Clara
Acordei com um grito preso na garganta.
Meu corpo inteiro estava coberto de suor, e por alguns segundos fiquei parada na cama, olhando para o teto escuro do meu quarto, tentando entender onde eu estava.
Mas o sonho continuava vivo dentro da minha cabeça.
Parecia real demais.
Eu estava em uma floresta.
Não era a floresta que eu atravessava todos os dias para chegar em casa. Era mais escura. Mais antiga. Mais selvagem.
O vento soprava entre as árvores gigantes enquanto uma matilha de lobos corria por entre os troncos.
Lobos enormes.
Todos com pelos alaranjados.
Os olhos brilhavam como brasas acesas na escuridão.
Eles perseguiam um único lobo.
Um lobo n***o.
Grande.
Forte.
Ferido.
Eu não sabia como explicar, mas no instante em que o vi, tive certeza de quem ele era.
Meu pai.
Não fazia sentido.
Meu pai estava morto.
Lobos não falavam.
Nada daquilo era possível.
Mas eu sabia.
Sabia com a mesma certeza que sabia meu próprio nome.
Era ele.
O lobo n***o corria desesperadamente, desviando dos ataques da matilha.
Um dos lobos conseguiu alcançá-lo e cravou os dentes em sua perna.
Outro avançou pelo flanco.
Mais outro pelas costas.
Mesmo ferido, ele continuava correndo.
Tentando escapar.
Tentando sobreviver.
Meu coração doía enquanto eu assistia.
— Pai! — gritei.
Mas ele não podia me ouvir.
Nenhum deles podia.
Eu era apenas uma espectadora daquele pesadelo.
A perseguição continuou até que o lobo n***o chegou a uma clareira.
Então tudo acabou.
Porque os lobos alaranjados surgiram por todos os lados.
Cercando-o.
Sem saída.
Sem esperança.
O lobo n***o mostrou os dentes.
Rosnou.
Preparado para lutar até o fim.
Foi então que outro lobo apareceu.
Maior que todos os outros.
Mais forte.
Os olhos dourados brilhavam como ouro derretido.
A simples presença dele fazia os outros recuarem.
O alfa.
Eu tinha certeza disso.
O alfa caminhou lentamente até ficar cara a cara com meu pai.
Então falou.
Sim.
Falou.
Com uma voz grave que ecoou pela floresta.
— Isso é o que acontece quando você abandona sua matilha.
Meu pai rosnou.
O alfa apenas sorriu.
Um sorriso c***l.
— E eu sei que sua filha é a Luna.
Meu sangue gelou.
Filha.
Luna.
Ele estava falando de mim.
— Ela será minha.
Meu pai avançou um passo.
Os olhos dele queimavam de fúria.
— Só por cima do meu cadáver.
O alfa inclinou a cabeça.
— Então será exatamente assim.
No segundo seguinte a matilha inteira atacou.
Lobos surgiram de todos os lados.
Dentes.
Garras.
Rosnados.
Meu pai desapareceu sob aquela massa de corpos.
— NÃO!
Meu grito ecoou pela floresta.
E eu acordei.
Sentei na cama ofegante.
Meu coração batia tão forte que parecia querer escapar do peito.
Levei as mãos ao rosto.
Era apenas um sonho.
Um pesadelo.
Nada mais.
Mas por que parecia tão real?
Por que eu ainda conseguia ouvir a voz daquele alfa?
E por que a palavra Luna continuava ecoando dentro da minha cabeça?
⸻
Passei a manhã inteira tentando esquecer.
Não consegui.
Enquanto tomava café.
Enquanto caminhava para a escola.
Enquanto entrava na sala.
O sonho continuava voltando.
Os olhos dourados.
A matilha.
Meu pai.
A palavra Luna.
Eu me sentia estranha.
Como se estivesse carregando um peso invisível.
— Você está péssima — Ana comentou quando me viu.
— Obrigada pela sinceridade.
— Não, sério. O que aconteceu?
— Só dormi m*l.
Ela me observou por alguns segundos.
— Tem certeza?
— Tenho.
Mentira.
