O corredor estava abafado, cheio de vozes apressadas e passos correndo de um lado para o outro. Milena entrou com os olhos duros como ferro. Bruno vinha logo atrás, silencioso, mas atento a cada detalhe.
Na porta do quarto, a voz de Thiago soava calma, quase como um bálsamo:
— Você não precisa ter medo, Maria. Tá segura agora. O pior já passou.
Milena parou na soleira. Lá dentro, a filha estava sentada na cama, ainda pálida, os cabelos desgrenhados, mas com os olhos abertos — vivos. Ao lado dela, Thiago segurava sua mão, conversando baixinho.
Quando Maria percebeu a sombra da mãe no batente, o corpo dela enrijeceu. Instintivamente, levou as mãos à barriga, como se pudesse protegê-la. O medo brilhou em seus olhos marejados.
— Mãe… — a voz de Maria saiu baixa, quase um sussurro.
Milena deu um passo à frente, e o ar do quarto pareceu ficar mais pesado. Maria recuou na cama, lembranças da humilhação em praça pública queimando em sua mente. O silêncio ficou insuportável até que Thiago se levantou, quebrando a tensão.
— Milena… — disse firme, mas sem hostilidade. — Não faça essa cara. A menina acabou de acordar, e o médico já esteve aqui.
Milena franziu o cenho.
— O que ele disse?
Thiago respirou fundo antes de responder, olhando para a irmã nos olhos:
— Ele contou da gravidez a ela
Milena perder o ar por um instante. A máscara de dureza vacilou, e os ombros pesaram. A mente voltou no tempo a dor de ter perdido seu primeiro filho ainda adolescente. As mãos tremeram, mas logo ela fechou os punhos, tentando recuperar o controle.
Maria, percebendo a reação, apressou-se a falar, a voz trêmula:
— Eu não queria…
As lágrimas começaram a cair em seu rosto, o receio de ser ridicularizada outra vez lhe corroía por dentro.
Milena caminhou até a cama, lenta, cada passo pesado como chumbo. Maria apertou os olhos, esperando o pior. Mas, para surpresa dela, a mãe apenas se ajoelhou diante da cama.
Milena segurou os pulsos frágeis da filha, ainda marcados pelas cordas do c*******o. A voz saiu rouca, quebrada:
— Eu não vou te machucar, Maria… nunca mais.
Maria arregalou os olhos, confusa.
— Mãe…
Milena a interrompeu, lágrimas agora escorrendo pelo rosto da Soberana, uma cena rara que até Thiago observava em silêncio, chocado:
— Eu perdi um filho uma vez… e eu jurei que não ia deixar nada acontecer com você. Mas eu falhei. Eu falhei, Maria…
Maria chorava junto, o coração confuso entre amor e rancor.
Thiago se aproximou, colocando a mão no ombro da irmã.
— Milena, escuta… ainda há esperança. O médico disse que o bebê tá vivo. Mas vocês duas precisam estar juntas agora.
Milena ergueu o rosto para a filha, os olhos vermelhos e inchados, mas carregados de determinação.
— Você não tá sozinha, ouviu? — a voz dela oscilava entre doçura e a dureza de sempre. — Pode me odiar, pode me xingar, mas eu não vou te deixar passar pelo que eu passei.
Maria, ainda hesitante, finalmente deixou que a mãe a abraçasse. Um abraço pesado, marcado por dores antigas, mas também pelo fio de esperança que começava a surgir.
Do lado de fora, Bruno observava pela fresta da porta, em silêncio. Sabia que aquele era apenas o início de um novo conflito — não só contra os inimigos lá fora, mas contra os fantasmas dentro daquela família.