O dia amanheceu e eu me vi surpresa por não ter recebido uma visita indesejável do Carter. Ao mesmo tempo que fiquei surpresa, fiquei muito, mas muito feliz. Não sabia o que tinha ocorrido, só esperava que ele tivesse morrido ou algo similar.
Estiquei minhas mãos e peguei meu celular, ainda era seis horas da manhã e todo o dormitório estava em um silêncio mórbido, revelando a ressaca de cerca de noventa porcento dos alunos.
Meus olhos encaram a porta para checar se a barricada que fiz para impedir a entrada de Carter estava intacta, e vendo que realmente estava, deitei-me de lado e voltei a dormir mais rápido do que imaginei.
Horas mais tarde batidas soando próximo o suficiente de mim, despertou-me do meu sono. Sentei-me na cama com os olhos arregalados olhando fixamente para a porta, porém a arte que fiz ainda estava intacta.
— Mas que porr4... — Passei as mãos em meus cabelos enquanto meu coração batia loucamente.
Por um breve segundo pensei que tinha ouvido coisas, mas as batidas soaram novamente e não vinha da porta, mas sim da janela.
Sai da cama rapidamente mesmo sentindo uma leve dor em minha virilha. Movi as cortinas pro lado bruscamente encontrando Kalel pendurado em minha janela com alças de sacola em sua boca.
Destranquei a janela e abri puxando-o pra dentro. Ele caiu no chão com tudo ofegando baixo.
— Perdeu o juízo? — Indaguei vendo-o deitar no chão com a barriga pra cima. — Existe algo chamado porta! — Apontei pro móvel.
— Não ia a-ariscar que as meninas me vissem... — Ofegou sorrindo largamente fazendo com que meus olhos se revirassem. — E não tem n-ninguém no campus antes que fale alguma coisa!
— Porr4 Kalel! — Suspirei prendendo meus cabelos em um coque, gesto que não passou despercebido por ele.
— Trouxe seu café da manhã, que tá mais pra almoço, pois eu acordei às meio dia e agora é uma hora da tarde. — Meus olhos se arregalaram enquanto pegava o celular e confirmava o horário.
Aquela era a primeira vez em muito, mas muito tempo que dormi até tarde sem medo de algo acontecer comigo. A sensação era estranha, mas muito boa e confortante e ao mesmo tempo assustadora.
— Na próxima vez me lig... — Não conclui a frase ao ver que ele realmente tinha me ligado duas vezes e mandando uma mensagem perguntando se ele podia me ver.
— O sono estava bom né? — Indagou ele fazendo com que meu rosto corasse. — Oh, você corou!
— C-Como subiu aqui? — Pigarrei mudando de assunto encarando a janela.
— Estou me perguntado isso desde que consegui subir! — Gargalhou esticando a sacola em minha direção. — Coma!
— E você? — Indaguei vendo-o erguer a blusa mostrando o seu abdômen definido e tatuado.
— Minha pança está alimentada! — Arqueei minha sobrancelha olhando do seu abdômen e para o seu rosto.
"Se isso é pança, não sei mais nada de anatomia humana!", pensei comigo mesmo pegando a sacola.
— Obrigada! — Agradeci em um tom baixo enquanto ele se sentava no chão olhando em volta atentamente.
— Chegou bem ontem anoite? — Tentei não o encarar de maneira debochada enquanto abria a sacola e via o conteúdo dentro dela. Kalel, às quatro da manhã, acompanhou me até o dormitório de uma boa distância, porém meus instintos o denunciaram rapidamente.
— Tirando o fato de ter sido seguida por um stalker, cheguei bem... — Debochei ouvindo um pigarrear dele baixo.
— Bom, espero que esse stalker seja gostoso! — Revirei os olhos sem nem disfarçar arrancando uma boa risada rouca dele.
De dentro da sacola retirei um bolo de morango e novamente uma caixinha de suco do sabor que tanto gosto, pêssego. A primeira que ele dera a mim também era do mesmo sabor, como ele sabia disso? Era um mistério pra mim e eu só esperava que fosse uma mera coincidência.
— Belo quarto! — Ele disse olhando em volta enquanto eu me sentava na cama com as costas apoiadas no cabeceira.
