Eu acordo com uma dor de cabeça terrível e uma sede incontrolável. A luz do sol que entra pela janela parece ser ainda mais intensa do que o normal, o que só torna minha ressaca ainda pior. Tentando me lembrar da noite anterior, a única coisa que me vem à mente são flashes de festa e muita bebida.
Enquanto me esforço para me levantar da cama, algo me vem à mente: hoje era o dia em que eu iria acompanhar minha irmã até o aeroporto. Ela está indo embora resolver algo que tinha acontecido na empresa dela e eu como seu irmão era para ter ido ler ela até o aeroporto. E só de imaginar a ideia de ficar em um carro por horas enquanto estou nesse estado não parece muito agradável para mim.
Suspiro, pesado e fico em pé, ainda me sentindo como se estivesse flutuando, andando devagar em direção ao banheiro. Ao me olhar no espelho, minha aparência não é das melhores. Meus olhos estão vermelhos e cansados, meu cabelo está emaranhado e meu rosto parece pálido. Definitivamente, não estou em condições de enfrentar o trânsito e lidar com qualquer tipo de interação social no momento.
Depois que tomei banho eu me vesti e desci para o andar de baixo, procurei minha família mas não encontrei ninguém, então resolvo tomar uma decisão. Pego meu celular e ligo para minha irmã. Ela atende com uma voz animada do outro lado da linha, e eu me pergunto se ela não bebeu ontem a noite.
— Oi Raul
— Oi Mikaelly, você já foi para o aeroporto? Te procurei aqui em casa mas não te achei…— falo com minha voz soando fraca e cansada.
— Sim, já estou aqui o papai mais a mamãe e o Nikolas veio comigo, você estava como um morto deitado na cama então não quis te acordar.
— Tudo bem, Desculpa, por não ter ido com eles, eu acordei com uma ressaca daquelas e m*l consegui sair da cama."
Há uma pausa do outro lado da linha e eu consigo ouvir minha irmã soltar uma risadinha.
— Tudo bem, Raul. Eu entendo, me desculpe também, você só está assim por minha causa.
— Não diga isso Mika
— Cuide-se, irmão, qualquer coisa liga para mim, vou ter que embarcar agora .
— Tudo bem, eu te amo
— Também te amo, quando chegar lá eu vou mandar fotos para o Nikolas que pediu.
— Tá bom, tenham uma ótima viagem.
Desligamos a ligação e volto para o quarto onde me enfio de volta na cama, tentando afastar a sensação de fracasso. Enquanto me permito um pouco mais de sono, enquanto adormeço novamente, espero que minha irmã faça uma boa viagem, pois apesar de brigarmos muito a gente se ama. Afinal, estamos sempre lá um para o outro, mesmo quando não estamos fisicamente ao lado.
(...)
Já passava das três horas da tarde e eu estava me sentindo bem, e como era um final de semana aproveitei para levar Nikolas para dar um passeio comigo.
Sorri ao ouvir meu filho falar sobre sua nova amizade com o garoto Angel da escola. Me sento ao lado de Nikolas entrego uma casquinha de sorvete para ele e pergunto animado:
- Sério? Que legal, filho! Como foi que vocês se conheceram?
Nikolas, com um sorriso no rosto, começa a contar:
- Então, pai, a gente se conheceu na aula de Educação Física, logo nos primeiros dias que eu comecei estudar, e como eu estava com dificuldades para me enturmar, ele me ajudou. Eu gostei porque ele foi legal para mim e decidi me aproximar dele, sabe? Achei que seria legal fazer amizade com ele.
Ouvindo a história do meu filho me sinto orgulhoso do bom coração do meu filho e incentivo para ele continuar assim.
- Isso é muito nobre da sua parte, Nikolas. Parabéns pela iniciativa! E como foi o primeiro encontro de vocês?
Nikolas ri e continua:
- No começo, a gente ficou meio tímido, mas logo começamos a conversar e descobrimos que temos muitas coisas em comum. Ele gosta dos mesmos jogos que eu, e também curte desenhar. Eu fiquei super empolgado em perceber que podemos nos tornar amigos de verdade, sabe? Além de que ele me leva quando sempre antes de irmos embora até a confeitaria da tia que nos dá tortas e bolos.
