Limites

1404 Palavras
Lorena narrando. Me sento na sala de Eduardo Torres, simplesmente o CEO dessa empresa. O dono desse prédio. O chefe do meu chefe — e de todos os chefes. Mas ele é louco. Havia dito que seria apenas um teste, um dia, e agora… está me tratando como se fosse o meu primeiro dia de trabalho. Não apenas um dia único, exclusivo e temporário. Não vou mentir: isso me preocupa. — Senhor Torres, quero dizer, senhor Eduardo. — Me corrijo ao ver sua expressão calma se fechar em algo sério por um instante. Surpreendente a velocidade com que se altera. Para alguém tão poderoso, ele pode ser bem reativo quando contrariado. — Amanhã eu posso voltar a trabalhar com o meu chefe, correto? O senhor Joaquim? — No final do dia conversamos, Lorena. — Ele diz, tranquilo, mas firme. — Acredito na sua eficiência. Hoje você trabalha na minha sala. Não preciso de ninguém do lado de fora do andar, não terei reuniões nem visitas antes do almoço. Então, arrume minha agenda, organize meus e-mails, faça o que faz — do seu jeito. E antes do horário de almoço, quero que me apresente, que me explique do seu modo. — Quer que eu venda minha efetividade no serviço? — Algo do tipo. Pense como desejar. Eu irei revisar contratos, trabalharei apenas com a papelada. Sente-se aqui. — Ele se levanta de sua cadeira. A cadeira do CEO. Meu Deus. Ele me oferece o lugar, e eu sinto a animação percorrer meu corpo, varrendo toda a ansiedade, o medo, a insegurança e o receio desse dia. Todo o peso de um possível emprego, do que realmente estou entrando, vai embora com um simples pensamento: “Vou me sentar na cadeira do CEO.” Melhor do que isso só sentar no CEO. Mas ele é tão poderoso, sério e... difícil. Fora do meu alcance. E tem me deixado tão nervosa ultimamente, que quase deixo de achá-lo bonito. Quase. Apenas seus olhos continuam irresistíveis — cada vez mais belos e brilhantes. Eu me levanto, tentando conter a animação, mas não resisto: dou pequenos pulinhos e sorrio ao me aproximar. Passo a mão pelas costas da poltrona e bato os pés, empolgada. Quando me viro e me abaixo para sentar, ah... o poder. Eu nem o tenho, nem o rastro, mas o pouco que imagino já me sobe à cabeça. Me permito relaxar contra o estofado e sorrio mais abertamente. Eu poderia me acostumar com isso. Giro os pés, rodando a cadeira uma vez, e rio baixo. Sou simples de agradar: só a ideia do poder que essa cadeira carrega já me deixou em êxtase. — Se divertindo? — Senhor Torres pergunta, e confirmo com a cabeça, sem disfarçar o entusiasmo. — Eu me acostumaria fácil com isso. Por isso o senhor é assim… eu queria ter tido essa oportunidade por família. — Sou assim como? — questiona, sorrindo, e percebo que falei demais. Endireito minha postura, fico séria, ligo o computador, pensando em como explicar e sair dessa rua sem saída que eu mesma criei — quase que voluntariamente. — Como sou, Lorena? — Sério, autoritário, poderoso. — defino sua presença, e ele me encara sem mudar a expressão. Não faço ideia do que se passa em sua mente, e sinceramente, talvez nem deva saber ou continuar o assunto. Melhor focar no meu papel pequeno e temporário de um dia. — Com licença, senhor Eduardo. Vou começar o trabalho. Assim encerro todo e qualquer papo, tentando me lembrar a todo momento de que ele é simplesmente o CEO, o homem mais importante daqui. Não posso ter minhas palhaçadas e falas sem filtro perto dele, como faço com o senhor Joaquim, que sempre se diverte comigo. Já sinto saudades dele. Até de buscar seu café. A fila sempre me entretinha, assim como dar bom dia, passar o cronograma do dia e beliscar meu lanchinho enquanto executava as tarefas da manhã. Como vou comer aqui? Terei que fazer pausas — e espero, de coração, que ele não me siga. Ou vai realmente achar que sou esfomeada. Mas... se ele realmente tem a intenção de me roubar do senhor Joaquim, talvez seja bom que eu seja eu mesma: