33. Manuela

1211 Palavras
Ele se afastou da cozinha devagar, ainda com o colete pendurado em uma das mãos e aquele sorriso de canto que nunca mostrava inteiro, só o bastante pra deixar a gente sem saber se ele estava debochando ou falando sério. Parou no meio da sala, olhou pra mim e depois pra Ítalo, ainda dormindo no sofá. O olhar dele suavizou por um segundo, mas logo voltou ao normal, frio, controlado, daquele jeito que me irritava e atraía na mesma medida. — Vou tomar um banho. — disse, a voz rouca de cansaço, mas firme. — Quando eu voltar, a gente vai no mercado. Levantei uma sobrancelha, apoiando o cotovelo no encosto do sofá. — No mercado? — É. — respondeu, abrindo o fecho do cinto com a mesma calma que usava pra recarregar uma arma. — Ou tu quer continuar cozinhando milagre com ovo e arroz velho? Revirei os olhos. — Eu me viro muito bem com pouco, obrigada. Ele parou de frente pra mim, o colete agora pendurado no ombro, o olhar afiado e irônico. — Eu sei que se vira. Esse é o problema. — E o problema é o quê? Eu me virar bem com pouco? O sorriso dele aumentou, lento, perigoso. — Não. O problema é que você se acostumou a sobreviver. E eu não gosto de ver gente que eu gosto vivendo pela metade. O "gosto" escapou no meio da frase, casual, mas pesado o bastante pra me fazer prender o ar. Fiquei olhando pra ele, tentando decifrar se aquilo era intencional ou só mais um jogo psicológico dele. — Gente que você gosta, é? — perguntei, cruzando os braços. — Então agora você distribui afeto junto com ordem, capitão? Ele deu um passo à frente, o suficiente pra diminuir a distância entre nós. O cheiro dele me atingiu de novo; sabonete, suor, e o calor do corpo ainda coberto de farda. — Não. — respondeu, baixinho, com um meio sorriso. — Afeto não. Controle. — É, eu percebi. — E sarcasmo também. — Ele piscou, a voz carregada de ironia. — Mas relaxa, eu vou comprar chocolate pra você. Revirei os olhos de novo, mas minha boca traiu um pequeno sorriso. — Ah, claro. Agora virou passeio de família? Ele soltou uma risada curta, rouca. — Não exagera, Souza. Eu só quero evitar que tu e o garoto passem o resto da semana comendo o mesmo arroz requentado. — Que generoso. — Sempre fui. — Hum. — Cruzei os braços. — Desde quando? — Desde que uma certa mulher resolveu ocupar minha cozinha e bagunçar meu armário. Ele começou a andar na direção do quarto, mas parou na porta, sem olhar pra trás. — E não vai tentar fugir enquanto eu tomo banho, tá? — Eu não sou tua prisioneira, Alex. — Claro que não. — Ele virou o rosto, o sorriso de canto aparecendo de novo. — Só parece. E desapareceu no corredor, deixando um rastro de silêncio e vapor imaginário atrás dele. Eu fiquei ali, parada, olhando a porta se fechar, o som do zíper da farda ecoando à distância. Por mais que eu tentasse negar, cada palavra dele me atingia fundo: aquele jeito sarcástico, controlador, de quem parecia brincar com o perigo porque já sabia que ia vencer no final. E o pior era admitir: parte de mim queria continuar o jogo. O som do chuveiro começou a ecoar do quarto dele, abafado pelas paredes. O barulho constante da água caindo se misturava ao leve chiado do ar-condicionado e ao silêncio do apartamento. Aquele tipo de silêncio estranho, novo, que ainda me deixava desconfortável, o tipo que existe quando a gente não tá mais em alerta, mas também não tá em casa. Suspirei, levantando do sofá. A almofada ainda guardava o formato do meu corpo, e Ítalo dormia tranquilo, um braço jogado pro lado, os lábios entreabertos, o cabelo bagunçado. A respiração dele era profunda, ritmada, o tipo de sono pesado que eu raramente via nele lá no morro. Aproximei-me e toquei de leve o ombro dele. — Ítalo... — murmurei, baixinho, tentando não assustá-lo. — Filho, acorda. Ele se mexeu, resmungando algo incompreensível, e virou pro outro lado. Sorri sem querer. Ele tinha esse mesmo costume desde pequeno, fazia de conta que não ouvia pra ganhar mais cinco minutos de sono. — Bora, preguiçoso. — Falei um pouco mais alto, passando a mão no cabelo dele. — A gente vai sair. Os olhos dele se abriram devagar, piscando contra a luz suave da sala. — Sair pra onde, mãe? — No mercado. Ele franziu a testa, confuso. — Com o homem da polícia? A pergunta me pegou de surpresa. Fiquei em silêncio por um instante, depois dei um meio sorriso. — É... com ele, sim. Ítalo se sentou, ainda sonolento, e olhou ao redor. — Mas por quê? — Porque a gente precisa comprar comida, né? — Falei, tentando manter o tom leve. — E ele... bom, ele tem carro, e o mercado é longe. Ele assentiu, ainda meio sem entender, e esfregou os olhos. — Tá bom. Mas posso levar o carrinho? Ri baixinho. — Mas é claro que pode. Fui até a bolsa que tinha deixado perto da mesa e peguei as roupas dele, a camiseta azul favorita, o short limpo, o chinelinho. Ajeitei tudo no sofá e comecei a arrumar a mochila pequena que ele carregava pra todo canto, com brinquedos e o carrinho de metal que era o xodó dele. Enquanto isso, ele se trocava com a calma de quem ainda acordava pro mundo. Eu olhei pro relógio: ainda tínhamos tempo. O chuveiro continuava ligado, e a cada segundo eu sentia o som da água ecoar como uma lembrança viva de que ele estava ali. Alex Buarque, o homem que bagunçava meus pensamentos desde o dia que entrou na minha vida feito tempestade. Peguei minha blusa de alça do varal, ainda cheirando a sabão, e uma calça jeans simples. Vesti ali mesmo, no corredor, ajeitando o cabelo no reflexo da janela. O rosto ainda estava um pouco cansado, mas havia algo novo no meu olhar, talvez fosse o conforto, talvez fosse teimosia. Quando voltei pra sala, Ítalo já calçava o chinelo. Ele olhou pra mim e abriu um sorriso preguiçoso. — Você tá bonita, mãe. Meu coração derreteu. — E você tá todo arrumado, olha só. — É porque o homem da polícia vai ver, né? — ele disse com naturalidade. — Ele é seu amigo? Parei. Por um instante, não soube o que responder. Amigo. Aquela palavra parecia grande demais pra caber em algo tão confuso. — Ele... tá ajudando a gente — falei por fim. — Só isso, filho. Ítalo assentiu, satisfeito com a resposta, e pegou o carrinho. Voltou a brincar no chão, fazendo o barulhinho do motor com a boca, alheio ao que se passava ao redor. Fiquei ali, observando ele, e o som do chuveiro cessou. Logo depois, o barulho de passos pesados no quarto. Meu estômago se revirou, uma mistura de expectativa e nervosismo que eu odiava sentir. Respirei fundo, passei a mão no cabelo mais uma vez e tentei parecer natural. Era só um supermercado. Só uma ida qualquer pra comprar comida. Mas com Alex Buarque, nada nunca era "só".
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