Meu quarto não tinha nada demais, às paredes todas brancas, sem decorações, minha cama no centro do cômodo, uma mesa de canto que ficava à direita da cama, meu guarda roupa próximo a porta do banheiro, uma poltrona próxima à janela uma mesa de estudos no lado oposto da janela.
— Recomendo tentar puxar assunto por outro meio... — Exclamei fazendo com que ele me olhasse antes de se deitar no chão.
— Eis a questão, pela a primeira vez estou sem saber como puxar assunto, principalmente com uma mulher! — Gesticulou com as mãos, apontando pra mim e suspirando logo em seguida. — Não tenho coragem de fazer perguntas mais íntimas e eu não sei se posso continuar fazendo piadas, pois você nunca ri ou sorri delas. Tem algum bloqueio pra demonstrar emoções, sentimentos ou até mesmo de expressão? — Ergueu a cabeça e eu maneei a minha de um lado para o outro.
— Nos conhecemos, oficialmente, a um dia... — Tínhamos o restante do ano para nos conhecerem, para viramos realmente amigos se isso fosse possível, mas o restante da fala ficou preso em minha garganta, sem saber se seria o certo falar aquilo em voz alta ou se ele entenderia errado.
— Não vai continuar a fala não? — Indagou ele e eu me mantive em silêncio, o que bastou para sua resposta.
Abri a embalagem do bolo e com a colher que veio dentro, comecei a comer o bolo. Extremamente molhado e doce na medida certa, com pedaços de morango perdidos no meio do recheio. Uma explosão de sabores em minha boca.
— Porque você começou faculdade de arquitetura? — Indaguei enfim, interrompendo o silêncio constrangedor que tinha formado no quarto.
Kalel sentou-se tão rápido que eu me assustei. Seus olhos brilhavam enquanto um sorriso largo estava estampado em seus lábios. Ele nem se esforçou em ocultar quão feliz estava com uma simples pergunta.
— Mais por causa da minha mãe, ela me disse que era pra eu começar uma faculdade ou eu iria sofrer as graves consequências da ira dela... — Começou a falar apoiando suas mãos ao lado do seu corpo, um pouco mais atrás, fixando o seu olhar em mim. — Eu pesquisei várias e acabou que escolhi arquitetura!
— Foi transferência de uma unidade pra outra? — Indaguei novamente e ele negou. — Então como você entrou nos últimos semestres do curso? — Um sorriso malicioso surgiu em seus lábios e ele nem precisou dizer mais nada, pois para um bom entender iria compreender que teve dinheiro envolvido.
— Dinheiro move as pessoas! — Complementou o meu julgamento. — Mas minha mãe não sabe de nada e eu prefiro que ela continue não sabendo.
— Não está exigindo demais não? — Levei outro pedaço do bolo até meus lábios, vendo os olhos dele acompanhando o movimento. — Você vai “concluir” ... — Fiz aspas com a mão esquerda. — Esse ano a faculdade, então vai acabar levantando suspeitas!
— Até o final do ano irei pensar em algum plano pra não sofrer a ira da minha mãe. — Gargalhou jogando a cabeça pra trás. — E você? Porque escolheu arquitetura?
Pensei em não o responder, porém Kalel tinha respondido a minha pergunta com tanta tranquilidade e com tanta facilidade que seria injusto não responder a sua pergunta.
— Bom... — Pigarrei. — Você sabe que eu sou órfã né? — Ele me encarou surpreso revelando que não sabia. — Agora você sabe! — Estralei a língua. — Eu passei por vários lares adotivos, mas nenhum quis ficar comigo. Poderiam me pegar, mas logo me devolviam, e com isso, eu cresci no orfanato até uma boa idade minha! — Encarei o bolo em minhas mãos. — Por causa disso eu decidi fazer arquitetura, meio que pra criar, construir uma casa pra mim, pois eu nunca tive isso!
— Admirável! — Sua voz soou macia e estranhamente calma, o que me pegou completamente desprevenida. — E obrigado por ter me contato disso, pois parece que você não contou isso pra ninguém e só contou pra mim agora porque eu te contei o meu motivo!
“Eu sou tão fácil de se ler assim?!”, indaguei levando um grande pedaço de bolo a minha boca.
Quebrando o silêncio que tinha se formado pela a segunda vez, meu celular começou a tocar. Inclinei a minha cabeça em direção ao celular, no mesmo instante meus olhos se arregalaram ao ver que se tratava de uma ligação do Carter.