m*l-educada, sincera, faladeira, comilona... talvez isso o irrite e o afaste. Assim mantenho meu emprego atual sem qualquer dificuldade. Só preciso prestar atenção no limite do estresse e da tolerância dele. Ou posso, além de não ser contratada por ele, perder o meu contrato vigente com o senhor Joaquim. Isso não! Onde será o limite da linha do senhor Torres? [...] Coloco a tela em descanso, respirando fundo e sentindo a boca seca. Observo o CEO na outra ponta da mesa. Ele realmente é bonito — um homem de verdade. Um homem rico. Está claro pela qualidade de tudo nele. Os cabelos bem cuidados, num corte um pouco mais longo que a média masculina — três dedos, talvez —, o estilo social que nele fica impecável. O terno, feito sob medida, hoje é preto; a gravata, em tom escuro e fosco, combina com meus saltos de hoje, que eu tanto adoro. Seu rosto concentrado o torna ainda mais bonito. O maxilar marcado, a boca se movendo levemente enquanto parece ler e pensar em voz baixa. A caneta entre os dedos se move com naturalidade, como se falasse silenciosamente com algum público invisível. Confesso que me perco por alguns minutos apenas observando isso. É bom, até terapêutico, ver sua concentração. O foco que ele tem. E o tempo que dura é bom — até que ele se move e acaba me olhando por um segundo. Quando percebe meu olhar, ele continua, agora atento, observando meu rosto… depois o tórax, os braços. Ele me analisa dos pés à cabeça e, no fim, para nos meus olhos. Nos olhamos em silêncio, calmamente, por alguns segundos. Eu sorrio, apenas por educação — só com os lábios, sem mostrar os dentes —, tentando evitar um clima estranho. — Com licença. — Onde vai? — À copa, e depois ao banheiro. — Digo, e logo me arrependo. Deveria ter dito toalete, como os ricos e chiques dizem. — Também irei. Preciso de um café. — Posso fazer para o senhor. — Eu gosto de preparar meu próprio café, mas obrigada. Ele se levanta mais rápido do que eu. O segurança pessoal — um dos vários — ficou o tempo todo sentado no canto da sala, silencioso. Tão discreto que só agora percebo sua presença. Ele abre a porta, e senhor Torres passa primeiro, mas me espera para seguirmos lado a lado. Vamos em silêncio. Enquanto ele prepara o café, eu pego minha bolsinha com frutas lavadas — morango e uva verde, ambos gelados e frescos. Coloco na mesa, e percebo o olhar de canto dele. — Desculpe. Sei que o senhor tem aversão a pessoas comendo perto de você, mas em minha defesa, eu saí da sala sozinha. O senhor que decidiu acompanhar. — Como sabe dessa aversão? — pergunta, realmente surpreso. E eu arregalo os olhos ao perceber que falei demais. Sinto o calor subir às bochechas, queimando minha pele. Vergonha explícita. Eu sou muito faladeira, meu Deus... preciso me tratar. — Me conte. — Eu ouvi pelo edifício... após uma foto da empresa, algumas mulheres comentavam sobre isso. Faz um tempo. É verdade? — Me arrependo parcialmente de perguntar, mas já que estou na frente do fogo, por que não me queimar um pouco e matar a curiosidade? — Parcialmente. Não me irrita o ato de comer em si, mas o conjunto das coisas. — Eu comer essas frutas te irrita? — pergunto enquanto ele mexe na cafeteira, e recebo um meio sorriso. — Não. Mas é curioso o fato e a intensidade do seu apetite. Isso sim, me chama atenção. — Ufa! Então ontem não te irritei comendo. Achei que tinha acabado com tudo e... é ótimo que eu fique quieta, não? — Eu mesma me calo, e ele ri, bem ali na minha frente. — Parcialmente, Lorena. Mas agora pode comer suas frutas. Não irei julgar... nesse momento. — Não sei se agradeço algo que já é considerado normal na sociedade. — Você é atrevida, não é? — Ele evidencia, e me faz abrir a boca. Eu, atrevida? Como ele pode me chamar assim, depois de um comentário tão provocante e invasivo? Eu jamais esperaria uma devolutiva assim dele.
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