O Futuro de Maria

891 Palavras
A noite estava silenciosa na casa, exceto pelo barulho distante de uma televisão ligada na sala. Maria já dormia, exausta. Bruno e Milena estavam na cozinha, sentados frente a frente, cada um com uma xícara de café intocado. Bruno quebrou o silêncio primeiro: — Milena, a gente precisa conversar sério sobre a Maria. Milena ergueu os olhos, desconfiada. — O que foi agora? Ele respirou fundo. — Eu sei que você tá cuidando dela do jeito que sabe… mas aqui, no morro, ela nunca vai estar segura. Não só por causa da gravidez arriscada, mas também pelas invasões, pelas brigas, pelos olhos em cima dela o tempo inteiro. Milena apertou a xícara com força, quase como se fosse quebrá-la. — Tá dizendo o quê, Bruno? Que eu não sou capaz de proteger a minha filha? — Não é isso. — respondeu, firme mas calmo. — Eu tô dizendo que talvez seja hora de pensar no bem maior. Em Curitiba, ela teria acesso aos melhores médicos, acompanhamento constante. E lá não estaria sozinha… tem o Thiago, a Flávia. Gente da família. Milena desviou o olhar, como se aquelas palavras a ferissem. — E eu? — perguntou num sussurro, que logo se tornou um rugido contido. — Vai me arrancar dela, é isso? Vai me deixar sozinha, sem minha filha, depois de tudo? Bruno a encarou com paciência. — Você não vai estar sem ela. Vai estar dando a chance dela viver essa gravidez em paz. Aqui, cada esquina pode ser um risco. Você sabe disso. Milena mordeu os lábios, inquieta. O peito subia e descia rápido, e a ideia da filha numa casa enorme, longe, sem seus olhos vigiando a cada passo, parecia insuportável. — Ela vai estar sozinha naquela casa, Bruno… você não entende? Ela é minha menina… se eu não estiver lá, quem vai segurar a mão dela quando o medo vier? Bruno apoiou a mão sobre a dela, com firmeza. — Não é sobre você agora, Milena. É sobre a Maria. A gente precisa escolher o que é melhor pra ela, não o que acalma os nossos medos. Por um instante, o silêncio se instalou novamente. Milena fechou os olhos, lutando contra a tempestade dentro de si. Ela sabia que Bruno tinha razão mas também sabia que abrir mão do controle era como morrer um pouco. — Eu… eu vou pensar. — disse por fim, a voz embargada. — Mas se minha filha sofrer um arranhão sequer lá em Curitiba… eu juro que ninguém segura o que eu vou fazer. Bruno assentiu, entendendo que aquele era o máximo de concessão que teria dela naquela noite. Maria estava sentada na poltrona da sala, enrolada em um cobertor, segurando uma caneca de chá. O rosto ainda mostrava marcas do cansaço e da dor, mas os olhos, atentos, denunciavam que ela estava mais forte do que antes. Milena e Bruno se aproximaram devagar, como se estivessem pisando em terreno minado. Bruno foi o primeiro a falar: — Filha, a gente queria conversar com você sobre uma ideia que tivemos. Maria ergueu as sobrancelhas, desconfiada. — Que ideia? Milena se ajeitou no sofá ao lado, visivelmente desconfortável. — A gente acha… que talvez fosse melhor você ir pra Curitiba por um tempo. Lá tem médicos de confiança, acompanhamento de perto. Vai ser mais seguro pra você e pro bebê. O silêncio caiu como uma pedra no ambiente. Maria apertou a caneca contra o peito, o coração acelerando. — Curitiba? — repetiu, devagar. — Vocês querem me mandar embora? — Não é mandar embora, Maria. — Bruno corrigiu, com calma. — É te proteger. Aqui… você sabe, não dá pra ter paz. Maria respirou fundo, encarando os dois. — E vocês? Vão ficar aqui? Milena desviou o olhar, apertando as mãos sobre o colo. — Eu… eu ficaria aqui, resolvendo as coisas. Você não entende, filha, eu não posso abandonar o morro agora. Maria engoliu em seco. — Então eu vou estar sozinha. — afirmou, a voz trêmula. — Numa casa enorme, sem vocês. Bruno se inclinou para frente. — Não sozinha, filha. Vai estar com seu tio Thiago, com a tia-avó Flávia. Eles vão cuidar de você. Maria balançou a cabeça. — Não é a mesma coisa, pai. Eu já estive sozinha antes, lembra? Quando vocês dois estavam ocupados demais brigando com o mundo. Eu sei como dói. — Ela respirou fundo, lutando contra as lágrimas. — Agora eu tenho um bebê. Eu não quero enfrentar isso sem vocês. As palavras atingiram Milena como uma lâmina. Ela se virou, os olhos marejados, e encarou a filha. — Eu… eu só tenho medo de te perder, Maria. — confessou, a voz falhando. — Já perdi uma vez um bebê do teu pai. E se eu perder você também… eu não sobrevivo. Maria ficou em silêncio, digerindo aquela revelação inesperada. Então, estendeu a mão e tocou a da mãe. — Mãe, eu não quero ir embora. Mas… se for mesmo pra eu ficar viva, pra esse bebê nascer bem… eu aceito. Só não me deixem sozinha de novo. Bruno respirou aliviado, enxugando discretamente as lágrimas. — Então a gente vai pensar num jeito de fazer isso do melhor modo possível. Ninguém vai te abandonar, filha. Milena apertou a mão da filha com força, como se prometesse a si mesma nunca mais soltá-la.
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