Destino

874 Palavras
A mesa estava posta com fartura: carnes assadas, frutas frescas, pães ainda quentes. O cheiro enchia o ambiente de aconchego, mas Guilherme parecia deslocado, sentado na ponta da mesa, encarando o prato sem muito apetite. O corpo ainda guardava marcas do que havia sofrido, mas seus olhos estavam mais vivos do que nunca, atentos, desconfiados. À sua frente, a mulher que se apresentara apenas como Sol sorria com calma, os cabelos bem presos, a postura de quem estava sempre no controle. O ar dela misturava elegância e mistério. — Você ainda não acredita em mim, não é? — perguntou ela, servindo um pouco de vinho em sua taça. — Mas não precisa temer. Eu não tenho interesse em te machucar. Guilherme respirou fundo, a voz rouca de tanto tempo em silêncio. — A senhora me tirou do hospital… me escondeu… por quê? O que ganha com isso? Sol apoiou o cotovelo na mesa, levando o cálice aos lábios antes de responder. — Quando te encontrei, desacordado naquela maca, vi algo em você. Não sei explicar… foi como se um fio invisível me puxasse até ali. Eu não sabia teu nome, tua história, mas senti que não podia te deixar naquele lugar. — Isso não responde a minha pergunta — retrucou Guilherme, firme, apesar da gratidão contida. — Ninguém faz isso sem motivo. O olhar de Sol suavizou, quase maternal. — Eu já perdi muita coisa na vida, menino. Quando vi teu estado… tão jovem, tão destruído, algo em mim gritou. Era como se a vida estivesse me dando uma segunda chance de proteger alguém. Um silêncio pairou. Guilherme mexeu no garfo, pensativo, até arriscar: — A senhora fala como se tivesse me escolhido. Sol sorriu de leve, mas seus olhos não acompanhavam o sorriso. — Talvez o destino tenha escolhido por mim. Ela se inclinou para frente, cruzando os dedos. — Mas agora preciso que entenda uma coisa: aqui, você está seguro. O mundo lá fora… não é tão simples. — Eu sei — respondeu Guilherme, baixando o olhar. — Eu vivi isso na pele. Sol o observou com atenção, como se quisesse ler cada sombra que passava por seus olhos. Depois, mudou de tom, quase enigmática: — Há pessoas que fariam de tudo por você, Guilherme. Algumas para te salvar… outras para te destruir. Ele ergueu os olhos, confuso. — Como a senhora sabe disso, se nem me conhecia? Sol deixou escapar um leve sorriso, mas não respondeu de imediato. Apenas tocou o braço dele com delicadeza e disse: — Eu sei mais do que você imagina. Mas algumas verdades precisam esperar o momento certo. O silêncio seguinte foi pesado, carregado de segredos não ditos. Guilherme sentiu que aquela mulher escondia muito mais do que deixava transparecer. Ainda assim, havia nela algo que o impedia de desconfiar por completo — um calor raro, quase como o abraço de uma mãe que nunca teve. E pela primeira vez em muito tempo, ele comeu com vontade. Guilherme secou a boca com o guardanapo, desconfiado, mas pela primeira vez desde que acordara sentia algo parecido com segurança. Sol, sentada à sua frente, o observava como se cada gesto dele fosse importante. Havia um brilho nos olhos dela que misturava cuidado e lembranças antigas. — Você ainda está muito magro — disse, ajeitando a postura. — Precisa recuperar forças. A vida vai te cobrar resistência. Ele riu de canto, sem humor. — A vida já cobrou quase tudo que eu tinha. — Então te restou a coragem — rebateu Sol, firme. — Isso ninguém pode tirar. O olhar de Guilherme se estreitou, como se quisesse decifrá-la. — A senhora fala como se soubesse do que eu passei. Sol suspirou fundo, recostando-se na cadeira. — Não sei os detalhes… mas conheço de perto o preço das escolhas erradas. Por um instante, seus olhos pareceram viajar para longe, para uma lembrança que ainda doía. Uma lembrança que tinha nome e rosto seu filho. "Se ele estivesse vivo… " O pensamento atravessou Sol como uma navalha silenciosa. E então, um nó se formou na garganta quando, sem querer, ela encarou Guilherme e percebeu o quanto o destino podia ser c***l e irônico ao mesmo tempo. Mas ela não deixou escapar nada. O sorriso discreto voltou ao rosto. — Me diga, Guilherme… o que mais te prende a essa luta? Você quase morreu. Muitos desistiriam. Por que você insiste em continuar? Ele respirou fundo, e os olhos marejaram antes mesmo da resposta sair. — Porque alguém precisa de mim. Sol inclinou o corpo para frente, interessada. — Uma mulher? O silêncio dele já era a confirmação. — É… — disse, a voz baixa, quebrada. — A mulher que eu amo. Mas ela está em perigo… e eu não posso fazer nada. O coração de Sol apertou. Por um segundo, ela quis perguntar o nome. Quis saber quem era essa mulher que o fazia lutar contra a morte. Mas conteve-se. Algo dentro dela dizia que cedo ou tarde descobriria… e não estava pronta para essa revelação. Ela apenas colocou a mão sobre a dele, em gesto firme. — Vai poder. Ainda não está acabado, Guilherme. O destino ainda tem planos para você. Ele a olhou nos olhos, e pela primeira vez acreditou
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