— Atende! — Kalel disse quando eu fiz menção de não atender. Em vez de ouvir a minha mente pra não atender, ouvi o que ele tinha me dito e atendi a chamada.
— Demorou atender hein... — Ele disse na linha um tanto alto, pois o cenho de Kalel se franziu e o brilho que tinha se formado momentos antes, sumiram em um piscar de olhos. — Estou indo para o seu dormitório, me aguarde! — Antes que eu falasse alguma coisa, a chamada foi desligada.
— M3rda... — Ofeguei sentindo minhas mãos começarem a tremer. — V-Você precisa ir embora!
— Não vou embora! — Sua voz soou tão firme sem qualquer sinal de autoridade.
— P-Por favor! — Meu cenho se franziu temendo o que poderia acontecer comigo e o que Carter poderia fazer com ele.
— Fique calma, tudo bem? — Levantou-se caminhando em direção a minha mochila. — Vamos fazer de conta que estamos trabalhando no trabalho que temos que fazer, e enquanto eu organizo os papéis, você troca sua roupa. — Olhei para ela percebendo desde que Kalel estava em meu quarto que eu usava apenas um camisão e uma calcinha, nada mais e nada menos que isso.
Com o rosto corado caminhei até o meu guarda-roupa pegando um short jeans folgado e uma camisa também folgada. Adentrei o banheiro e despi do pijama que estava usando dando espaço para as roupas que tinha pegado. No espelho arrumei os meus cabelos, optando em não escovar os dentes, não naquele momento.
Retornei ao quarto encontrando Kalel sentado no chão desenhando uma espécie de rascunho de uma estrutura em uma folha A4, numa tranquilidade que me deixava ainda mais assustada.
— Recomendo beber, pois parece que você vai surtar a qualquer momento... — Exclamou esticando a mão esquerda revelando a caixinha de suco nela. Aceitei desviando meu olhar para a barricada que tinha feito ontem, encontrando-a completamente desfeita.
— Você me assusta às vezes também... — Murmurei ouvindo uma risada anasalada dele enquanto me sentava ao seu lado, mas em uma distância aceitável.
— Espero que seja no bom sentindo! — Encarou-me piscando um olho antes de voltar a desenhar.
“Não, não é no bom sentindo...”, encaixei o canudo na caixinha, dando um longo gole do líquido.
Estiquei minhas mãos e peguei o bolo, deixando com que Kalel, bastante concentrado, fizesse o esboço. Ele tinha talento, isso eu não podia negar, mais talento do que eu que estou no último ano da faculdade.
Comi o restante do bolo e dei o ultimo gole no suco, e por um breve instante, esqueci que Carter estava a caminho do meu quarto, só me lembrei quando a porta se abriu bruscamente e sem qualquer tipo de aviso prévio.
Os olhos dele se arregalaram encarando Kalel que continuava fazendo o esboço, agindo como se ele não estivesse acabado de chegar.
Poderia ser algo da minha mente, mas eu vi a raiva que tinha surgido nos seus olhos sumir ao ver que nós estávamos fazendo trabalho.
— Iae! — Kalel disse tranquilamente afastando-se do desenho enquanto inclinava a cabeça para o lado antes de voltar a se inclinar sobre ele.
— Porque não me disse que tinha convidado? — Indagou Carter fazendo-me entrar em desespero, e fora preciso muito esforço de mim para manter ele dentro de mim e inventar uma boa desculpa.
— Você desligou antes que eu pudesse falar... — Minha voz soou baixa, da mesma maneira que ele sempre me mandou o responder. Aquela não era eu, aquela não era a minha voz, e eu me senti desconfortável e enojada de mim mesmo por outra pessoa estar presenciando aquilo pessoalmente.
— Konchikushou... — Fui pega de surpresa quando Kalel falou em sua língua nativa. Não sei dizer, mas algo dentro de mim me dizia que era algo semelhante a um xingamento.
— Disse alguma coisa? — Carter disse olhando para ele confuso mostrando que não tinha ouvido, e mesmo se tivesse ouvido não teria entendido.
Mentalmente realizei uma anotação pra aprender mais sobre o idioma japonês, e logo me vi em choque por ter pensado em tal coisa e por ter imaginado que ele iria se manter próximo de mim ao decorrer dos dias.
