Beatriz
Terminamos o louvor e as pessoas que compareceram já estavam indo embora, voltando pra casa. Peguei a Bíblia em cima do banco e caminhei com minha mãe até a escada do altar, onde meu pai conversava com algumas pessoas que pediam a bênção.
Ele se despediu delas e veio ao nosso encontro, abraçando minha mãe enquanto ela dizia que o culto tinha sido lindo.
Roberto: Gostou do culto, meu amor? — perguntou, depositando um beijo na minha testa.
Bea: Sim. — respondi simples.
Maira: Vamos embora então, ou vai continuar aqui? — olhou pra ele.
Roberto: Vou ficar mais um pouco. Ainda preciso resolver as coisas do culto de domingo e outras pendências. Vão na frente, não vou demorar muito.
Maira: Tá bom. Vamos, Beatriz. — me chamou.
Roberto: Vão com Deus. — sorri e ele me acenou.
Caminhamos até a porta e saímos da igreja junto com mais algumas pessoas. Uma colega da minha mãe veio até nós e seguiu o caminho conosco até em casa.
Foi então que eu o vi.
De longe, parado com a moto, em frente ao bar. GB.
Incrível como consegui me apaixonar por ele tão facilmente... só de vista, sem nunca trocar uma palavra. Talvez nem seja amor, não sei. Nunca senti algo assim antes. É novidade pra mim. Só saberia se um dia conversasse com ele — mas isso nunca vai acontecer. Meus pais não deixariam, e eu mesma não teria coragem.
Maira: Eu acho uma falta de respeito abrirem um bar em frente à igreja, e ainda colocarem música alta com palavras ofensivas! — resmungou, olhando pra dona Elza.
Elza: Um palavreado totalmente desrespeitoso. — negou com a cabeça.
Olhei de novo. A música era animada, mas daquelas proibidonas — e eu já tinha ouvido antes. Rafaela me mostrou uma vez.
Em frente à nossa casa também tem um barzinho que toca esse tipo de som. Eu não julgo ninguém, cada um com seu gosto.
Rafaela até me fez gostar dessas músicas.
Mas parei de ouvir depois que ela foi embora.
Até porque, se meus pais me pegam... eu tô completamente ferrada.
Avisei Luiz no meio daqueles caras. Ele é meu primo, mas entrou pro tráfico porque quis.
Meu pai ficou super m*l com isso — afinal, ele praticamente criou o Luiz. Foi uma decepção pra ele.
Mesmo assim, eu nunca me afastei. É meu primo, ué. Família é família, não importa o que tenha acontecido.
Maira: Vamos entrando. Acho que não vamos conseguir dormir com essa barulheira. — disse, tocando meu ombro enquanto abria o portão.
Bea: Vou falar com o Luiz antes, mãe. É rápido.
Maira: Não! Você não vai entrar ali no meio daqueles bandidos, ouviu? Nem seu pai vai gostar disso. — me olhou arregalando os olhos.
Bea: Eu chamo ele daqui. — falei, tentando convencê-la.
Maira: Daqui do portão. Se ele não responder, entra! — apontou o dedo pra mim e foi pra dentro.
Assenti e fui até o portão, chamando por ele.
Mas era quase impossível ele me escutar com o barulho das músicas e da conversa da galera lá dentro.
Ele me viu e veio até mim, ajeitando o boné e arrumando a arma atravessada nas costas.
Luiz: E aí, preta, tá bem? — beijou meu rosto.
Bea: Tô... só queria saber como você tá. Fiquei sabendo por boatos que você tinha sido pego pela polícia, fiquei preocupada.
Luiz: Tô bem, não tá vendo? — sorriu.
Bea: Como que você saiu, Luiz? Fugiu igual aos outros? — apontei com a cabeça pros traficantes que me olhavam.
Luiz: Fiz meus corres, Bea. Sempre fiz, sempre dei meu jeito.
Bea: Eu me preocupo contigo.
Luiz: Precisa não, gatinha. Eu sou o Luiz, esqueceu? Ninguém me dá rasteira, não.
Eu duvidei. Ele se despediu de mim e voltou pro bar.
Minha mãe me chamou e eu entrei pra casa. Tomei um banho, fui pro quarto e me deitei na cama.
Amanhã é outro dia.