Vapor: Tá lá na casa. O cara continuou. Vapor: Ele falou que ninguém ia mexer no presunto até o senhor chegar. Assenti com a cabeça. Teteu: Certo. Subi na moto de novo e acelerei direto pra casa do velho. Quando virei a rua já dava pra ver a movimentação. Tinha um monte de gente na frente da casa. Vizinho, curioso, gente revoltada falando alto. Alguns queriam entrar. Mas os meus cara já tavam segurando. Um deles abriu espaço quando me viu chegar. Vapor: Deixa o chefe passar. Desci da moto e fui entrando. As pessoas começaram a murmurar. Vizinha: Isso é culpa dele que levou a filha do compadre a força. Outro falou mais alto. Homem: O homem não aguentou a pressão! Ignorei geral. Não era hora de discutir com morador. Entrei na casa e fui direto pro quintal. E lá tava ele. Pendendo de uma corda presa numa viga velha. O corpo balançando devagar com o vento da manhã. O rosto roxo, inchado. O velho tinha se enforcado mesmo. Fiquei parado olhando uns segundos. Passei a mão no rosto devagar. Teteu: Porr@… Robinho tava ali perto. Robinho: Chefe. Assenti. Teteu: Chamou alguém? Robinho: Ainda não. Tava esperando o senhor. Olhei em volta mais uma vez. Teteu: Chama quem tiver que chamar. Fiz um gesto pro corpo. Teteu: E resolve o enterro também. Robinho assentiu na hora. Robinho: Pode deixar. Uma mulher mais velha apareceu chorando olhando por cima do muro. Eu reconheci. Era uma vizinha do velho. Ela tava acabada de chorar. Vizinha: Meu Deus, Alberto, por que fez isso. Ela limpou o rosto com a mão e me olhou. Vizinha:.E a Milena? Meu peito pesou um pouco nessa hora. Teteu:.Ela ainda não sabe. A mulher levou a mão na boca. Vizinha: Meu Deus… Assenti. Teteu: Mas eu já vou contar. Robinho: A gente cuida de tudo aqui, chefe. Teteu:.Cuida mesmo. Sem falar mais nada virei as costas e saí da casa. A rua ainda tava cheia de gente cochichando. Subi na moto e liguei ela. O motor roncou alto no meio daquele silêncio pesado. Comecei a subir o morro de volta. Direto pra minha casa. Direto pra Milena. Enquanto pilotava eu sentia o peso daquela parada toda. Porque agora vinha a pior parte. Agora era a hora mais difícil. Contar pra Milena que o pai dela, Tinha se matado. Subi as escadas devagar, sentindo o peso daquela notícia nas costas. Cada degrau parecia mais pesado que o outro. Nunca fui de ter medo de falar nada pra ninguém, mas aquilo ali, aquilo era diferente. Parei um segundo na frente da porta do quarto dela. Respirei fundo. Depois abri. A luz fraca do quarto tava acesa e Milena tava sentada na cama. O cabelo castanho preso num coque meio bagunçado, o rosto limpo, sem maquiagem nenhuma. Os olhos dela tavam atentos, como se ela já estivesse esperando alguma coisa. Assim que me viu entrar, ela ficou mais tensa. Milena: Posso falar com meu pai? A pergunta veio direta. Eu passei a mão na nuca. Teteu: Tenho uma parada difícil pra te contar. Ela me encarou, o olhar ficando mais sério. Milena: O que foi? Eu não sou homem de enrolação. Então falei de uma vez. Teteu: Teu pai, ele se matou. O quarto ficou silencioso. Milena me olhava fixo, como se não tivesse entendido o que eu tinha dito. Os olhos dela piscaram algumas vezes, tentando processar aquilo. Por um segundo achei que ela ia desabar. Mas não foi isso que aconteceu. Foi rápido. Rápido demais. Em menos de um minuto ela pulou da cama e veio pra cima de mim com tudo. Milena: MENTIRA! A primeira pancada pegou no meu peito. Depois veio outra no ombro. Ela começou a me bater, empurrar, socar o que conseguia alcançar. Milena: A culpa é sua! Você matou ele! Os olhos dela tavam cheios de lágrimas, mas também cheios de ódio. Milena: Você matou meu pai! Ela veio pra cima de mim de novo, as mãos batendo no meu peito, nos meus braços, tentando me acertar de qualquer jeito. Segurei os pulsos dela na hora. Milena tentou se soltar, se debatendo. Milena: ME LARGA! Ela gritava descontrolada, o corpo inteiro tremendo. Milena: SEU DESGRAÇADO! VOCÊ MATOU ELE! Imobilizei os braços dela com mais força, segurando firme pra ela parar de me bater. O rosto dela tava vermelho, os olhos molhados, o peito subindo e descendo rápido de tanto chorar e gritar. Ela tentou me chutar. Milena: EU TE ODEIO! Meu maxilar travou. Eu também levantei a voz. Teteu: PARA! O grito ecoou no quarto. Ela ainda se debatia. Teteu: EU NÃO FIZ NADA COM AQUELE FRACASSADO! Milena congelou por um segundo, mas logo voltou a tentar se soltar. Milena: MENTIROSO! Teteu: ELE SE ENFORCOU! A voz saiu dura. Teteu: A vizinha encontrou ele no quintal. As palavras ficaram pesadas no ar. Milena começou a chorar mais forte, mas ainda tremia de raiva. Milena: Foi você que fez isso! Você pressionou ele! Apertei os pulsos dela um pouco mais pra ela parar de se debater. Teteu: Se controla. Ela continuava chorando. Milena: Eu quero ver meu pai! Respirei fundo. Teteu: Então para de agir que nem louca. Ela me olhou com ódio. Teteu: Porque se tu continuar assim, tu não vai nem pro enterro. O choro dela ficou mais silencioso agora, mas os olhos ainda queimavam de revolta. E naquele momento eu sabia de uma coisa. A mina ia me odiar ainda mais agora. Muito mais.
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