O avião pousou suavemente na pista do aeroporto de Curitiba. O céu cinza típico da cidade parecia acolher quem chegava de longe. Maria olhou pela janela, respirando fundo. O coração batia apertado — entre o medo e a esperança.
Letícia ajeitou a mochila no colo e sorriu de leve.
— Pronta pra nova vida, dona Maria Yamaguchi Souza? — brincou, usando o sobrenome com ironia.
Maria riu baixo, nervosa.
— Acho que “pronta” é uma palavra forte demais, Lê… mas tô tentando.
O desembarque foi silencioso. Do lado de fora, o frio cortante os recebeu com um sopro gelado. Maria encolheu os ombros e puxou o casaco. De repente, uma voz conhecida ecoou:
— Meninas!
Era Flávia, tia-avó de Maria, acenando empolgada perto de uma caminhonete preta. Ao lado dela, Thiago sorria, com o mesmo jeito sereno de sempre.
Maria correu até eles, abraçando primeiro a tia.
— Tia Flávia! — exclamou com emoção. — Que saudade!
— Minha menina! — disse Flávia, apertando-a nos braços. — Tá tão magrinha, credo. E esse cabelo, meu Deus… o que tua mãe anda fazendo contigo, hein?
Maria sorriu sem graça.
— Coisas da mãe, né?
Thiago aproximou-se e passou o braço pelos ombros da sobrinha.
— Bem-vinda de volta, pequena. Tá pronta pra recomeçar?
— Tentando, tio. — respondeu ela. — Eu precisava desse ar novo.
Letícia se aproximou, um pouco sem jeito.
— Oi… sou a Letícia, amiga da Maria.
— Eu sei, menina. — respondeu Flávia com um sorriso. — Já ouvi falar muito de você! Entra logo, vocês devem estar congelando.
O caminho até a casa foi tranquilo. A cidade passava pelas janelas: ruas arborizadas, o cheiro de chuva no ar e um frio que parecia limpar a alma.
Quando chegaram, Maria se surpreendeu. A casa era grande, aconchegante, cheia de plantas e cheiros de bolo recém-assado. Um lar.
— Esse é o quarto de vocês. — disse Flávia, abrindo a porta. — Por enquanto, vão dividir. Depois a gente vê o que faz.
Maria se jogou na cama, suspirando aliviada.
— Faz tanto tempo… mas parece que nunca fui embora.
Thiago se apoiou no batente da porta.
— Essa cidade sempre te esperou, Maria. E agora, você precisa cuidar de você e do bebê, certo?
Ela assentiu, emocionada.
— Eu sei, tio. Prometo que vou tentar.
Flávia, sempre prática, interrompeu o clima.
— E amanhã vocês duas vão comigo até o mercado. Nada de preguiça, hein? — disse, arrancando risadas das meninas.
Maria olhou pela janela. O céu começava a clarear, e uma sensação de paz tomou conta dela. Por um instante, acreditou que, talvez, o passado tivesse ficado no morro.
Mas, no fundo, sabia que não era bem assim.
Enquanto ela adormecia, em algum lugar do Rio de Janeiro, Solange Dalledone recebia uma mensagem curta em seu celular:
“Ela chegou em Curitiba. A criança está segura.”
Solange apagou a tela e sorriu.