— Podemos conversar? — Sua pergunta foi direcionada a mim e por mais que eu tivesse com medo, concordei e me levantei com um pouco de dificuldade. Minha i********e não doía tanto como ontem, mas ainda sim dependendo de meu movimento, doía.
Já do lado de fora assustei quando as mãos dele envolveram o meu pescoço com força, fazendo-me tossir e segurar seus braços em uma inútil tentativa de o afastar de mim.
— Pensei ter dito que não era pra trazer nenhum garoto pro seu quarto além de mim! — Ele disse estreitando seus olhos enquanto me analisava.
— V-Você não g-gosta que eu s-saio pra outros l-locais também... — Consegui o responder com dificuldade. Suas mãos me empurraram para longe, fazendo-me ofegar baixo em busca de ar. — E só e-estamos fazendo um trabalho, ninguém é louco o suficiente para se envolver comigo com um psicopata ao meu redor! — Um tapa estralou em meu rosto, fazendo-me fechar os olhos e inspirar fundo ao mesmo tempo que todo o meu rosto começava a arder.
— Você está pedindo pra morrer! — Sibilou ele segurando meu maxilar, forçando-me a olhar em seus olhos.
— Por favor... — Exclamei. — Por favor, me mate e acabe com todo esse meu sofrimento! — Ele não soube como agir e nem o que falar.
— V4dia louca do car4lho! — Empurrou-me contra a parede antes de se afastar de mim.
— Hey cara! — Kalel apareceu do lado de fora do quarto surpreendendo tanto ao Carter quanto a mim. — Quer nos ajudar a fazer o trabalho? — Indagou olhando rapidamente pra mim. O corredor estava escuro o suficiente para que ele não visse as marcas em meu rosto.
— C-Como? — Carter se via surpreso e eu também.
— A Casandra quase não fala comigo a respeito do que fazer e eu como entrei ontem não faço a mínima ideia do que tenho que fazer! — Kalel o respondeu fazendo com que ele me olhasse com o cenho franzido. — Eu juro pra você, nunca pensei que encontraria uma mulher que me evitasse mais do que tudo neste mundo... — Realizou uma breve careta.
— Ela te evita e não conversa com você? — Indagou Carter fazendo com que o Kalel concordasse tranquilamente.
— Mas então, vai me ajudar? — Carter rapidamente negou e riu de maneira, aparentemente, constrangida. — Vamos, seja um bom amigo!?
— Até poderia te ajudar, mas eu tenho que resolver uns problemas de família! — Kalel realizou uma careta triste arrancando uma gargalhada do Carter. — Mas se precisarem de ajuda com outras coisas, pede ela pra me ligar. — Apontou o queixo indicando-me.
— Tudo bem... — Choramingou. — Nos vemos depois! — Carter concordou e se afastou, mas antes olhou atentamente para nós dois.
Somente quando ele desceu as escadas me permitir respirar tranquilamente. Kalel, nada disse, apenas voltou para o quarto novamente, como se estivesse me dando um tempo a sozinha comigo. Um tempo que aproveitei de bom grado.
Fiquei lá fora por uns bons segundos enquanto forçava as minhas lágrimas a não caírem, pois eu tinha que voltar para o quarto e tinha que fingir que estava bem e que nada daquilo me afetava mais para um completo desconhecido que estava se forçando a entrar em minha vida.
Voltei para dentro do quarto e fechei a porta logo atrás de mim.
— Você está be... — Ele começou a perguntar, mas quando eu me virei em sua direção e ele provavelmente viu meu rosto, pescoço e maxilar vermelho, suas palavras morreram. — M3rda! — Levantou-se e se aproximou de mim. Em reflexo, recuei e bati as costas na porta, fazendo com que ele parasse de se aproximar de mim. — F-Foi tudo por minha culpa, eu sinto muito, muito mesmo Casandra!
— As coisas teriam ficado piores se você não tivesse aparecido naquele momento! — Suspirei cabisbaixo, passando a mão em meu rosto que ainda ardia. — Então, gostando disso ou não... — Parei na metade do meu agradecimento, não porque eu quis, mas sim porque as palavras não quiseram sair dos meus lábios. — Vamos tentar continuar o trabalho? — Indaguei.
Como o esperado por nós dois, depois de toda aquela cena, não conseguimos prosseguir com o trabalho em absolutamente nada!