"Coisas fantasiosas te fazem crer que não basta doar o seu melhor, não importa os esforços, porque eu seria incapaz de prosseguir com tal ato fresco e vívido em minha memória."
***
— Se você fizer um acordo, deverá cumprí-lo. — Ajustei o silenciador em minha pistola automática enquanto observava o homem extremamente cansado, ajoelhado diante de mim.
— Não existe… — Balbuciou em meio a tosse. — … A cláusula de isenção me assegurou.
— Pelo contrário do que acreditou, a cláusula era bem clara em relação à dívida. — Apontei com a arma em direção do homem que demonstrava grande cansaço por ter sido relutante a rendição.
— Deveria ter te matado… Quando tive a chance.
— Não. Você deveria ter ficado em Toronto, agora o acerto de contas não pode esperar. — Um único tiro em seu peito me trouxe um pouco de alívio e satisfação, por menos que tenha sido um grande prejuízo fechar negócios com Homero, agora poderei recuperar o que me foi roubado.
Arrastei o corpo dele mais para o fundo do beco e o depositei ao lado de uma pilha de lixos no chão. Seria fácil ter deixado o corpo ali, ninguém iria procurar saber desse homem, nem mesmo as maiores autoridades que este país tem, eles não se arriscaria de ficar procurando por um moribundo como ele. Procurei minuciosamente qualquer documento que facilitasse o reconhecimento do morto, depois de ter a certeza de que não teria mais provas no local do crime, deixei o lugar e dando passos em direção da rua, senti algo embaixo dos meus sapatos, com a pouca luz consegui ver um ponto vermelho reluzente o que me fez abaixar para o pegar.
A pedra brilhava de forma diferente, havia algo a mais naquele objeto. Algo que não seria possível ser visto a olho nu.
Senti um vulto por detrás das minhas costas, saquei a minha arma e mirei na sombra, provavelmente era alguém que teria nos seguido até aqui, então puxei o gatilho, o que veio a seguir me deixou totalmente imóvel, o corpo de uma criança caiu no chão diante dos meus olhos.
Parecia não ter mais do que oito anos de idade. Meu coração se acelerou, estava me sentindo oprimido com um misto de sensações e os sentimentos de ódio e culpa me fizeram ficar ainda pior, porém, nada agora iria adiantar estar lamentando pelos meus erros.
Havia me lembrado de guardar o pequeno objeto no bolso do paletó e continuei caminhando pelas ruas desertas, aproveitando a brisa da madrugada como se fosse um castigo, alfinetando a pele do meu rosto como se fossem agulhas.
Avistei o Volvo preto de quatro portas me esperando no final da quadra, na esquina ao lado de uma doceria. A porta traseira foi aberta assim que parei ao lado do veículo e então entrei vendo Ivan sentado perto da janela.
— Conseguiu o que buscava? — Suas palavras pareciam escorrer de forma suave, ele estava levemente embriagado.
— Mais do que isso. — Disse já pegando um copo e me servindo de whisky. — Agora posso comprar as ações de Hugo Grover e o tirar da jogada.
— Enquanto a Evangeline? — A filha de Romero não representaria ameaça alguma, principalmente por estar tentando se manter sozinha com seus dois filhos pequenos.
— Não será um problema para mim. — O rosto da criança insistia em ficar em meus pensamentos, pisquei os olhos podendo a ver sentada ao meu lado.
— É um bom argumento. — Ivan comentou soltando um riso nasal. Sacudi a cabeça para dissipar a imagem do garoto, estava ficando perturbado com essa situação.
— O que houve amigo? Está muito disperso. — Ele perguntou enquanto o carro começava a andar.
Meu estômago se embrulhou, então coloquei tudo para fora, despejando o líquido transparente no assoalho do carro. Depois de muitos anos assassinando, matando, manchando as mãos com sangue, essa é a primeira vez em que me sinto culpado por algo.
— Não me diga que a bebida está forte demais. — Ivan disse rindo da situação, mas quando ergui meu rosto e o encarei com os olhos marejados, seu sorriso se desmanchou.
— Não dessa vez amigo.
— Aconteceu alguma coisa que eu precisei saber? — Ele ficou aguardando pela resposta enquanto abaixava o vidro para o ar circular dentro do ambiente. — Estou aqui para te poiar amigo.
Olhei para o retrovisor com o olhar de Cristóvão em nós, o motorista particular que sempre nos acompanhou desde a época do meu pai. Mas eu sempre me sentia estranho com aquele olhar, parecia querer desvendar os segredos da minha alma, nunca gostei dele.
— Um garoto estava no beco… — O meu coração começou a se apertar. — …E me assustei com ele.
— Isso pode acontecer amigo. — Suas palavras não surtiram o conforto que eu precisava. — Não poderia como prever que a criança estava ali.
— Certo. Vamos esquecer isso! — Respondi ainda me sentindo pesado, o carro andou por mais algumas horas antes de descer em frente da mansão.
Meu pai já era um homem de idade bem avançada, o que lhe permitia apenas me dar os seus conselhos, os Bratvas estavam se comportando de forma diferente, alguns homens de confiança passaram a sumir com frequência e isso estava se tornando preocupante.
— Descanse amigo. Qualquer coisa estarei aqui pertinho do Bar. — Ele disse me tirando um meio sorriso.
— Você é incorrigível mesmo, Ivan! — Nos despedimos com um tapa nas costas e entrei na mansão.
Essa noite estarei sozinho, era dia de aproveitar os últimos momentos no cassino e meu pai voltaria gritando pela casa como se tivesse sessenta e seis anos. Balancei a cabeça em negação, um homem beirando os oitenta anos pode mesmo ser capaz de aproveitar a vida dessa forma? Dessa vez tenho a absoluta certeza de que ele não pode ser desse mundo em que vivemos.
Fiquei acordado quase a noite toda, meu pai chegou por volta das seis da manhã e estava totalmente alcoolizado, enquanto a mim, sem coragem de ir me limpar no banheiro e ter que encarar as alucinações que estava tendo da criança. É engraçado, como cheguei a esse ponto?