O silêncio da mansão era quase sagrado, cortado apenas pelo som distante de vozes que vinham do corredor principal. Guilherme, ainda se acostumando à rotina calma e à generosidade da mulher que o acolhera, caminhava devagar, guiado pela curiosidade que o corroía desde o dia em que acordara ali.
Sol, como ela insistia em ser chamada, parecia uma mulher de outro mundo — refinada, elegante, e ao mesmo tempo envolta em um ar de poder que deixava até os seguranças tensos. Havia algo nela que Guilherme não conseguia decifrar.
Naquela manhã, depois de terminar o café, ele se aventurou além dos limites que Sol lhe pedira para respeitar. Seguiu por um corredor longo, com tapetes que abafavam os passos, e parou diante de uma porta dupla, de madeira escura, parcialmente entreaberta.
De lá vinha a voz de Sol — firme, fria e com uma entonação que ele nunca ouvira antes.
— Capire bene, non voglio più errori. (Entenda bem, não quero mais erros)— dizia ela em italiano, a voz ecoando com autoridade. — Le Dalledone non si piegano, e i Mallardo devono rispetto alla mia parola.(Os Dalledone não se curvam, e os Mallardo devem respeitar minha palavra.)
Guilherme franziu o cenho. “Mallardo”… “Dalledone”… os nomes soavam familiares, mas ele não conseguia associá-los a nada. Seu coração acelerou quando ouviu outro homem responder, a voz filtrada pela ligação de vídeo:
— Solange, tua parola è legge, ma questa donna… Milena… è ancora viva.(Solange, sua palavra é lei, mas essa mulher… Milena… ainda está viva.)
Ao ouvir aquele nome — Milena — Guilherme recuou um passo, o corpo inteiro em alerta. Por instinto, ele se aproximou mais da fresta, tentando captar cada palavra.
Solange falava com gestos controlados, o rosto sério refletido na tela do notebook sobre a mesa. — Milena vive, sì. Ma non dimenticate chi ha sangue Mallardo nelle vene. E chi osa ferire la mia famiglia… paga.(Milena está viva, sim. Mas não se esqueça de quem tem sangue Mallardo nas veias. E quem ousar fazer m*l à minha família... paga.)
Antes que ele pudesse processar aquelas palavras, um som atrás dele o fez gelar.
— Perdido, rapaz? — perguntou uma voz grave.
Guilherme se virou rapidamente. Um dos seguranças — o mesmo que raramente o deixava andar sozinho — o observava com um olhar reprovador. Em segundos, o homem o segurou pelo braço e abriu a porta, revelando Solange no auge da conversa.
Ela não se surpreendeu. Apenas encerrou a ligação com um clique e se recostou na cadeira, os olhos frios fixos nele.
— Pode soltá-lo, Dario. — ordenou calmamente. — Eu já esperava que o nosso convidado fosse curioso demais para ficar quieto.
Guilherme engoliu em seco, mas não desviou o olhar.
— Eu… ouvi um nome? Ouvi o nome de Milena. —
Um sorriso quase imperceptível surgiu no rosto dela.
— Você tem boa audição, rapaz. Sente-se. — apontou para a poltrona diante da mesa.
Ele obedeceu, ainda tenso. O escritório era luxuoso, forrado de estantes antigas e retratos de família. Um deles chamava sua atenção Sol, mais jovem, ao lado de um homem alto, de olhos verdes,o rosto lembra o filho dela, Outro retrato mostrava apenas o mesmo homem, agora em uma pose séria.
— Quem é ele? — perguntou Guilherme, apontando a foto.
Solange seguiu o olhar dele. Por um breve instante, seus traços endureceram.
— Meu marido, Lucca Mallardo. Um dos herdeiros do Clã Mallardo, de Nápoles. —Ela se levantou, caminhando até o retrato. Sua voz agora vinha mais baixa, carregada de memórias.
— Ele era um homem justo… mas vivia num mundo de poder e sangue. Quando morreu, uma parte de mim morreu com ele. —Guilherme observava atento.
— E o nome Dalledone?
Solange sorriu de canto, mas seu olhar era afiado.
— Meu sobrenome de nascimento. Solange Dalledone Mallardo. A última dos Delladoni, e a viúva de um Mallardo. —
Ela se aproximou, apoiando as mãos na mesa.
— Agora, Guilherme… me diga, o que você realmente quer saber?
Ele respirou fundo.
— Por que eu? Por que me tirar do hospital? Cuidar de mim como se me conhecesse?
Solange o observou em silêncio por longos segundos, e então respondeu com um tom mais brando, mas ainda envolto em mistério.
— Porque você me lembra alguém. Alguém que eu perdi há muito tempo. E porque… — ela fez uma pausa, fitando-o nos olhos — …eu acredito que o destino não coloca as pessoas em nosso caminho por acaso.
O silêncio se instalou entre eles. Guilherme ainda tentava processar tudo o que ouvira os nomes, os laços, a sensação de estar em meio a algo muito maior do que imaginava.
Solange então completou, com um sorriso enigmático:
— Descansar é importante, meu caro. Logo você entenderá por que está aqui.
Ele se levantou lentamente, sem coragem de insistir. Quando deixou o escritório, o coração batia acelerado. Aquelas palavras — Milena vive… — ecoavam como um aviso.
Do outro lado da porta, Solange observava o retrato do filho com olhos marejados.
— Fabio… teu sangue corre onde o destino quer que corra. — murmurou.
E, pela primeira vez em anos, Solange Dalledone sentiu o peso do passado prestes a se erguer novamente.