35. Manuela

1015 Palavras
— Você gosta de fazer isso, né? — ele perguntou, pegando uma lata de leite em pó. — Fazer o quê? — Cuidar das coisas. — Alguém tem que cuidar. — É. — Ele me olhou de novo. — Mas ninguém nunca cuida de você, né? A pergunta veio baixa, quase casual, mas bateu fundo. Eu não respondi. Só continuei andando, fingindo prestar atenção nas prateleiras. Ítalo se distraiu com um corredor de doces, e o som da voz dele me deu um respiro. — Posso levar esse, mãe? Buarque pegou outro, colocou no carrinho e piscou pra ele. — Esse também. — Alex... — comecei, num tom de repreensão. — O garoto merece. — respondeu, sem se virar. — E eu também. Fiquei olhando pra ele, irritada e, ao mesmo tempo, com vontade de rir. Ele sabia exatamente o que fazia: me desarmava devagar, sem pressa, como quem invade território com calma, até eu não perceber mais que estava rendida. — Melhor não me olhar muito assim, Souza. Vai acabar me fazendo esquecer o que estamos fazendo. Meu coração acelerou. Eu respirei fundo e empurrei a porta do freezer disfarçando. — Então foca nas compras, capitão. Porque quem vai empurrar o carrinho é você. Ele deu uma risada curta, rouca, e me seguiu. — Isso a gente ainda vai discutir. O supermercado era amplo, iluminado, cheio de gente empurrando carrinhos apressados e música ambiente tocando baixo demais pra fazer diferença. Mas pra mim, tudo parecia fora de lugar, principalmente a presença dele ali. Alex Buarque não combinava com aquele tipo de ambiente. Ele era feito pra guerra, não pra empurrar carrinho de compra no meio de prateleira colorida e corredor de biscoito. Mesmo assim, lá estava ele. Camiseta preta justa, braço firme apoiado no carrinho, o coldre discreto sob a roupa, o olhar frio vasculhando o lugar como se esperasse uma emboscada até no setor de frios. Ítalo corria à frente, fascinado com as cores, o tamanho das prateleiras, o empilhado de cereais e brinquedos. — Mãe, olha! — Ele apontava pra tudo, o entusiasmo dele tão genuíno que arrancava sorrisos de quem passava. — Tem iogurte de chocolate! — Calma, filho — falei, tentando acompanhar o ritmo. — A gente vai pegar as coisas direito, tá? Alex empurrou o carrinho até nós, e sem pedir opinião, começou a jogar alguns itens dentro. Coisas que eu não considerava necessário, sendo que o carrinho já tinha o básico. Ele colocava tudo com a precisão de quem seguia um manual. — Você não precisava trazer a casa inteira do mercado — comentei, arqueando a sobrancelha. — Eu só cozinho simples, não tô montando restaurante. — É o básico. — respondeu, seco, sem me olhar. — E também não tô a fim de voltar aqui toda semana. — Ah, claro. Porque empurrar carrinho é uma ofensa ao seu orgulho de policial de elite. Ele parou, me lançou aquele olhar lateral carregado de sarcasmo. — Eu só não gosto de perder tempo com o que não sei fazer. — Então quer que eu acredite que não sabe comprar arroz e sabão, mas sabe invadir um morro sozinho? — Exatamente. Eu ri, balançando a cabeça. — Você é impossível, Buarque. — E você fala demais. Ele seguiu andando pelo corredor, o som firme das botas contrastando com o piso de porcelanato. As pessoas olhavam de relance, algumas reconheciam o tipo de presença dele, outras só viam um homem grande, bonito, com uma expressão que misturava poder e perigo. E eu, ali ao lado, fingindo que não sentia aquele mesmo olhar queimando em mim. Paramos no corredor dos biscoitos. Ítalo agarrou um pacote de recheado e ergueu pra mim. — Mãe, posso levar? Antes que eu respondesse, Alex pegou o pacote e colocou no carrinho. — Pode. — Ei — protestei. — Quem disse que você decide o que ele come? Ele se inclinou um pouco, falando baixo, próximo demais. — Não tô decidindo, tô permitindo. É diferente. — Você é insuportável. Ele sorriu de canto, satisfeito. — E ainda assim, me trouxe junto. — Eu não trouxe, você se convidou. — Mesmo assim, tô aqui. O olhar dele ficou preso no meu por um segundo longo demais. E eu sabia, o tom podia ser leve, mas havia algo ali, pulsando sob a superfície. Aquela tensão silenciosa que sempre crescia entre a gente quando o ar ficava denso demais pra disfarçar. Pra quebrar o clima, Ítalo puxou o braço dele. — Capitão, tem chocolate também! Alex se abaixou, ficando na altura do menino. O contraste era grande, o tamanho dele, a farda invisível que ele carregava mesmo sem usar o uniforme, e a inocência pura de Ítalo, que via nele só um amigo. — Pega um — disse, sério, mas com um tom que soava quase gentil. — Só um, hein. Ítalo assentiu e saiu correndo pelo corredor. Fiquei observando a cena, o peito apertando num misto de surpresa e confusão. Ele não era feito pra lidar com crianças. Mas, de algum jeito, com o meu filho, parecia encontrar um equilíbrio estranho entre dureza e cuidado. Quando o menino voltou, sorrindo com o chocolate nas mãos, Alex ajeitou o carrinho e olhou pra mim de novo. — Viu? Já tô aprendendo a fazer mercado. Cruzei os braços, mas o sorriso escapou. — Só falta aprender a não bancar o dono do mundo. Ele ergueu uma sobrancelha, os olhos fixos em mim. — Isso eu desaprendo quando você parar de fingir que não gosta de ver eu cuidando de vocês. A frase me acertou como um soco, mesmo dita com aquele tom casual. E antes que eu pudesse responder, ele seguiu andando, chamando Ítalo com um gesto rápido da mão. Fiquei parada por um instante, olhando pra ele se afastar. Grande, confiante, de ombros largos e passos seguros. Um homem que carregava a própria sombra, e que, de algum jeito, tinha arrastado a minha junto. Suspirei e empurrei o carrinho atrás deles. No fim das contas, talvez eu estivesse mesmo deixando ele cuidar, só pra ver até onde isso podia ir.
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