Solange Dalledone

884 Palavras
O silêncio da mansão era quase sagrado, cortado apenas pelo som distante de vozes que vinham do corredor principal. Guilherme, ainda se acostumando à rotina calma e à generosidade da mulher que o acolhera, caminhava devagar, guiado pela curiosidade que o corroía desde o dia em que acordara ali. Sol, como ela insistia em ser chamada, parecia uma mulher de outro mundo — refinada, elegante, e ao mesmo tempo envolta em um ar de poder que deixava até os seguranças tensos. Havia algo nela que Guilherme não conseguia decifrar. Naquela manhã, depois de terminar o café, ele se aventurou além dos limites que Sol lhe pedira para respeitar. Seguiu por um corredor longo, com tapetes que abafavam os passos, e parou diante de uma porta dupla, de madeira escura, parcialmente entreaberta. De lá vinha a voz de Sol — firme, fria e com uma entonação que ele nunca ouvira antes. — Capire bene, non voglio più errori. (Entenda bem, não quero mais erros)— dizia ela em italiano, a voz ecoando com autoridade. — Le Dalledone non si piegano, e i Mallardo devono rispetto alla mia parola.(Os Dalledone não se curvam, e os Mallardo devem respeitar minha palavra.) Guilherme franziu o cenho. “Mallardo”… “Dalledone”… os nomes soavam familiares, mas ele não conseguia associá-los a nada. Seu coração acelerou quando ouviu outro homem responder, a voz filtrada pela ligação de vídeo: — Solange, tua parola è legge, ma questa donna… Milena… è ancora viva.(Solange, sua palavra é lei, mas essa mulher… Milena… ainda está viva.) Ao ouvir aquele nome — Milena — Guilherme recuou um passo, o corpo inteiro em alerta. Por instinto, ele se aproximou mais da fresta, tentando captar cada palavra. Solange falava com gestos controlados, o rosto sério refletido na tela do notebook sobre a mesa. — Milena vive, sì. Ma non dimenticate chi ha sangue Mallardo nelle vene. E chi osa ferire la mia famiglia… paga.(Milena está viva, sim. Mas não se esqueça de quem tem sangue Mallardo nas veias. E quem ousar fazer m*l à minha família... paga.) Antes que ele pudesse processar aquelas palavras, um som atrás dele o fez gelar. — Perdido, rapaz? — perguntou uma voz grave. Guilherme se virou rapidamente. Um dos seguranças — o mesmo que raramente o deixava andar sozinho — o observava com um olhar reprovador. Em segundos, o homem o segurou pelo braço e abriu a porta, revelando Solange no auge da conversa. Ela não se surpreendeu. Apenas encerrou a ligação com um clique e se recostou na cadeira, os olhos frios fixos nele. — Pode soltá-lo, Dario. — ordenou calmamente. — Eu já esperava que o nosso convidado fosse curioso demais para ficar quieto. Guilherme engoliu em seco, mas não desviou o olhar. — Eu… ouvi um nome? Ouvi o nome de Milena. — Um sorriso quase imperceptível surgiu no rosto dela. — Você tem boa audição, rapaz. Sente-se. — apontou para a poltrona diante da mesa. Ele obedeceu, ainda tenso. O escritório era luxuoso, forrado de estantes antigas e retratos de família. Um deles chamava sua atenção Sol, mais jovem, ao lado de um homem alto, de olhos verdes,o rosto lembra o filho dela, Outro retrato mostrava apenas o mesmo homem, agora em uma pose séria. — Quem é ele? — perguntou Guilherme, apontando a foto. Solange seguiu o olhar dele. Por um breve instante, seus traços endureceram. — Meu marido, Lucca Mallardo. Um dos herdeiros do Clã Mallardo, de Nápoles. —Ela se levantou, caminhando até o retrato. Sua voz agora vinha mais baixa, carregada de memórias. — Ele era um homem justo… mas vivia num mundo de poder e sangue. Quando morreu, uma parte de mim morreu com ele. —Guilherme observava atento. — E o nome Dalledone? Solange sorriu de canto, mas seu olhar era afiado. — Meu sobrenome de nascimento. Solange Dalledone Mallardo. A última dos Delladoni, e a viúva de um Mallardo. — Ela se aproximou, apoiando as mãos na mesa. — Agora, Guilherme… me diga, o que você realmente quer saber? Ele respirou fundo. — Por que eu? Por que me tirar do hospital? Cuidar de mim como se me conhecesse? Solange o observou em silêncio por longos segundos, e então respondeu com um tom mais brando, mas ainda envolto em mistério. — Porque você me lembra alguém. Alguém que eu perdi há muito tempo. E porque… — ela fez uma pausa, fitando-o nos olhos — …eu acredito que o destino não coloca as pessoas em nosso caminho por acaso. O silêncio se instalou entre eles. Guilherme ainda tentava processar tudo o que ouvira os nomes, os laços, a sensação de estar em meio a algo muito maior do que imaginava. Solange então completou, com um sorriso enigmático: — Descansar é importante, meu caro. Logo você entenderá por que está aqui. Ele se levantou lentamente, sem coragem de insistir. Quando deixou o escritório, o coração batia acelerado. Aquelas palavras — Milena vive… — ecoavam como um aviso. Do outro lado da porta, Solange observava o retrato do filho com olhos marejados. — Fabio… teu sangue corre onde o destino quer que corra. — murmurou. E, pela primeira vez em anos, Solange Dalledone sentiu o peso do passado prestes a se erguer novamente.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR