Sentimentos

659 Palavras
A noite caía suave sobre Curitiba. As luzes dos postes refletiam nas ruas úmidas, e o frio parecia mais ameno depois das risadas e reencontros na praça. Renata, Lucas e Matheus já haviam ido embora, mas Luan insistiu em acompanhar Maria e Letícia até em casa. No caminho, Letícia percebeu o ar silencioso que pairava entre os dois. Sorrindo de canto, fingiu um bocejo. — Gente, vou dar uma passada na farmácia da esquina, compro umas coisinhas e já volto, tá? Maria olhou pra ela, entendendo a deixa. — Tá bom, mas não demora, tá frio. Luan riu baixo. — Continua mandona. Ela deu um meio sorriso. — Alguém tem que manter a ordem. Ficaram parados em frente ao portão da casa. O silêncio que se instalou era confortável, mas cheio de memórias. — Você tá diferente — disse ele, por fim. — Mais… mulher. Maria baixou o olhar, brincando com a ponta do casaco. — O tempo faz isso com a gente, né? — Faz. Mas tem coisa que não muda. — Ele deu um passo à frente. — O jeito que você sorri, por exemplo. Continua igual. Ela riu, nervosa. — Você ainda é bom em dizer as coisas certas. — E você ainda foge quando fica sem graça. Maria respirou fundo. — Eu não tô fugindo, Luan. Só… não esperava te ver de novo. — Nem eu. Mas quando soube que você tava voltando, alguma coisa dentro de mim acalmou. Como se eu tivesse esperando por isso. O vento soprou forte, bagunçando os cabelos dela. Por um instante, ele ergueu a mão e ajeitou uma mecha atrás da orelha dela o toque leve, quase reverente. Os olhos se encontraram, e o tempo pareceu voltar — os dias ensolarados no quintal da tia Flávia, os beijos apressados escondidos, o amor adolescente que o tempo não conseguiu apagar. — Eu vi na TV, Maria — disse ele, com a voz baixa. — Tudo o que aconteceu lá no Rio… com sua mãe… com você. Ela fechou os olhos por um instante. — Não gosto de lembrar. — Eu sei. — Ele suspirou. — Mas eu queria que você soubesse… que, se eu pudesse, teria ido atrás de você. Ela o encarou, os olhos marejados. — Não podia, Luan. Ninguém podia. Aquilo foi um inferno. Ele assentiu, silencioso. — E agora? Como você tá? — Tentando seguir. — Um sorriso fraco. — Por mim… e por ele. Luan ficou sério por um momento. — Por ele? Ela pousou a mão sobre a barriga, instintivamente. — O bebê. Os olhos dele se suavizaram. — Então é verdade… você tá grávida. — Tô. — Ela respondeu com um tom de medo e ternura misturados. — E é tudo tão novo, tão… incerto. Ele sorriu, com uma doçura contida. — Você vai ser uma ótima mãe, Maria. Eu sempre soube. — Você fala como se me conhecesse mais do que eu mesma. — Talvez eu conheça. — Ele deu um pequeno passo à frente, mas parou, respeitando o espaço. — E talvez ainda te ame, mesmo depois de tudo. Ela piscou, surpresa. O coração batia acelerado, o ar parecia rarefeito. — Luan, eu… — a voz falhou. — Eu não sei se posso ouvir isso agora. Ele assentiu, compreensivo. — Eu sei. Não quero te confundir. Só… precisava dizer. Maria respirou fundo, olhando para o chão, depois para ele. — Obrigada por ainda se importar comigo. Ele sorriu, melancólico. — Não tem como não se importar, Mari. Nunca teve. Letícia apareceu ao longe, voltando da esquina com uma sacolinha nas mãos. Luan deu um passo para trás, as mãos nos bolsos. — Eu passo aqui amanhã. Posso? — Pode. — respondeu ela, com um sorriso pequeno, sincero. Ele acenou e foi se afastando pela calçada, enquanto o vento frio levava embora o cheiro da chuva e trazia de volta algo antigo, algo que Maria achou que nunca mais sentiria: esperança
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR