22. Manuela

1353 Palavras
— Obrigado pela toalha — ele disse, a voz rouca, mais baixa do que antes. — De nada. Ficamos em silêncio por alguns segundos. O som do relógio parecia mais alto, e o ar ainda estava pesado, úmido, preso entre nós dois. Virei as costas e fui até a cama. Ítalo dormia tranquilo, o corpo pequeno encolhido sob o lençol. Passei a mão no cabelo dele e sentei ao lado, tentando encontrar algum tipo de paz. Mas o quarto inteiro parecia pulsar com a presença de Alex, o cheiro dele, o calor, o peso do que não foi dito. Ele ficou parado perto da janela, observando a rua lá embaixo, o corpo relaxado, mas os ombros ainda tensos como se nunca conseguisse desligar. Depois, pegou uma das almofadas do sofá e jogou no canto. — Vou dormir aqui. — No sofá? — perguntei, sem olhar pra ele. — É mais seguro assim. — Pra quem? — O tom saiu mais ácido do que eu pretendia. Ele deu uma risada curta, sem humor. — Pra você, provavelmente. Deitei ao lado de Ítalo, puxando o lençol até o ombro. O quarto mergulhou num silêncio incômodo. Eu podia ouvir a respiração dele, o som da toalha sendo largada em algum canto, o peso do corpo afundando no estofado. Mesmo de olhos fechados, dava pra sentir a presença dele, viva e quente, como uma força grudada no ar. — Não era melhor ir embora? — perguntei, baixinho, sem abrir os olhos. — Já fez o que tinha que fazer. — E deixar vocês aqui sozinhos? — A gente tá num hotel no meio da cidade, Alex. Não tem ninguém pra subir aqui. — Sempre tem. — A resposta veio calma, mas com um fundo de verdade que me fez engolir as próximas palavras. Ficamos em silêncio de novo. O som da respiração do Ítalo era constante, o único ritmo que parecia certo naquela noite. Ele falou depois de um tempo, mais baixo: — Amanhã eu resolvo o resto. — O resto? — O que sobrou do morro. E... — ele hesitou, coisa rara. — O que fazer com vocês. Abri os olhos, virando o rosto na direção dele. Ele estava recostado no sofá, o olhar perdido no teto, os traços duros suavizados pela exaustão. Naquela hora, o "capitão" parecia menos soldado e mais homem, um homem que carregava peso demais e tentava fingir que isso não o esmagava. — A gente não é sua responsabilidade — murmurei. — Não tenta me convencer disso. Havia firmeza, mas também cansaço. Um cansaço que eu conhecia. Fiquei observando o rosto dele na penumbra, os olhos semicerrados, a mandíbula tensa, o corpo enorme ocupando o sofá pequeno. Ele parecia fora de lugar ali. E, de alguma forma, eu também. — Boa noite, Alex. — Boa noite, Manuela. Virei de lado, abraçando o Ítalo, mas o sono não veio. O silêncio entre nós dois dizia mais do que qualquer palavra. E, no fundo, eu sabia: mesmo separados por alguns metros, nenhum dos dois dormia de verdade. (…) A luz da manhã entrou pelas frestas da cortina, dourada e suave, como se o mundo lá fora tivesse esquecido por um instante o caos da noite anterior. O barulho discreto da cidade subia pelas janelas: buzinas, passos apressados, o som distante de um rádio em alguma janela aberta. Ítalo foi o primeiro a acordar, ainda sonolento, os cabelos bagunçados e o ursinho apertado contra o peito. Ele piscou, olhou em volta e, ao ver o capitão adormecido no sofá, sussurrou: — Mãe... o moço dormiu aqui também? Sorri de leve. — Dormiu, sim. — Por quê? — Porque ele tava cansado, filho. Ítalo pensou por um instante, franzindo o nariz. — Ele ronca? — Pior que não. — Ri baixinho, alisando o cabelo dele. Do outro lado do quarto, Alex se mexeu, abrindo os olhos devagar, o braço pesado caindo sobre o encosto do sofá. Por um segundo, o olhar dele estava perdido, o tipo de expressão de quem ainda acorda em outro lugar. Quando se deu conta de onde estava, sentou-se, passando a mão