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Clara
Capítulo 1 — Os Olhos na Floresta
Eu apertava os livros contra o peito enquanto caminhava pela estreita trilha de terra que atravessava a floresta. O céu estava tingido pelos tons dourados do fim da tarde, e o vento frio fazia as folhas secas dançarem pelo caminho. Aquela deveria ser apenas mais uma volta para casa depois da escola, mas, como quase todos os dias desde a mudança, minha mente estava longe dali.
Ainda era difícil acreditar em tudo o que havia acontecido.
Um ano atrás, minha vida era completamente diferente.
Eu morava em Seattle com meus pais. Nosso apartamento não era enorme, mas era aconchegante. Das janelas da sala, eu podia ver as luzes da cidade brilhando durante a noite. Havia cafeterias em cada esquina, lojas, parques e o barulho constante das pessoas vivendo suas vidas.
Eu tinha amigos.
Tinha minha escola.
Tinha minha rotina.
E, acima de tudo, tinha meu pai.
Meu pai era a pessoa mais importante da minha vida.
Era ele quem me acordava para a escola quando eu fingia não ouvir o despertador. Era ele quem preparava panquecas aos domingos e queimava metade delas enquanto dizia que aquilo fazia parte da receita. Era ele quem assistia filmes comigo até tarde da noite e ria das minhas piadas sem graça como se fossem as mais engraçadas do mundo.
Ele era meu porto seguro.
Então, de repente, ele se foi.
A notícia chegou como uma tempestade que destrói tudo em seu caminho.
Num momento eu tinha uma família completa.
No outro, havia apenas um vazio impossível de preencher.
Durante semanas, eu não consegui aceitar a realidade. Continuava esperando ouvir seus passos entrando pela porta. Às vezes eu pegava meu celular para enviar uma mensagem e só depois lembrava que ele nunca responderia.
A dor vinha em ondas.
Alguns dias eu conseguia sorrir.
Em outros, m*l conseguia sair da cama.
Mas a pessoa que mais sofreu foi minha mãe.
Depois da morte dele, parecia que uma parte dela também havia desaparecido.
Ela parou de cantar enquanto cozinhava.
Parou de assistir suas séries favoritas.
Parou até mesmo de decorar a casa para as datas comemorativas, algo que sempre adorava fazer.
A tristeza tomou conta de cada canto do apartamento.
Cada cômodo guardava uma lembrança dele.
Cada fotografia parecia um lembrete c***l do que havíamos perdido.
Foi então que minha mãe tomou uma decisão que mudou tudo.
Ela disse que não conseguia mais viver ali.
Que precisava recomeçar.
Que precisava respirar em outro lugar.
Eu tentei argumentar.
Tentei convencê-la a ficar.
Mas, no fundo, eu sabia que ela estava desesperada para fugir da dor.
Poucos meses depois, vendemos quase tudo o que possuíamos.
Deixei minha escola.
Me despedi dos meus amigos.
Abandonei os lugares que faziam parte da minha vida desde que eu era criança.
E nos mudamos para uma pequena cidade cercada por florestas.
Quando chegamos, o choque foi enorme.
Seattle era cheia de movimento.
Aquela cidade parecia parada no tempo.
As ruas eram quase vazias.
As casas ficavam afastadas umas das outras.
E as pessoas pareciam saber tudo sobre todo mundo.
Como se isso não fosse estranho o suficiente, nossa nova casa era uma antiga mansão herdada de parentes distantes.
A primeira vez que a vi, senti um arrepio.
Ela era gigantesca.
Escura.
Antiga.
Com paredes cobertas por heras e janelas altas que pareciam observar quem passava.
Mais parecia um lugar saído de um livro de mistério do que uma casa.
Mas minha mãe se apaixonou imediatamente.
Ela dizia que aquela mansão representava um novo começo.
Eu apenas enxergava o quanto estávamos longe da vida que conhecíamos.
Todos os dias eu precisava atravessar uma floresta enorme para chegar da escola até em casa.
No início, aquele caminho me assustava.
Depois se tornou apenas mais uma parte da minha nova rotina.
Ainda assim, nunca consegui me sentir completamente confortável ali.
Talvez porque a floresta fosse silenciosa demais.
Talvez porque a mansão parecesse esconder segredos.
Ou talvez porque, no fundo, eu ainda não me sentisse pertencente àquele lugar.
Suspirei enquanto continuava andando.
Sentia falta do meu pai todos os dias.
Sentia falta da nossa antiga vida.
Sentia falta de ser a Clara que existia antes de tudo desmoronar.
Foi então que ouvi um estalo.
Parei imediatamente.
O som parecia ter vindo de trás de mim.
Olhei por cima do ombro.
Nada.
Apenas árvores.
Respirei fundo e continuei caminhando.
Mas alguns segundos depois ouvi novamente.
Passos.
Lentos.
Pesados.
Meu coração começou a acelerar.
Virei rapidamente.
Outra vez, não havia ninguém.
O silêncio tomou conta da floresta.
Porém uma sensação estranha se instalou dentro de mim.
A sensação de que eu não estava sozinha.
De que algo me observava.
De que olhos invisíveis acompanhavam cada um dos meus movimentos.
E então eu vi.
Entre as árvores.
Dois olhos vermelhos brilhando na escuridão.
Observando.
Esperando.
E naquele instante, todos os meus instintos gritaram uma única coisa:
Corra.
Eu corri.
Corri o mais rápido que minhas pernas permitiam.
Os livros escaparam dos meus braços e caíram pelo caminho, mas eu não parei.
Os galhos arranhavam meus braços.
As raízes quase me faziam tropeçar.
E atrás de mim eu continuava ouvindo passos.
Passos rápidos.
Como se aquilo estivesse me perseguindo.
Lágrimas de pânico começaram a embaçar minha visão.
A mansão apareceu ao longe.
As torres antigas surgindo entre as árvores como uma salvação.
— Mãe! — gritei sem nem perceber.
Corri pelo jardim abandonado.
Subi os degraus da entrada.
Empurrei a enorme porta de madeira.
Entrei.
E a bati com força.
Meu peito subia e descia desesperadamente.
Encostei as costas na porta.
Tentando recuperar o fôlego.
A casa estava silenciosa.
Silenciosa demais.
Então ouvi a voz da minha mãe vindo do andar de cima.
— Clara? Você chegou?
— Mãe! — respondi.
Mas antes que eu pudesse subir as escadas, algo me fez olhar pela janela da entrada.
Lá fora.
Na beira da floresta.
Entre as sombras das árvores.
Os mesmos olhos vermelhos brilhavam.
Fixos na mansão.
Fixos em mim.
E, pela primeira vez desde que nos mudamos para aquela cidade, tive a certeza de uma coisa:
Aquilo não era um animal.
E também não era humano.
Pisquei os olhos e o olhar havia sumido, talvez eu estivesse imaginado coisas
— O que foi filha? - minha mãe perguntou preocupada
— Nada só estou cansada da escola. - respondi e subi as escadas em direção ao meu quarto.