O sol de fim de tarde se infiltrava pelas janelas da cozinha, espalhando tons dourados sobre o balcão. Maria e Letícia haviam acabado de voltar do mercado, rindo entre sacolas e frutas frescas. Curitiba tinha um ar diferente — frio, mas acolhedor. As ruas largas e o silêncio entre os pinheiros contrastavam com o som constante do morro que ambas deixaram para trás.
Na casa de Flávia, tudo era organizado, limpo, com um perfume leve de lavanda. Maria se sentia em outro mundo um mundo onde podia respirar sem medo.
— Eu ainda não me acostumei com esse silêncio — disse Letícia, colocando as compras sobre a mesa. — Lá no morro a gente dormia com funk, fogos e moto. Aqui até o vento é educado.
Maria riu, mexendo em uma sacola. — É… mas sabe que às vezes eu sinto falta do barulho? Parece que aqui o tempo passa devagar demais.
Letícia a olhou de lado, percebendo a saudade escondida na voz da amiga. — Tá pensando nele, né?
Maria suspirou. — Às vezes eu tento não pensar, mas é difícil… parece que tudo aqui me lembra o que ficou pra trás.
Elas ficaram em silêncio por um tempo, até que Letícia, mexendo nos papéis que Maria trouxe da consulta com o obstetra, franziu o cenho.
— Ô, Maria… posso te perguntar uma coisa sem tu ficar brava?
— Pode — respondeu Maria, distraída, enquanto lavava algumas frutas.
— É sobre teu nome. Aqui na ficha do hospital tá “Maria Yamaguchi Souza”, igual da tua mãe, né?
Letícia ergueu a folha e completou, curiosa:
— Mas… nenhum dos teus pais tem exatamente esse sobrenome. Bruno é Rodrigues, e teu pai biológico, aquele… o Fábio, né? É Mallardo. Por que tu não tem o nome de nenhum dos dois?
Maria parou por um instante. A pergunta soou simples, mas carregava um peso que ela nunca tinha parado pra encarar. Secou as mãos no pano e se sentou em frente à amiga.
— Minha mãe escolheu assim — começou, com um tom leve, mas os olhos marejados. — Quando eu nasci, ela disse que eu não ia carregar o nome de homem nenhum. Nem do Bruno, nem do Fábio. Disse que queria que eu tivesse o nome dela… e só.
Letícia arqueou as sobrancelhas, surpresa. — Tipo… pra tu decidir depois qual usar?
Maria assentiu, pensativa. — É. Ela disse que quando eu crescesse, poderia escolher: ser “ Rodrigues”, como o homem que me criou… ou “ Mallardo”, como o homem que me fez nascer.
Fez uma pausa e olhou pela janela, a voz tremendo levemente:
— Mas eu nunca pensei nisso de verdade, sabe? Nunca achei que isso fosse importar.
Letícia se inclinou, apoiando o queixo na mão. — E agora? Tu já pensou qual usaria?
Maria deu um pequeno sorriso, misto de ironia e dor. — Ainda não. Acho que parte de mim tem medo. Se eu usar o nome do Bruno, parece que n**o metade de quem eu sou. Mas se eu usar o nome do Fábio… parece que tô traindo quem me criou, quem me deu amor.
Letícia concordou devagar, pensativa. — E se tu só continuar sendo quem sempre foi? Maria Yamaguchi Souza. O resto é só papel, amiga.
Maria sorriu com ternura. — Talvez seja isso mesmo… mas às vezes, quando olho pro espelho, me pergunto qual parte do meu sangue fala mais alto.
Letícia riu. — O sangue da Milena, com certeza! Essa cara de braveza não engana ninguém.
As duas caíram na risada, quebrando o peso da conversa. Do lado de fora, Flávia e Otavio conversavam sobre o jantar, e por um instante, Maria sentiu que aquele novo começo podia dar certo mesmo com o coração dividido entre o amor que ficou no Rio e as lembranças que ainda doíam.
Mas algo dentro dela dizia que aquele assunto o nome, o sangue, e as histórias que ele escondia ainda voltaria.
E quando voltasse, traria respostas que ela talvez não estivesse pronta pra ouvir