Rumo a Curitiba

1077 Palavras
Maria estava deitada na cama, o quarto iluminado apenas pelo abajur suave. Letícia penteava os cabelos dela com calma, num gesto quase terapêutico. Depois de alguns segundos de silêncio, Maria suspirou e quebrou o clima: — Lê… eu tava pensando. — disse, com a voz baixa. — Se eu tiver que ir mesmo pra Curitiba… queria que você fosse comigo. Letícia parou o movimento, surpresa. — Eu? — Sim, você. — Maria se virou de lado, encarando a amiga. — Eu confio em você. Lá, pelo menos no começo, até me acostumar, eu ia me sentir menos sozinha se tivesse você por perto. Letícia mordeu o lábio, pensativa. — Mas e sua família? Seu tio Thiago, sua tia Flávia… — Eles têm a vida deles. — Maria respondeu, firme. — Não quero ser peso. Já vou estar mexendo com tudo, com a rotina de todo mundo. Mas você… você sempre esteve comigo. Você me entende, Lê. A amiga respirou fundo, tentando esconder a emoção. — Sabe que eu sempre quis sair daqui, né? — confessou. — Aqui no morro ninguém dá oportunidade. Sempre olham torto, sempre tratam a gente como se fosse menos. Eu quero estudar, trabalhar, ser alguém. Mas nunca tive como. — Um sorriso tímido surgiu. — Talvez Curitiba seja a chance que eu precisava. Maria apertou a mão dela. — Então vamos juntas. No dia seguinte, as duas se reuniram com Milena e Bruno na sala. A Soberana ouviu a proposta em silêncio, os olhos semicerrados, analisando cada palavra. Quando Maria terminou, o ar pareceu pesado. Milena cruzou os braços. — Então é isso? Você quer levar a Letícia? Maria assentiu. — Quero. Ela é minha amiga. Confio nela. Milena respirou fundo, encarando Letícia com aquela intensidade que fazia qualquer um tremer. — Muito bem… eu aceito. Mas vai ser do meu jeito. — disse, a voz firme como aço. Bruno olhou de lado, apreensivo. — Milena… Ela levantou a mão para silenciá-lo e continuou: — Se for, vai ter regras. — Ela encarou Letícia diretamente. — Primeira: você nunca vai deixar minha filha sozinha. Em nenhum lugar, por nenhum motivo. Segunda: qualquer problema, por menor que seja, você me liga. Imediatamente. E terceira… — Milena fez uma pausa dramática, o olhar cortante. — Se eu descobrir que você falhou em proteger a Maria, eu mesma vou atrás de você. O coração de Letícia disparou, mas ela manteve a postura. — Eu entendo, dona Milena. E prometo que não vou falhar. Maria segurou a mão da amiga, sentindo o peso da aprovação. — Obrigada, mãe. Por um instante raro, Milena suavizou o semblante e estendeu a mão para acariciar o rosto da filha. — Só quero garantir que você vai ficar bem, Maria. A sala do obstetra estava silenciosa, quebrada apenas pelo som dos aparelhos. Maria deitada na maca, o coração acelerado enquanto o médico observava atentamente os exames de ultrassom. Milena, sentada ao lado, mantinha o semblante sério, mas os dedos batiam impacientes no braço da poltrona. Bruno, de pé, observava em silêncio, tentando segurar a própria ansiedade. — Bom… — o médico ajeitou os óculos e sorriu. — O bebê está bem. O sangramento foi um alerta, mas a recuperação da Maria tem sido positiva. Milena se inclinou para frente. — E a viagem? Ela pode? O médico hesitou um instante. — Com alguns cuidados, sim. Nada de esforço físico, alimentação regulada e acompanhamento imediato quando chegarem em Curitiba. Mas não vejo impeditivo. Milena fechou os olhos por um segundo, como se tirasse um peso dos ombros. Bruno respirou aliviado e tocou a mão da filha. — Então é isso. Vamos garantir que tudo corra bem. Maria sorriu, emocionada. — Obrigada, doutor. Horas depois, o carro descia a estrada em direção ao aeroporto. Maria, com a mão entrelaçada à de Letícia, olhava pela janela, o coração batendo mais rápido a cada quilômetro de distância do morro. Milena, no banco da frente, se mantinha calada, mas os olhos fixos no retrovisor denunciavam sua atenção constante. No embarque, os abraços foram apertados. Milena segurou a filha pelo rosto, com aquele olhar que misturava dureza e ternura. — Lembre-se do que eu disse, Maria. E cuide-se. — depois, virou-se para Letícia, a voz mais baixa, mas firme. — E você… não esqueça das regras. — Pode confiar. — Letícia respondeu, com um fio de nervosismo. Pouco depois, já acomodadas no avião, Maria encostou a cabeça no vidro, observando as nuvens ao longe. O silêncio se quebrou quando ela suspirou fundo. — Lê… você sabe que eu morei ate os 13 anos la, e passei as férias em Curitiba, né? Desde os quinze anos. — Você já falou um pouco, mas nunca em detalhes. — Letícia ajeitou o cinto, curiosa. Maria sorriu com nostalgia. — Lá eu tinha meus amigos… a Renata, o Lucas, o Luan e o Matheus. A gente era inseparável. Aos treze, cheguei até a ter um namorico com o Matheus, coisa boba de adolescente. Mas foi com o Luan que as coisas foram diferentes… Letícia arqueou as sobrancelhas. — Diferentes como? Maria respirou fundo, como se buscasse coragem para admitir. — Dos quinze aos dezessete, enquanto eu passava as férias na casa da tia Flávia, eu e o Luan ficamos juntos. Ele sempre me tratou de um jeito… especial, sabe? Ele me amava de verdade. — os olhos dela marejaram, mas um sorriso leve escapou. — E de alguma forma, acho que uma parte de mim também sempre gostou ele. Letícia a observou em silêncio por alguns segundos, antes de perguntar com delicadeza: — E agora? Com tudo isso… com o Guilherme? Maria abaixou a cabeça, a voz embargada. — Eu amo o Gui. Loucamente. Mas o Luan… — ela fez uma pausa, apertando a mão da amiga — …ele é uma lembrança viva de uma Maria que não carregava tantos traumas. Estar perto dele talvez faça eu me sentir inteira de novo. Letícia apoiou a cabeça no encosto e sorriu de leve. — Então parece que essa viagem vai trazer mais do que descanso, hein? Maria riu, tímida, e encostou a cabeça no ombro da amiga. — Talvez… mas, acima de tudo, eu só quero paz, Lê. Pra mim e pro meu filho. Enquanto o avião ganhava altura, deixando o Rio para trás, Maria sentia que não estava apenas mudando de cidade. Era como se abrisse um novo capítulo de sua vida onde passado, presente e futuro iriam inevitavelmente se encontrar.
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