Meu corpo tremia todo, o suor escorria pelo rosto e meu peitoral exposto. Os meus lábios estavam secos e o grito escapou de minha garganta de forma desesperada, abri meus olhos sentindo o coração palpitar. Os lençóis estavam ensopados, tudo se encontrava no escuro, então sentei para tentar acalmar a minha respiração.
Olhei no meu relógio de pulso e ainda eram duas e meia da madrugada. Suspirei passando as mãos no rosto tentando retirar o excesso de suor que caía em meus olhos fazendo eles arder. Todas as noites eram definitivamente iguais, os mesmos sonhos e pesados vem me assombrando desde que deixei Moscou há uns meses atrás.
Não havia escapatória a não ser me levantar, lavar o rosto e ir à capela rezar e pedir perdão pelos meus pecados. Ivan não havia concordado com a minha decisão, porém, não me impediu de fazer as minhas escolhas, prometeu ficar tomando conta das coisas até que eu decidisse retornar. Caminhei até o banheiro e abri a torneira, mergulhei as mãos embaixo dela e levei a água gelada para o meu rosto.
— Já está de pé, meu filho? — A voz cansada do Reverendo me fez erguer a cabeça. Ele foi muito bondoso por me acolher e me deixar dormir aqui na Basílica.
— Estou sem sono.
— Teve os mesmos pesadelos? — Confirmei resmungando um sim baixo e ele entrou me oferecendo um manto. — Filho, você precisa entender que o passado é como um ferro retorcido.
— O que isso significa? — Perguntei deslizando o pano de linho em meus ombros.
— Significa que precisa ser forjado, não importa que se torne uma arma, ou uma simples colher de sopa. — Seu sorriso foi sincero, ele sabia que eu estava ali não só por esse motivo. Eu ainda sou um dos homens mais perigosos da Máfia Bratva e o meu passado forjou o que eu sou hoje: um homem quebrado.
— Eu preciso decidir… — Ele concordou me deixando sozinho ali.
Os pensamentos me levaram até a figura imponente de meu pai, os seus ensinamentos rigorosos e a sua sabedoria, eu o admirava muito. Me esforcei para estar no seu lugar hoje e aqui estou eu, escrevendo a minha história, traçando um novo caminho.
Retornei para o meu quarto, coloquei uma camisa branca social, ela era mais folgada do que costumava usar, peguei o meu terço e fui para a paróquia fazer as minhas orações. Entrei vendo a grande cúpula acima de mim. As grandes janelas de vitrais esculpidas em grandes desenhos de anjos, me traziam um pouco da sensação de paz, aquele pontinho branco brilhante que eu precisava sentir dentro do meu ser, se iluminando em grande esplendor.
Segui para o confessionário e diante dele estava o altar, me ajoelhei ali e então, as lembranças daquela noite me vem à mente. As minhas orações são direcionadas para a alma daquela criança, pedia com grande fervor, perdão pelos meus pecados, pelos erros do meu passado. Pedia também para que iluminasse o meu caminho, que eu soubesse escolher o que farei no meu presente e o que eu irei querer para o meu futuro.
— Filho, você está aí! — A voz de Estevão me tirou a concentração, o reverendo já estava com a sua batina e o gorro em cima da cabeça. — O café da manhã já foi servido há algum tempo.
— Nossa, nem consegui ver que o tempo havia passado! — O sol do lado de fora estava bem claro o que significa que fiquei a manhã toda aqui em oração.
— Eu não queria ter te atrapalhado, mas estamos precisando de uma ajuda com os animais do Curral.
— Ah! Bom, vou lá dar uma olhada neles. — Os cavalos estavam adoecendo, eram usados em passeatas pela vilas ao redor de Trastevere, também entregamos cestas básicas para os mais necessitados.
Me levantei sentindo um pouco de dor nas pernas e nos joelhos por ter ficado horas na mesma posição, o formigamento tomou conta da perna esquerda me deixando desconfortável, mas dependendo de mim, ficaria ali assim por mais tempo.
— Filho. — Senti a sua mão em meu ombro. — Não importa o que decida, seu futuro sempre vai pertencer a ele.
Seu dedo foi direcionado para cima referindo-se à Deus, concordei balançando a cabeça antes de sair, do salão havia algumas irmãs orando também, passei por elas indo em direção a porta principal que dava diretamente para o corredor, ao lado dele já era possível de se ver o estábulo dos cavalos. O meu preferido era o de pelagem branca, ele tinha apenas uma mancha de estrela no meio de sua cabeça, os olhos dela eram contornados de preto bem na borda, como se estivesse usando maquiagem, seus olhos eram azuis e parte da cabeça num tom mais rosado, uma linda Paint Horse de idade um pouco mais avançada do que os outros cavalos.
— Shafira. — Ela estava de cabeça baixa comendo a ração, quando me ouviu, ergueu as orelhas sem parar de comer. — Como vai, menina?
Gostava de passar um tempo ali com esses animais, eles me acalmavam e me lembravam do tempo que fiquei em uma fazenda, cuidando de animais com meus avós quando pequeno. Havia aprendido muito com eles, hoje todos os ensinamentos me foram úteis. Passei a mão em sua crina retirando alguns espinhos que se enroscaram quando ela estava comendo no pasto, sua barriga estava bem grande, logo teríamos mais um potro para cuidar, sorri passando a mão na extensão de sua coluna.
Ela ergueu a cabeça, ficou assim por uns segundos e depois soltou ar pelas narinas sacudindo a cabeça, sua crina balançou e ela retornou a comer sem se preocupar com a minha presença ali. A minha preocupação era no dia em que esse potro fosse nascer, ela já era de idade, e tinha sido milagre de ter conseguido ficar prenha.
— Estamos preparados para isso, não é? — Alisei mais o seu pelo decidindo ir até o poço para pegar mais água para ela e para os outros animais.
O balde de alumínio estava escorado na parede de madeira, peguei ele e fui até lá. Servir mais água e ração para todos os cavalos antes de retornar para a Basílica, Estevão já não estava mais na capela, estava tudo parado e em silêncio. Já era a hora do almoço e então fui para o refeitório, estavam todos lá, então peguei a minha refeição com a cozinheira que nos servia todos os dias e me sentei em uma mesa vazia e afastada de todos.
A mesa ao meu lado estava o Reverendo e alguns outros padres que vieram nos visitar, mas no meio deles estava o homem que era responsável pelo gerenciamento de todas as igrejas da região, era o Reverendo Mathias. Ele de vez em quando ficava me observando comer, enquanto conversava e estava me incomodando.