A noite caía sobre a mansão como um manto de veludo. A cidade parecia distante — apenas o mar, ao longe, quebrava o silêncio com seu ritmo hipnótico.
No escritório, iluminado apenas por uma luminária dourada, Solange Delladoni Mallardo permanecia sentada à mesa, os olhos fixos no monitor.
A tela piscava, e logo a imagem de um homem de cabelos grisalhos e olhar duro surgiu.
— Buonasera, Signora Mallardo. (Boa noite, Sra. Mallardo.) — cumprimentou ele, com um leve aceno de cabeça. — Credevamo che fossi morta anche tu. (Nós pensamos que você também estava morta.)
Solange soltou um leve sorriso, o tipo de sorriso que não alcançava os olhos.
— Non sono così facile da eliminare, Don Vittorio. (Não sou tão fácil de eliminar, Dom Vittorio) — respondeu ela em italiano impecável. — Ma ho bisogno di più tempo.(Mas preciso de mais tempo.)
O homem arqueou a sobrancelha.
— Tempo? Per cosa? Hai promesso che il debito sarebbe stato chiuso dopo la morte di Fabio.(Tempo? Para quê? Você prometeu que a dívida seria paga após a morte do Fábio.)
Ao ouvir o nome do filho, a expressão de Solange endureceu.
— Fabio era mio sangue. (Fabio era meu sangue) — disse com voz baixa, quase num sussurro de dor. — Ma il sangue Mallardo non finisce con lui. (Mas o sangue de Mallardo não termina com ele.)
Don Vittorio franziu o cenho, intrigado.
— Cosa stai dicendo?
Solange se recostou na cadeira, cruzando as pernas com elegância.
— La discendenza continua… attraverso sua figlia.(A linhagem continua… através de sua filha.)
Por um instante, o silêncio tomou conta da ligação. Do outro lado, o velho mafioso recuou na cadeira.
— Una bambina?
Solange meneou a cabeça.
— Non più una bambina. È una donna… e aspetta un figlio.(Ela não é mais uma criança. Ela é uma mulher... e está esperando um filho.)
A reação foi imediata. Don Vittorio bateu o punho na mesa.
— Sei impazzita, Solange? Questo significa sangue Mallardo nelle vene di un bastardo! La famiglia non accetterà! (Você tá louca, Solange? Isso significa sangue Mallardo nas veias de um canalha! A família não vai aceitar!)
Solange manteve a calma.
— Non accetteranno… ancora. (Eles não vão aceitar… ainda.)— corrigiu, o olhar cortante. — Mas se eu puder garantir que o herdeiro nasça seguro, e longe das mãos erradas, o nome Mallardo voltará a ter força. Essa criança é o futuro, Vittorio. O sangue do meu filho, o sangue do vosso clã. (Mas se você puder garantir que o herdeiro nasça em segurança, e não importa quantos erros, o nome Mallardo mudará. Esta criança é o futuro, Vittorio. Ó sangue do meu filho, ó sangue do meu filho)
Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, estudando-a pela tela.
— E la madre?
Um leve sorriso surgiu nos lábios de Solange.
— La madre non ha idea del sangue che porta con sé, ma col tempo lo saprà (A mãe não tem ideia do sangue que carrega consigo, mas com o tempo ela saberá.)
O homem respirou fundo e respondeu num tom grave:
— Se ti diamo tempo, vogliamo risultati. Nessuno deve sapere della discendenza. Altrimenti, anche tu cadrai con loro.
(Se lhe dermos tempo, queremos resultados. Ninguém deve saber sobre a linhagem. Caso contrário, você também cairá com eles.)
Solange assentiu.
— Non vi deluderò.(Não vou decepcionar você.)
A tela escureceu. Ela ficou parada, olhando para o próprio reflexo. Seu rosto, cansado e belo, refletia décadas de segredos e perdas.
Ela murmurou, em voz baixa, quase para si:
— O sangue Mallardo… ainda pulsa. E ninguém — nem Milena, nem Bruno, nem o destino — vai apagar isso.
Com um leve toque, fechou o notebook e ergueu uma taça de vinho.
— A te, Fabio… e al nostro futuro. (A você, Fábio… e ao nosso futuro) — brindou.
Lá fora, o vento soprava forte, e uma tempestade começava a se formar.