Sumiço e Mudança

1033 Palavras
O sábado chegou com um sol forte, e Maria se sentiu inquieta desde a manhã. Letícia tinha insistido para que fossem ao morro mais alto, perto de uma clareira onde alguns amigos se reuniam, e Guilherme estaria lá também. Maria não conseguia decidir se estava animada ou nervosa sabia que qualquer aproximação com ele podia fazê-la corar ou perder o fôlego. Quando chegaram, Letícia puxou Maria pelo braço: — Vem logo! Guilherme tá ali com os outros, esperando a gente. Maria respirou fundo, tentando controlar o coração que parecia querer sair do peito. Guilherme a viu chegando e deu aquele sorriso torto, como se estivesse dizendo sem palavras: “Eu sabia que você viria”. Enquanto os amigos se espalhavam, conversando e rindo, Guilherme se aproximou de Maria. Caminhou ao lado dela, discretamente encostando o ombro no dela. Maria sentiu um arrepio, desviou o olhar, mas um sorriso tímido escapou. — Tá com calor? — perguntou ele, com a voz baixa, quase um sussurro. — Um pouco — respondeu, sem conseguir disfarçar o rubor que subia às bochechas. Guilherme sorriu e ofereceu uma garrafa d'agua, que Maria hesitou antes de aceitar. O gesto foi simples, mas intenso. Era cuidado, p******o e proximidade, tudo em um só movimento. No meio da tarde, enquanto os meninos jogavam bola e as meninas conversavam, Guilherme se aproximou de novo, desta vez sentando ao lado dela na grama. Maria sentiu a mão dele encostar levemente na sua enquanto ambos se inclinavam para observar algo que Letícia mostrava, e o contato, ainda que pequeno, fez seu coração disparar. — Sabe — disse Guilherme, baixinho, para que só ela ouvisse — Eu gosto de passar tempo com você. Mesmo assim, na correria do morro, é a hora que eu mais espero. Maria engoliu seco, sentindo o calor subir. Ela não sabia exatamente o que dizer, então apenas sorriu, tímida, mas os olhos brilhando. Mais tarde, enquanto o sol começava a se pôr, Guilherme ofereceu a mão para ajudá-la a subir em uma pedra maior para ver a vista. Maria segurou firme, e, ao se equilibrar, seus corpos se tocaram mais de perto. Ele sorriu, puxando-a levemente para perto, mas sem pressa, apenas deixando que o toque se prolongasse pelo tempo que parecia certo. — Confia em mim — disse ele, com os olhos nos dela. Maria assentiu, sentindo que podia confiar. E naquele momento, com o vento no rosto, o sol caindo e a presença de Guilherme tão próxima, ela percebeu que estava descobrindo algo novo sobre si mesma: que podia sentir desejo, curiosidade e afeição intensos, sem precisar ceder a nada que não estivesse pronta para viver. E quando Guilherme, num gesto quase tímido, deu um beijo leve e rápido na testa dela, Maria sentiu o coração disparar. Não era um beijo apaixonado, mas carregava tudo que precisava: cuidado, proximidade e um segredo só deles, que ninguém mais poderia tocar ou entender. A tarde terminou, mas Maria sabia que aquele momento mudaria a forma como ela se sentia, como descobria seu corpo e suas emoções. Guilherme não era só alguém que a atraía; ele era alguém em quem ela podia confiar, explorar sentimentos e viver a intensidade de uma adolescência cheia de descobertas. Os dias após a tarde na clareira pareciam normais, mas Maria não conseguia ignorar o sentimento estranho que crescia dentro dela. Guilherme estava mais distante, respostas curtas, e alguns dias simplesmente não aparecia na escola ou na comunidade. No início, ela pensou que fosse coincidência, mas logo percebeu que algo sério havia acontecido. A verdade veio à tona de maneira abrupta: a avó de Guilherme havia se envolvido em uma briga com antigos conhecidos, e a situação se tornara perigosa. Além disso, Bruno estava de olho nos movimentos dele, pressionando para que saísse imediatamente da comunidade antes que algo grave acontecesse. Maria ficou arrasada. A notícia chegou como um golpe: Guilherme precisou se mudar às pressas, sem aviso, sem despedidas adequadas. Ela tentou ligar, procurar, mandar mensagens, mas não conseguiu contato. O coração apertado, a sensação de vazio e a falta da presença dele a deixaram deprimida e perdida. — Maria… — disse Letícia, ao encontrá-la cabisbaixa na escola — Ele vai voltar, calma. — Eu sei… — murmurou Maria, mas a voz saía fraca, sem convicção. Ela sentia falta do jeito que Guilherme segurava sua mão, da segurança que transmitia e do segredo que compartilhavam. Cada canto do morro parecia lembrar dela que ele não estava mais ali. Milena percebeu rapidamente a mudança na filha. O olhar distante, os suspiros frequentes e o semblante triste não passaram despercebidos. Bruno também ficou preocupado. Após algumas conversas, decidiram que o melhor seria tirar Maria do ambiente da comunidade por um tempo, permitindo que ela se recuperasse emocionalmente e tivesse férias tranquilas longe da tensão. — Maria — disse Milena, firme, mas com carinho — Vamos mandar você passar as férias de final de ano com seu tio Thiago, em Curitiba. Lá você poderá descansar, rever amigos e se afastar de tudo isso que tem te deixado tão preocupada. Maria engoliu em seco, dividida entre alívio e tristeza. Por um lado, ela sabia que precisava de distância para organizar os pensamentos; por outro, isso significava se afastar da vida que construíra no morro e, principalmente, do segredo que compartilhava com Guilherme. — Tudo bem, mãe… — respondeu, tentando sorrir, mas o aperto no peito não diminuía. Enquanto preparava suas malas, Maria não conseguia deixar de pensar em Guilherme. Como estaria? Estaria seguro? Quando poderiam se ver de novo? Cada pensamento era acompanhado da lembrança da presença dele, do beijo inocente, do toque das mãos e do calor da proximidade que agora parecia distante. A viagem para Curitiba seria inevitável, mas Maria prometeu a si mesma que, assim que pudesse, reencontraria Guilherme. O segredo deles, aquela conexão intensa que compartilhavam, permaneceria guardada, mas cada lembrança se tornava ainda mais forte na ausência dele. E assim, entre malas, despedidas e olhares preocupados de Milena e Bruno, Maria embarcou em um novo capítulo da sua vida, sem saber que aquela pausa temporária mudaria a forma como ela enxergava seus sentimentos, a coragem e as descobertas que a esperavam em Curitiba.
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