O ar gelado circulavo pelo quarto ainda sim abafado de Maria, mas o calor parecia menos incômodo naquela tarde de sábado. Deitada na cama, o celular apoiado em uma das almofadas, ela abriu a chamada de vídeo com Renata. Já fazia tempo que não conversavam direito, e o sorriso da amiga logo iluminou a tela.
— Mari! — exclamou Renata, ajeitando o cabelo. — Até que enfim, né? Tava com saudade de fofocar contigo.
Maria riu, sentindo o coração aquecer.
— Também tava, Rê. Aqui tá tudo uma loucura… mas você sabe, né? Nova escola, gente nova… outra vida.
Renata arregalou os olhos, curiosa:
— Me conta tudo! Como é morar aí no Alemão? Tá conseguindo se adaptar?
Maria respirou fundo antes de responder.
— Não é fácil. A gente ouve tiro quase todo dia. É diferente de tudo que eu conhecia em Curitiba. Mas… tô me virando. Fiz amizade com a Letícia, ela é bem parceira. E… bom… — hesitou, mordendo o lábio — tem também o Guilherme.
Ao ouvir o nome, Renata arqueou as sobrancelhas e abriu um sorriso malicioso.
— Ihhh, olha o tom de voz! Quem é esse Guilherme aí?
Maria ia começar a explicar, mas, de repente, uma sombra apareceu atrás de Renata. Um rosto conhecido, que Maria não via fazia dois anos, surgiu na tela. Luan.
— Rê, quem é? — ele perguntou, sem notar de imediato quem estava do outro lado da chamada.
Quando os olhos dele bateram na tela, ficaram vidrados. O ar pareceu pesar. Ele arregalou os olhos e ficou em silêncio por alguns segundos.
— Maria? — a voz saiu quase como um sussurro, embargada.
Maria congelou. O coração acelerou como se quisesse pular pela boca.
— Luan… — respondeu, baixinho, quase sem acreditar.
Nos últimos dois anos, ele só tinha visto fotos dela que circulavam pelas redes, sempre através de Renata. Mas agora, em tempo real, ali, Maria parecia ainda mais bonita o cabelo solto caindo sobre os ombros, o olhar delicado e, mesmo pela tela, aquele ar que sempre o deixava sem chão.
Renata, percebendo a tensão, sorriu de canto.
— É… acho que vocês têm muito pra colocar em dia.
Luan riu sem graça, passando a mão pelo cabelo.
— Faz tempo, né? Eu… não sabia que ia te ver assim, Mari. — Ele a encarava como se fosse a primeira vez de novo.
Maria engoliu seco, mexendo nervosa no fio do fone.
— Dois anos, Luan. A última vez que a gente se falou… foi antes da minha vida virar de cabeça pra baixo.
Ele assentiu, sério.
— Eu sei. Mas nunca deixei de pensar em você.
As palavras ecoaram na mente de Maria, trazendo lembranças. Diferente de Matheus, que dizia amá-la mas sumiu depois do namoro breve e frágil, Luan parecia carregar algo verdadeiro. Mesmo depois de tanto tempo, havia sentimento em seu olhar.
Maria respirou fundo, tentando controlar a mistura de surpresa, nostalgia e emoção que a invadia. Sentia que aquela conversa, inesperada, poderia abrir uma nova brecha no seu coração já tão confuso, dividido entre a inocência do passado, a intensidade que Guilherme despertava e o eco de um amor antigo que voltava à tona.
Quando a tela do celular ficou preta e o silêncio voltou a dominar o quarto, senti meu peito pesado, como se tivesse corrido uma maratona sem sair do lugar. Apoiei o celular no travesseiro e fiquei olhando pro teto, tentando organizar a bagunça que aquela chamada tinha deixado dentro de mim.
Ver a Renata foi bom, um alívio até. Eu precisava dela, daquela ligação com minha vida em Curitiba. Mas o que eu não esperava… era o Luan.
Dois anos sem ouvir a voz dele. Dois anos em que eu me acostumei a só ver fotos, a guardar lembranças como se fossem filmes que passavam só na minha cabeça. E hoje, de repente, lá estava ele, na minha frente, mesmo que através de uma tela. Os mesmos olhos, agora um pouco mais maduros, mas com aquele brilho que sempre me fazia sentir especial.
E o pior? Ele ainda sente algo por mim. Eu vi no jeito que falou, no jeito que me olhou, mesmo por vídeo. Como se todo esse tempo não tivesse apagado nada.
Suspirei fundo, puxando o lençol até o queixo. E aí vem o problema… porque agora tem o Guilherme.
Ele não é como o Luan. O Luan sempre foi doce, atencioso, quase um porto seguro. Guilherme é diferente. Ele tem algo que me atrai de um jeito que eu mesma não entendo — talvez seja aquela força, aquele ar misterioso, ou até mesmo a dor que carrega estampada nas cicatrizes do corpo. Ele é real, cru, intenso. Perto dele eu sinto coisas que nunca tinha sentido antes. Não é aquela inocência de quando eu namorei o Matheus, porque, no fundo, eu sei: com o Matheus não havia futuro. Ele sumiu, como se eu nunca tivesse significado nada.
Já com o Guilherme… eu sinto que qualquer movimento pode mudar tudo. Ele me chama de “Branca de Neve”, e eu não sei explicar por que isso mexe tanto comigo. Talvez porque, de algum jeito, ele me vê diferente de todos os outros.
Fechei os olhos, tentando não pensar, mas era impossível. Luan me puxava para o passado, para tudo o que eu deixei quando fui obrigada a vir pro Rio. Guilherme me prendia ao presente, me mostrando uma parte de mim que eu mesma desconhecia.
E eu? Eu tô aqui, no meio desse fogo cruzado de sentimentos, sem saber qual caminho seguir.
Talvez eu só esteja confundindo as coisas. Talvez seja só carência. Ou talvez… talvez seja o começo de algo maior, algo que nem eu consigo controlar.
A única certeza que eu tenho é que, depois de hoje, nada dentro de mim continua do mesmo jeito.