Raul assente e põe a mão no ombro do filho, demonstrando apoio:
- Isso é maravilhoso, Nikolas. Ter amigos com quem compartilhar interesses comuns é uma das melhores coisas da vida. Tenho certeza de que vocês vão se divertir muito juntos e também quero ir comer bolo com vocês algum dia.— falo sorrindo e Nikolas concorda, entusiasmado:
- Com certeza, pai! Já marcamos de nos encontrar novamente amanhã. Vamos jogar videogame na casa dele e fazer uns desenhos, acho que vai ser demais! Eu posso ir né?
Sorri, feliz em ver meu filho se desenvolvendo socialmente e fazendo amizades, pois essa era uma das coisas que eu mais tinha medo quando resolvi me mudar pra cá, tinha medo que ele não conseguisse se enturmar.
- Que legal, filho! Aproveite muito esse tempo com o Angel e sempre esteja disposto a ajudar aqueles que precisam. Tenho muito orgulho de você, Nikolas, eu vou deixar você ir mais quero que volte no horário que eu vou dizer tudo bem?
— Sim papai, obrigado, eu vou falar com ele e marcamos um dia para apresentar o senhor para os pais dele
— Tá bom meu filho.— Continuamos conversando e compartilhando histórias, fortalecendo nosso laços familiares e celebrando essa nova amizade de Nikolas, além de que não é sempre que temos esse momento onde podemos conversar como dois amigos, depois de terminamos o sorvete voltamos para casa.
(...)
— Mãe chegamos.— Digo quando entramos dentro de casa
— Nikolas eu vou para o escritório agora qualquer coisa você me chama.
— Tá bom pai, eu vou ajudar o vovô.
— Tá bom. — Ando até o escritório pois, precisava finalizar algumas tarefas urgentes e estava determinado a não deixar nada me distrair.
Enquanto estava imerso em minha pilha de papéis, meu celular começou a vibrar freneticamente. Suspirei irritado, pois sabia que era mais uma interrupção desnecessária em meio à minha concentração. Relutante, atendi a chamada sem sequer verificar o nome na tela.
- Alô? - disse eu, com um tom de voz impaciente.
A voz grave e autoritária do meu advogado, juntamente com a respiração pesada, preencheu meus ouvidos. A atenção me invadiu instantaneamente, e minha mente começou a divagar sobre o porquê de uma ligação tão urgente.
- Raul, finalmente consegui alguma informação sobre o paradeiro de Abigail - disse meu advogado, em um tom solene.
Meu coração disparou, e meu corpo inteiro se encheu de uma mistura de esperança e medo. Há anos venho procurando por Abigail depois que encontrei ela naquele dia, fiquei querendo saber ainda mais onde ela morava e trabalhava, a busca tem sido difícil e infrutífera até então. Mas agora, meu advogado parece ter encontrado alguma pista.
- Onde ela está? - perguntei rapidamente, minha voz trêmula.
- Um de nossos detetives localizou o local onde ela trabalha atualmente. Ela é dona da confeitaria mais renomada da cidade - informou ele, mantendo um tom calmo, porém carregado de expectativas.
Uma avalanche de emoções me invadiu enquanto pensava em todas as possibilidades que essa informação poderia trazer. Abigail e eu tivemos um relacionamento turbulento, mas nunca consegui esquecê-la completamente. Agora, finalmente, havia uma chance de reencontrá-la.
Meu coração batia descompassadamente enquanto meu advogado me passava o endereço exato. Aquela mistura de medo, excitação e tristeza que me acompanhou durante todos esses anos pareceu se intensificar de uma só vez, pois agora eu vou poder ficar cara a cara com ela e conversarmos.
Agradeci ao meu advogado, desliguei o telefone e olhei para além do escritório, para além das paredes que me isolavam do mundo exterior. Abigail tinha sido uma parte importante da minha vida, e agora eu sabia onde encontrá-la.
Larguei a papelada em cima da mesa, levantei-me e saí apressadamente do escritório. Não conseguia mais trabalhar, meus pensamentos e sentimentos estavam voltados exclusivamente para esse encontro iminente com Abigail. Era hora de enfrentar o passado e descobrir o que o futuro me reservava.