Como a maioria das pessoas, sempre imaginei como era o
céu, mesmo sem ter certeza que não seria salva. Mas apesar de tudo,
não imaginei que entre eu e a porta do céu, estaria uma lembrança.
Eu era contemplada quase que frequentemente por aquela
lembrança, geralmente em momentos que queria relaxar.
Estava no quarto da mãe de Christian, era simples, com uma
armação antiga de um mosquiteiro, estava nas quatro extremidades
de onde estava a cama, onde um pano branco e quase transparente
estava.
Uma luz um pouco alaranjada vinha de algum lugar,
preenchendo todo o ambiente, o deixando aconchegante e ao mesmo
tempo sexy.
Todo aquele lugar me lembrava um harém, não que eu já
havia ido em um mas, já havia escutado histórias de como era lá. E
em meio ao lugar que parecia um harém, estava eu, deitada sobre
os lençóis macios e brancos, me sentindo como se estivesse deitada
sobre nuvens. O ar tinha um cheiro gostoso, uma mistura de incenso
e perfume masculino preenchendo o ar.
Não estava vendo meu corpo, mas sentia plenamente que
estava numa e completamente receptiva. Receptiva a uma pessoa.
Como das outras vezes, ele chegava de repente, as vezes via
sua silhueta pelo pano fino do mosquiteiro e as vezes não. Daquela
vez, ele chegou de repente, inclinando-se sobre os pés da cama, ele
engatinhou lentamente sobre a cama, até seu corpo grande estar
sob mim e eu sentir algo úmido roçando em meio as minhas pernas.
Ele sempre estava e******o, assim como eu e saber que
estávamos a um passo de...prendo o ar quando seu rosto embaçado
se aproxima do meu, me beijando com seus lábios carnudos. O beijo
não demora para se aprofundar, nossas línguas entrando numa
sincronia enquanto dançavam; Sentia suas mãos pelo meu corpo,
grandes, um pouco ásperas, percorrendo todas as curvas do meucorpo e indo de encontro justamente aonde estávamos ligados
naquele momento.
Seus dedos acariciam meu clítoris, trazendo uma nova onda
de excitação por todo meu corpo.
Abro minha boca num O perfeito, encarando aqueles olhos
que nunca descobri como eram ou a qual que possuíam, me sentindo
cada vez mais perto de um orgasmo, enquanto ele continuava
arrematando contra meu quadril, com força e de um modo contínuo.
E foi justamente nessa parte, que estava sentindo o maior
prazer que meu corpo poderia sentir em uma lembrança que, acordei
abruptamente.
Não estava morta, estava sentindo meu coração e a minha
respiração. Estava deitada sobre algo confortável, poderia ser o chão,
coberto com algumas cobertas. Não importava. Estava mais
preocupada com o fato de ainda estar respirando e por conhecer o
teto.
- Não... - Gemo baixo, movendo minha cabeça de modo angustiante,
quando me dou conta de que ainda estava sob o poder de Christian -
Eu não quero estar viva - Lágrimas escorrem pelos cantos dos meus
olhos.
Até para me matar, eu era uma completa inútil. Não havia
conseguido enfiar aquela faca o mais fundo possível, ceifando dessa
forma a minha vida. Não havia conseguido. Havia falhado para mim
mesma.
Meu tórax doeu, quando tentei me sentar e perdi o fôlego mais
rápido do que imaginei. Estava mais fraca que eu lembrava e tinha a
impressão que meu corpo se partiria com a facilidade de um graveto,
mesmo assim havia alguma coisa me mantendo viva naquele
momento. Talvez fosse aquele soro amarelado com a mistura de
vários medicamentos ou simplesmente não havia chegado a minha
hora.
Eu ainda queria morrer, não iria resistir mais a uma rodada de
humilhações da parte de Christian, com o mesmo fazendo questão
de esfregar partes do passado que compartilhamos em minha cara.
Eu odiava tudo que aconteceu e por algum tempo, acredito que porum tempo menor, eu sofri com isso, sofri com tudo que aconteceu e
agora ele estava me obrigando a sofrer também.
Se havia em seu plano, que deveria sentir ódio de mim
mesma, estava dando certo. Pois eu estava com ódio de mim mesma,
tamanho era o ódio que eu queria se livrar de mim mesma e que não
consegui fazer isso com ele. Justamente com a pessoa que estava me
ferindo diariamente.
Estava pagando um alto preço por erros do passado.
Solto o ar dos pulmões, ainda decida ao que não terminei antes.
Com um grande esforço, consigo me virar e retirar de uma vez o
acesso em meu braço, estar naquela posição fez meu tórax doer mais
e eu notar ali um curativo bem feito, um igual aos que faziam em
cães.
Meus olhos encontram sob a bancada ao lado, um bisturi e
outros objetos. Era o que precisava. Cortaria meus pulsos dessa vez
e preferia sangrar até morrer do que ter que enfrentar Christian mais
uma vez.
Prendendo o ar, viro mais meu corpo, dessa vez caindo direto
no chão. Uma forte dor me atravessa e preciso reprimir um grito
para não soltar aquele grito e chamar atenção que não queria. Seguro
na bancada e me puxo para cima, conseguindo ficar tempo o
suficiente em pé, para pegar o bisturi.
Entretanto, neste momento, a porta se abre e mesmo
esperando ser o médico veterinário, não é ele que entra no cômodo e
sim Christian , que anda em passos largos até mim, tirando de modo
agressivo o bisturi da minha mão e o jogando contra a parede.
- Você está brincando com a sorte - diz ele calmamente.
- Eu tenho o direito de querer morrer - murmuro, sentindo meus
lábios tremerem - Eu quero morrer.
Ele semicerra os olhos, balançando a cabeça de um lado para
o outro.
- Você não vai morrer.
- Não pode decidir isso - Preciso me apoiar na maca para me manter
em pé, estava tão fraca que até o fato de ficar em pé, estava sendo
um sacrifício - Eu quero morrer...Christian não poderia decidir quando eu viveria e quando ele
iria querer que eu morresse. Sem qualquer aviso prévio, ele me
ergue rapidamente do chão e me joga contra a maca fria, minha
cabeça bate no metal, assim como meu tórax ferido. Gemo baixo,
invadida mais uma vez pelas dores, esperando que meu corpo
concordasse com a minha mente e parasse.
Ele se inclina sobre mim, forçando com que olhasse dentro
dos seus olhos, mesmo eu resistindo.
- Estou no comando agora - diz baixo - Seu dinheiro. O status da sua
família... aqui não tem valor algum. Você pode tentar se matar
quantas vezes você quiser, irei trazer você de volta todas as vezes,
mesmo que eu a mantenha em um soro - Seus olhos me analisam,
olhos aqueles que um dia brilhavam como me viam - Eu decido se
você morre, por quanto tempo irá permanecer viva. Eu sou seu dono.
Laura.
Eu gritava sem parar em minha mente, meus gritos lá ecoavam.
Não aceitava ter que viver isso novamente, não aceitava ter que me
ver declinada à isso, a viver uma vida que não queria e que não
almejava. As lágrimas queriam vir a tona, mas as segurei a todo
custo, não queria chorar mais na frente de Christian, não queria que
visse minha fraqueza ou que notasse que estava definitivamente
vunerável. Pois sabia que era o que ele queria, ele queria saber até
onde eu iria, qual era o meu limite. Queria ter certeza se aguentava
todo tipo de pressão física e psicológica, estava determinado em me
quebrar não somente no meio, mas em diversos pequenos pedaços,
que me veria incapaz de os juntar.
Este era o plano de Christian e concluí isso olhando dentro de
seus olhos. E não havia nada que eu pudesse fazer para impedir isso,
nada que eu fizesse ou dissesse iria o fazer parar. Precisava
descobrir o que poderia o fazer parar e, não era a minha morte,
parecia que estava muito além disso.
O médico veterinário entra no cômodo, mesmo com a
presença dele ali, Christian demora para se afastar e quando o faz,
solta um longo suspiro, inclinando a cabeça para o lado, com os
olhos em mim.- Devia dar alguma coisa para ela - diz com sua calmaria familiar -
Ela está queimando em febre - Ouvindo isso, o veterinário se
aproxima rapidamente e mede minha temperatura com as costas da
mão, voltando a se mover pelo cômodo.
Isto explicava o frio que estava sentindo, que parecia estar
penetrando em meus ossos, esfriando tudo por dentro de mim. O
acesso volta para meu braço e mais medicamento é misturado com o
soro pela metade, aos poucos me sinto sonolenta. Vejo quando
Christian sai e isto me deixa aliviada, a presença dele me deixava
aflita, angustiada e saber que ele não estava ali e que não iria me
perturbar com sua presença, me deixava mais calma.
Aos poucos sucumbo novamente ao sono, as lembranças e
tudo que compunha isso. Não sabia o que era pior, se era Christian
ou ter que lidar com o passado que nos ligava e que o mantinha cada
vez mais vivo.