Capítulo 4

1480 Palavras
Eu estava cada dia mais envolvida por Tenório. Por mais que tentasse negar isso para mim mesma, já estava ficando impossível esconder. Bastava ele aparecer perto de mim que meu coração mudava o ritmo, minhas mãos ficavam frias e eu perdia completamente a concentração. Na fazenda, o assunto do momento era justamente esse suposto romance entre nós dois. As mulheres viviam me olhando diferente quando ele passava, cochichando pelos cantos e sorrindo umas para as outras. Mas Tenório continuava igual. Sério. Fechado. Nunca dava espaço para comentários ou brincadeiras. E talvez fosse justamente isso que me deixava ainda mais mexida. Naquela noite teria uma festa na casa de Cristina por causa do aniversário dela. Como sempre, ela estava animada demais, organizando tudo como se fosse um grande evento. Ela tinha chamado vários rapazes que trabalhavam na plantação de soja, e só de ouvir aquilo eu já sabia que a festa ia virar bagunça. — Cristina, você não perde tempo mesmo, né? — falei rindo enquanto ajudava ela a arrumar algumas coisas. — Já está escolhendo um pra terminar agarrada no fim da festa. Ela caiu na risada. — Claro! Eu não sou b***a. Só não convidei o Tenório ainda porque não sabia qual era sua opinião sobre isso. Revirei os olhos imediatamente. — Não fala nada pra ele, não. Eu também só vou dar uma passadinha lá… e, sinceramente, se ele aparecer, nem sei o que pode acontecer. Tá difícil ficar me segurando perto daquele homem. Cristina arregalou os olhos, surpresa com minha sinceridade. — Mulher, deixa de ser b***a! Tá se segurando pra quê? Se entrega logo pra esse homem antes que ele canse e apareça com outra. A ideia de outra mulher perto dele me incomodou mais do que eu gostaria de admitir. Mas disfarcei rapidamente. — Tá certo, viu? Agora vou pra casa me arrumar e deixar os meninos com a babá. Tchau. Passei o resto da tarde tentando decidir se realmente iria para aquela festa. Parte de mim queria esquecer Tenório por algumas horas. Outra parte tinha medo justamente de encontrá-lo lá. Quando finalmente fiquei pronta e me olhei no espelho, até eu mesma estranhei. Coloquei uma calça jeans justa que valorizava minhas curvas e uma blusa vermelha decotada. Meu cabelo loiro estava solto sobre os ombros e, fazia muito tempo que eu não me sentia bonita daquele jeito. Talvez eu realmente precisasse me divertir um pouco. Quando cheguei na casa de Cristina, a pequena sala já estava lotada. Música alta, gente dançando, garrafas espalhadas pela mesa e muita risada. Fiquei parada na porta por alguns segundos, meio sem jeito. Foi então que Cristina me viu. — Amiga! O que você tá fazendo aí parada? — Ela veio até mim segurando um copo de vinho. — Toma isso aqui e vem conhecer o pessoal. Sorri sem graça. Ela me apresentou para vários homens da festa, todos simpáticos e divertidos. Aos poucos, o vinho doce começou a me deixar mais leve. Comecei a rir mais. A conversar mais. A dançar. E pela primeira vez em muito tempo, me senti viva de verdade. — Cuidado, Maria! Amanhã essa ressaca vai te derrubar — Cristina brincou. Mas eu nem liguei. O vinho parecia apagar minhas preocupações aos poucos. Alguns homens tentavam me paquerar durante a dança, e eu apenas ria, sem levar nada muito a sério. Até que senti alguém empurrando bruscamente o rapaz que estava dançando comigo. Tudo aconteceu rápido demais. O homem caiu no chão e, quando virei o rosto assustada, vi Tenório. Seu olhar estava tomado pela raiva. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele acertou um soco no rosto do rapaz. A festa inteira parou. Os homens correram para separar a briga, Cristina gritava desesperada e eu fiquei completamente sem reação. Meu coração disparou de susto. Vergonha. Raiva. Confusão. Sem pensar direito, virei as costas e saí dali quase correndo. Eu só queria ir embora. Já tinha me afastado um pouco da casa quando senti alguém segurando meu braço com força. Era Tenório. — Então é isso? — ele perguntou irritado. — Você não me fala nada dessa festa pra vir dançar com outro homem como se a gente não tivesse nada? Olhei para ele incrédula. — Você ficou louco? Por que bateu nele? Você acha que é meu dono agora? Eu só estava dançando! Tenório passou a mão pelos cabelos, claramente tentando controlar a raiva. — Maria, a fazenda inteira já comenta sobre