Mas eu não fazia ideia de como explicar aquele sonho sem parecer completamente louca.
As aulas passaram lentamente.
E durante todo o dia flashes do pesadelo voltavam à minha mente.
Às vezes eu me pegava encarando a janela da sala, lembrando da clareira.
Outras vezes lembrava do olhar do meu pai antes do ataque.
Era como se meu cérebro se recusasse a deixar aquilo ir embora.
Quando a aula de matemática começou, eu já estava exausta.
A professora entrou carregando uma pilha de provas.
— Tenho algumas notas excelentes para devolver hoje.
A sala inteira começou a reclamar.
— Lá vem.
— Ferrou.
— Eu vou repetir de ano.
Pela primeira vez naquele dia, quase sorri.
A professora começou a distribuir as provas.
Quando a minha chegou, vi o dez vermelho no topo da folha.
Pelo menos uma coisa boa.
Alguns segundos depois ouvi uma voz ao meu lado.
— Não acredito.
Olhei.
Noah encarava a própria prova como se tivesse acabado de ganhar na loteria.
— Oito e meio.
Eu arqueei uma sobrancelha.
— Parabéns.
— Eu nunca tiro oito e meio em matemática.
Ele virou para mim.
— Foi por sua causa.
Revirei os olhos.
— Não exagera.
— Estou falando sério.
Pela primeira vez ele parecia genuinamente feliz.
— Obrigado, Clara.
Fiquei em silêncio.
Ele respirou fundo.
— E também queria pedir desculpas.
Aquilo me pegou de surpresa.
— Pelo quê?
— Por ter sido um i****a.
— Vai precisar ser mais específico.
— Então por praticamente tudo.
Soltei uma risada involuntária.
— Isso ajuda.
Ele sorriu.
Por um momento quase parecia uma pessoa normal.
Não o garoto popular que ignorava minha existência durante o dia inteiro.
Quando a aula acabou, comecei a guardar minhas coisas.
Foi então que Noah apareceu novamente ao meu lado.
— Eu queria te ver de novo.
Meu movimento parou.
— Para quê?
— Conversar.
— Não.
Ele franziu a testa.
— Não?
— Já te ajudei.
Você passou na prova.
Fim da história.
Fechei minha mochila.
— Agora você pode voltar para sua vida e esquecer que eu existo.
A expressão dele mudou imediatamente.
— Esquecer você?
— Exatamente.
Tentei passar por ele.
Mas Noah segurou meu braço.
Forte.
Forte demais.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
— Você acha que vai ser fácil assim?
Olhei para sua mão.
Depois para ele.
— Solta.
— Não antes de você me ouvir.
— Noah.
— Eu estou segurando a Lara para ela não mexer com você.
Aquilo me irritou instantaneamente.
— E daí?
Ele piscou.
— Como assim, e daí?
— Eu não me importo.
Sua expressão endureceu.
— Clara…
— Não me importa você.
— …
— Não me importa a Lara.
— …
— Quero que vocês dois fiquem longe de mim.
Por um instante vi algo estranho passar pelos olhos dele.
Como se minhas palavras realmente tivessem machucado.
Mas naquele momento eu não estava nem um pouco interessada em entender Noah.
Eu só queria distância.
Puxei meu braço.
Dessa vez ele soltou.
Sem dizer nada.
Sem tentar me impedir.
Virei as costas e fui embora.
Meu coração ainda acelerado.
Quando cheguei ao refeitório, encontrei Ana e Marcos esperando por mim.
— Finalmente! — Marcos reclamou. — Achamos que você tinha sido sequestrada.
— Quase isso.
— O quê?
Balancei a cabeça.
— Nada.
Sentei entre eles.
Tentei focar na conversa.
No almoço.
Na escola.
Em qualquer coisa normal.
Mas enquanto meus amigos falavam, uma única frase continuava ecoando dentro da minha mente.
“Eu sei que sua filha é a Luna.”
E pela primeira vez desde que cheguei àquela cidade…
Comecei a me perguntar se a morte do meu pai escondia muito mais segredos do que eu imaginava.