no rosto. O cabelo bagunçado e a barba por fazer o deixavam menos "capitão" e mais homem, o que era estranho de ver. — Bom dia — disse, a voz rouca, grave, ainda meio arrastada. — Bom dia — respondi, tentando parecer natural. Ítalo acenou com um sorriso largo. — Bom dia, moço da bota! Ele riu uma risada curta, sincera. — Bom dia, garoto. — A gente vai tomar café? — Vamos sim. — Falei, levantando da cama. — Só deixa a mamãe se arrumar primeiro. Alex se espreguiçou, levantando do sofá. — Café soa bem. Enquanto eu ajeitava o cabelo e colocava uma roupa simples, percebi o quanto a presença dele deixava o quarto menor. Ele parecia preencher tudo, o espaço, o ar, até o silêncio. Mas, naquele momento, havia algo diferente. Menos tensão, mais normalidade, como se por um breve segundo estivéssemos apenas convivendo. Descemos juntos, o sol forte atravessando os vidros do corredor do hotel. O saguão era claro e silencioso, com cheiro de pão fresco e café passado na hora. Ítalo corria na frente, animado, como se aquilo fosse uma aventura e, de certo modo, era. O restaurante tinha poucas mesas ocupadas, e o garçom nos recebeu com um sorriso automático. Sentamos num canto, perto da janela, de onde dava pra ver o movimento da rua. Ítalo encheu o prato com pão, bolo e frutas, enquanto eu me contentava com um café com leite e um pedaço um pão com queijo. Alex serviu-se com calma, mas o olhar dele nunca deixava o ambiente. Era automático, o instinto de quem nunca baixa a guarda. — Pode relaxar — falei, mexendo o café. — Aqui ninguém vai atirar em tu. — Velho hábito. — Ele respondeu, sem humor. — A gente aprende a desconfiar até da paz. — Deve ser cansativo. Ele me olhou por cima da xícara. — É. Mas cansa mais quando você tem alguém pra perder. As palavras dele me prenderam por um instante. Havia verdade demais naquele tom. E, por algum motivo, doeu ouvir. Ítalo interrompeu o silêncio, mastigando o pão com entusiasmo. — O café daqui é bom, mãe! Tem suco de laranja de verdade! — Aproveita, amor. Alex observava a cena, e pela primeira vez eu vi algo diferente nos olhos dele, um brilho pequeno, quase terno, escondido sob toda aquela rigidez. Ele desviou o olhar logo em seguida, mexendo o café, como se não soubesse o que fazer com aquilo. — E agora? — perguntei, baixinho, tentando manter a conversa longe do ouvido do menino. — O que acontece com a gente? — Vocês ficam aqui por enquanto. Eu vou resolver as pendências. — Pendências? Você fala como se estivesse escrevendo relatório. Ele ergueu uma sobrancelha, um traço de ironia voltando à voz. — É o que eu faço melhor. — E quando terminar de resolver... o que acontece? Ele hesitou por um instante antes de responder. — Eu volto. — E eu não quero depender de você! — Vai depender de qualquer jeito. — Disse sem elevar o tom, mas com a mesma certeza de sempre. — A diferença é se vai me odiar por isso ou não. Senti o estômago apertar, mas não respondi. Não havia resposta certa pra ele. — Posso tomar mais? — Ítalo ergueu o copo de suco, sorrindo. — Pode — falei, tentando sorrir de volta. Alex o observava com um olhar curioso, como se tentasse entender como alguém tão pequeno podia mudar tanto o peso do ar. Ele levantou a mão, chamando o garçom e pedindo outro copo pro menino, o tom de voz surpreendentemente leve. Por um instante, tudo pareceu simples. Três pessoas tomando café num hotel qualquer, uma manhã normal. Mas eu sabia que não era. Quando os olhos dele encontraram os meus por cima da mesa, o mundo voltou a se estreitar. O ar carregado de algo que nenhum de nós queria admitir, a tensão, o medo, e aquela faísca perigosa que sempre aparecia quando ele estava por perto.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR