Continuava sem ter noção do tempo.
Só sabia que amanhecia e anoitecia por causa do sol, e não
conseguia contar os dias, por não saber quantos dias já haviam se
passado.
Havia escapado de uma prisão e estava em outra, prisão
esta, pior do que a outra, aonde era me negado comida, sono e até
mesmo um banho.
Temia me olhar no espelho, me negava a ver o que eu havia
me tornado. Preferia lembrar que estava arrumada como antes,
perfumada, vestida em roupas alinhadas e muito bem passadas. Era
dessa forma que eu queria lembrar de mim, mesmo as roupas que
estava vestida, dizendo o contrário.
Em pequenos momentos, eu tinha o que era chamado por mim
de “descanso”. Isto acontecia nos intervalos das refeições e quando
não estava alimentando o cachorro.
Usava estes momentos, para simplesmente ficar parada, sem
pensar em exatamente em nada. Mesmo com a minha mente
querendo traçar um plano de fuga. Sabia que era inútil e que não
adiantaria absolutamente nada.
As vezes eu via o entardecer, antes raramente eu tinha
oportunidade, tempo para isto, estava sempre ocupada tentando
agradar meu marido e não só ele, meus pais também, com jantares
ou almoços. Ambos queriam um neto e naqueles últimos meses, me
vi tentada à isto, mesmo sabendo que estaria assinando minha
sentença e que estaria para sempre ligada ao meu marido.
Algo é colocado de repente em meu colo, o que me faz sair do
transe que estava e olhar para o shampoo que estava no meio das
minhas mãos.
Olho para Christian com a confusão e o cansaço estampado
em meu rosto.
- O que...? - Não termino, pois ele me interrompe.- Banho no Lorde. Não fez isso até hoje - Olho para o cachorro e
depois para ele.
- Ele vai me morder.
- Você não sabe disso - Ele dá de ombros. Claro que ele sabia, ele
sabia como o cachorro se comportava comigo e sabia que eu o temia
mais do que ele próprio.
- Christian - digo levantando, me sentindo tonta ao me por de pé,
precisando respirar fundo - Ele vai me morder - Simplesmente
Christian me ignora e volta para o interior da casa, me deixando ali
sozinha com o cachorro.
Nos olhamos, aos poucos, junto coragem e decido acabar de
uma vez com aquilo. Pego a mangueira que não estava muito longe
de mim e após sustentar o olhar do cachorro, me aproximo. O
cachorro se mantém parado, apenas seus olhos se mexiam e não
soube interpretar aquele seu comportamento, ele estava sentado mas,
não estava dando nenhum sinal que iria me morder.
Talvez Christian estivesse certo. E no final, o cachorro não
me morderia.
Com isto em mente, me aproximo mais, agora estendo a
mangueira e não sei se foi este gesto ou o fato de estar me
aproximando ainda mais, o encurralando contra a parede, que fez o
cão avançar sobre mim de repente, diretamente na minha mão que
segurava a mangueira e que estava estendida.
O choque foi mais forte que a dor, eu sabia que havia sido
mordida. Um grito de dor escapou da minha boca e a força que o
cão colocou contra meu corpo, me derrubou, temendo ser mordida
novamente, começo a me arrastar sentada no chão, para o mais
longe possível do cão, que estava ameaçadoramente ainda na minha
frente, com seus dentes a mostra, prestes a me atacar mais uma vez.
- Saí! - grito me sentindo uma completa i****a - Saí! - O grito sai
mais alto, estridente, enquanto continuo a recuar, pressionando
minha mão contra meu peito.
O cachorro continua se aproximando, a cabeça baixa, em
posição de ataque, rosnando sem parar.- Lorde!! - A voz séria de Christian ecoa de repente e o cachorro
para no mesmo instante, colocando o r**o entre as pernas,
abaixando as orelhas, ao olhar para seu dono.
Os olhos de Christian estão em mim, mas não há
compaixão em seu olhar.
- Ele me mordeu. Ele me mordeu - Repito sem parar, me dando
conta que estava chorando, além de estar assustada. Minha mão
estava sangrando, além de estar doendo - Você me disse que ele não
iria me morder - E por alguma razão, eu acreditei.
Christian não faz qualquer menção de se aproximar de mim,
ele se mantém no lugar que estava, apenas desviando o olhar para
olhar para o cão que estava encolhido num canto.
- Não foi nada - diz de repente com a voz suave, trazendo uma
lembrança à tona - Ele é vacinado, você não vai ter nada - Mais
lágrimas agora molham meu rosto, dessa vez por eu lembrar de algo
do passado.
Gritos ecoavam por toda parte e antes mesmo de me
aproximar, sabia que eram de dor. Saio correndo do meu quarto e
os sigo, aquela casa as vezes era grande demais e eu a odiava por
causa disso, me sentia em um labirinto e parecia que quanto mais
eu andava, nunca conseguia chegar em nenhum lugar.
Quando chego até os gritos, estou suada e meu coração
acelerado. Minha mãe estava em pé no meio da cozinha, segurando
a Princesa e ao lado estava minha amiga, tentando conter o choro,
só precisei de alguns segundos para concluir que ela havia sido
mordida.
A Princesa havia mordido ela.
- Não foi nada - diz minha mãe, acariciando o pele sedoso da
cachorra - Ela é vacinada, você não vai ter nada - Continua
convicta.
Um gemido escapa da minha garganta, aperto minha cabeça
entre as mãos com força, gritando o mais alto que conseguia,
sentindo mina garganta doer.
Christian estava me enlouquecendo e agora ele sabia disso,
pois estava diante de um estado deplorável, que nunca estive.Ele não se moveu, continuou em pé, observando de perto
todo meu sofrimento e se alimentando dele, como algum tipo de
demônio. Eu só queria que ele parasse, que acabasse de uma vez
com tudo o que estava fazendo, só não conseguia dizer isso à ele,
esperava que ele entendesse isso pelo menos.
Quando o Christian me dá as costas e volta para dentro da
casa, concluo que deveria fazer alguma coisa, que não aguentava
mais toda aquela situação. Levanto abruptamente, ignorando
completamente o cão, andando o mais depressa que meu corpo
conseguia, indo atrás dele.
Sigo sua fragrância e tudo indicava que ele estava na cozinha.
Ele estava de costas para mim, fazendo alguma coisa na pia da
cozinha, alheio ao que acontecia ao seu redor. Me aproximo da pia,
pegando sem pensar duas vezes a faca que havia ali, exposta,
parecendo me esperar.
Eu já havia matado uma pessoa, acreditava que não fazia
muito tempo. E não seria difícil, matar mais uma vez. Porém, a mão
que segurava a faca, a que não tinha muita força e que não havia
sido mordida, treme e a medida que me aproximo de suas costas,
tremem ainda mais.
Um só movimento e eu estaria livre. Minha mão treme
novamente e é neste exato momento, que Christian se vira e como se
estivesse já esperando por algo do tipo de mim, segura meu pulso
com força, o aperto, até o torcer. Grito de dor, dando dois passos
para trás, o encarando exausta.
- Por que não me mata de uma vez?! - grito, olhando dentro de seus
olhos, enfurecida - Me mata e acaba logo com isto!
- Não é você que decide alguma coisa aqui. Sou eu, se já não
percebeu - Passo as mãos pelo rosto, trêmula.
- Eu já entendi que está se vingando e eu...
- Cala a boca - diz ele devagar, com seus olhos vazios - Você não
tem ideia de absolutamente nada.
Para mim estava óbvio que sim, tudo se ligava me minha
cabeça. Não havia outra explicação, só havia aquela e ele não queria
admitir, talvez achando que seu plano iria por água abaixo.- Eu não aguento mais - digo em meio as lágrimas, continuando a
dar passos para trás. Num ato de desespero, pego outra faca, não
tinha mais a intenção de matar Christian e sim a mim mesma.
- Solta essa faca - diz ele com a sua calma característica.
- Eu não aguento mais - Repito mais uma vez, baixo, segurando com
mais força a faca, determinada em acabar com a minha vida e com
todas as humilhações. Me parecia ser o mais certo a se fazer, eu iria
conseguia a minha liberdade.
Tomando coragem, prendo o ar e fecho meus olhos com
força. Minhas mãos a essa altura já tremiam e estavam suadas,
ignoro, pois sabia que se pensasse muito, não teria coragem e eu
precisava acabar com isso, aproveitar aquela oportunidade, já que
não sabia se teria outra chance ou não.
Quando a faca corta minha pele, reprimo um grito e a
enfiou ainda mas minha carne, tentando ignorar a ardência que se
seguiu em seguida.