nós. E você vai me envergonhar dançando daquele jeito com outro homem? Ainda mais vindo pra cá sozinha? Aquilo me deixou ainda mais nervosa. — Envergonhada estou eu pelo que você fez! Estragou o aniversário da Cristina sem motivo nenhum! Me solta porque eu vou embora. Ele apertou os lábios, irritado. — Eu vou levar você. — Não precisa. Melhor eu ir sozinha mesmo. Puxei meu braço e continuei andando sem olhar para trás. Ouvi ele chutando o pneu do carro com raiva antes de entrar. Pouco depois, Tenório passou por mim em alta velocidade pela estrada, levantando poeira. Fiquei olhando o carro sumir ao longe enquanto meu coração ainda batia acelerado. No outro dia, a primeira coisa que fiz foi procurar Cristina para pedir desculpas. Eu me sentia culpada pelo que tinha acontecido. — Relaxa, Maria — ela respondeu rindo. — Nenhuma festa presta sem um barraco. Mas fala sério… aquilo foi ciúme puro. O Tenório tá caidinho por você. Balancei a cabeça imediatamente. — Nem quero conversar com ele depois daquela atitude. Não gosto de homem violento. Cristina revirou os olhos. — Ai, mulher… eu bem que queria um gostosão daqueles brigando por mim. Ele gosta de você de verdade. — Vamos trabalhar que a gente ganha mais. Mas, no fundo, eu sabia que ela tinha razão sobre uma coisa: Tenório realmente sentia alguma coisa por mim. Nos dias seguintes, ele praticamente não saiu da sala dele. E eu também fazia o possível para evitar qualquer encontro. Quando percebia ele se aproximando de alguma área da colheita, eu mudava de lugar imediatamente. Nós dois fingíamos indiferença. Mas os olhares continuavam. Longos. Intensos. Cheios de coisas que nenhum dos dois tinha coragem de dizer. À noite, quando deitava na cama, eu lembrava dos abraços dele… dos beijos… do jeito como me olhava. E isso só piorava tudo. Os pesadelos voltaram a atormentar minhas noites. Eu acordava assustada, sentindo aquele vazio no peito outra vez. Por um momento, achei que minha vida pudesse mudar. Achei que talvez eu e Tenório pudéssemos realmente ficar juntos um dia. Mas parecia que tudo não tinha passado de um sonho. Numa manhã, acabei perdendo a hora. Arrumei os meninos às pressas, organizei tudo correndo e fui para a fazenda quase sem fôlego. De longe avistei Tenório parado observando o trabalho na colheita. Assim que me aproximei, falei baixo: — Desculpa… acordei atrasada. Ele apenas me olhou rapidamente. — Tudo bem. A voz dele saiu fria, mas aqueles olhos continuavam mexendo comigo do mesmo jeito. Coloquei minhas luvas rapidamente tentando ignorar a tensão entre nós. Cristina apareceu logo depois. — O que aconteceu com você? Tá com cara de quem não dormiu nada. Soltei um suspiro cansado. — E não dormi mesmo. Ela riu baixinho. — É o amor. Fica fazendo jogo duro e daqui a pouco perde o Tenório pra outra. Olhei para ela séria. — Eu não posso perder aquilo que nunca tive. Cristina cruzou os braços. — Então me prova que não se importa. Vamos sair amanhã à noite com uns colegas pra tomar vinho. Pensei por alguns segundos. Talvez sair realmente me ajudasse. — Amanhã eu te dou resposta. Ainda tenho que falar com a babá dos meninos. — Tá bom. Mas vê se vai mesmo. Você tá precisando viver um pouco. Já faz mais de um mês daquela discussão e você só fica presa dentro de casa. Se eu fosse você, já estava era na cama daquele homem. Acabei rindo mesmo sem querer. Cristina se aproximou mais de mim. — Não sorri não, Maria. Tá na hora de seguir em frente se realmente não quer mais nada com ele. Não dá pra viver sozinha pra sempre. Balancei a cabeça concordando. — Tá certo… você conseguiu me convencer. — Ótimo. Agora muda de assunto porque ele tá vindo. Meu coração disparou imediatamente. Levantei o rosto e encontrei os olhos de Tenório. Foi como se o mundo ao redor desaparecesse por alguns segundos. Aquele olhar intenso… profundo… parecia puxar o meu. Nós dois quase não conseguimos desviar. Era como um ímã. Como se, por mais que tentássemos fugir, alguma coisa continuasse nos atraindo cada vez mais. E sem dizer uma única palavra, nos afastamos outra vez. Mas percebi pelo jeito que ele apertou o maxilar que Tenório também estava lutando contra a própria vontade. Porque fingir que não sentia nada por mim estava se tornando cada vez mais difícil para nós dois.
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