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1485 Palavras
Continuava sem ter noção do tempo. Só sabia que amanhecia e anoitecia por causa do sol, e não conseguia contar os dias, por não saber quantos dias já haviam se passado. Havia escapado de uma prisão e estava em outra, prisão esta, pior do que a outra, aonde era me negado comida, sono e até mesmo um banho. Temia me olhar no espelho, me negava a ver o que eu havia me tornado. Preferia lembrar que estava arrumada como antes, perfumada, vestida em roupas alinhadas e muito bem passadas. Era dessa forma que eu queria lembrar de mim, mesmo as roupas que estava vestida, dizendo o contrário. Em pequenos momentos, eu tinha o que era chamado por mim de “descanso”. Isto acontecia nos intervalos das refeições e quando não estava alimentando o cachorro. Usava estes momentos, para simplesmente ficar parada, sem pensar em exatamente em nada. Mesmo com a minha mente querendo traçar um plano de fuga. Sabia que era inútil e que não adiantaria absolutamente nada. As vezes eu via o entardecer, antes raramente eu tinha oportunidade, tempo para isto, estava sempre ocupada tentando agradar meu marido e não só ele, meus pais também, com jantares ou almoços. Ambos queriam um neto e naqueles últimos meses, me vi tentada à isto, mesmo sabendo que estaria assinando minha sentença e que estaria para sempre ligada ao meu marido. Algo é colocado de repente em meu colo, o que me faz sair do transe que estava e olhar para o shampoo que estava no meio das minhas mãos. Olho para Christian com a confusão e o cansaço estampado em meu rosto. - O que...? - Não termino, pois ele me interrompe.- Banho no Lorde. Não fez isso até hoje - Olho para o cachorro e depois para ele. - Ele vai me morder. - Você não sabe disso - Ele dá de ombros. Claro que ele sabia, ele sabia como o cachorro se comportava comigo e sabia que eu o temia mais do que ele próprio. - Christian - digo levantando, me sentindo tonta ao me por de pé, precisando respirar fundo - Ele vai me morder - Simplesmente Christian me ignora e volta para o interior da casa, me deixando ali sozinha com o cachorro. Nos olhamos, aos poucos, junto coragem e decido acabar de uma vez com aquilo. Pego a mangueira que não estava muito longe de mim e após sustentar o olhar do cachorro, me aproximo. O cachorro se mantém parado, apenas seus olhos se mexiam e não soube interpretar aquele seu comportamento, ele estava sentado mas, não estava dando nenhum sinal que iria me morder. Talvez Christian estivesse certo. E no final, o cachorro não me morderia. Com isto em mente, me aproximo mais, agora estendo a mangueira e não sei se foi este gesto ou o fato de estar me aproximando ainda mais, o encurralando contra a parede, que fez o cão avançar sobre mim de repente, diretamente na minha mão que segurava a mangueira e que estava estendida. O choque foi mais forte que a dor, eu sabia que havia sido mordida. Um grito de dor escapou da minha boca e a força que o cão colocou contra meu corpo, me derrubou, temendo ser mordida novamente, começo a me arrastar sentada no chão, para o mais longe possível do cão, que estava ameaçadoramente ainda na minha frente, com seus dentes a mostra, prestes a me atacar mais uma vez. - Saí! - grito me sentindo uma completa i****a - Saí! - O grito sai mais alto, estridente, enquanto continuo a recuar, pressionando minha mão contra meu peito. O cachorro continua se aproximando, a cabeça baixa, em posição de ataque, rosnando sem parar.- Lorde!! - A voz séria de Christian ecoa de repente e o cachorro para no mesmo instante, colocando o r**o entre as pernas, abaixando as orelhas, ao olhar para seu dono. Os olhos de Christian estão em mim, mas não há compaixão em seu olhar. - Ele me mordeu. Ele me mordeu - Repito sem parar, me dando conta que estava chorando, além de estar assustada. Minha mão estava sangrando, além de estar doendo - Você me disse que ele não iria me morder - E por alguma razão, eu acreditei. Christian não faz qualquer menção de se aproximar de mim, ele se mantém no lugar que estava, apenas desviando o olhar para olhar para o cão que estava encolhido num canto. - Não foi nada - diz de repente com a voz suave, trazendo uma lembrança à tona - Ele é vacinado, você não vai ter nada - Mais lágrimas agora molham meu rosto, dessa vez por eu lembrar de algo do passado. Gritos ecoavam por toda parte e antes mesmo de me aproximar, sabia que eram de dor. Saio correndo do meu quarto e os sigo, aquela casa as vezes era grande demais e eu a odiava por causa disso, me sentia em um labirinto e parecia que quanto mais eu andava, nunca conseguia chegar em nenhum lugar. Quando chego até os gritos, estou suada e meu coração acelerado. Minha mãe estava em pé no meio da cozinha, segurando a Princesa e ao lado estava minha amiga, tentando conter o choro, só precisei de alguns segundos para concluir que ela havia sido mordida. A Princesa havia mordido ela. - Não foi nada - diz minha mãe, acariciando o pele sedoso da cachorra - Ela é vacinada, você não vai ter nada - Continua convicta. Um gemido escapa da minha garganta, aperto minha cabeça entre as mãos com força, gritando o mais alto que conseguia, sentindo mina garganta doer. Christian estava me enlouquecendo e agora ele sabia disso, pois estava diante de um estado deplorável, que nunca estive.Ele não se moveu, continuou em pé, observando de perto todo meu sofrimento e se alimentando dele, como algum tipo de demônio. Eu só queria que ele parasse, que acabasse de uma vez com tudo o que estava fazendo, só não conseguia dizer isso à ele, esperava que ele entendesse isso pelo menos. Quando o Christian me dá as costas e volta para dentro da casa, concluo que deveria fazer alguma coisa, que não aguentava mais toda aquela situação. Levanto abruptamente, ignorando completamente o cão, andando o mais depressa que meu corpo conseguia, indo atrás dele. Sigo sua fragrância e tudo indicava que ele estava na cozinha. Ele estava de costas para mim, fazendo alguma coisa na pia da cozinha, alheio ao que acontecia ao seu redor. Me aproximo da pia, pegando sem pensar duas vezes a faca que havia ali, exposta, parecendo me esperar. Eu já havia matado uma pessoa, acreditava que não fazia muito tempo. E não seria difícil, matar mais uma vez. Porém, a mão que segurava a faca, a que não tinha muita força e que não havia sido mordida, treme e a medida que me aproximo de suas costas, tremem ainda mais. Um só movimento e eu estaria livre. Minha mão treme novamente e é neste exato momento, que Christian se vira e como se estivesse já esperando por algo do tipo de mim, segura meu pulso com força, o aperto, até o torcer. Grito de dor, dando dois passos para trás, o encarando exausta. - Por que não me mata de uma vez?! - grito, olhando dentro de seus olhos, enfurecida - Me mata e acaba logo com isto! - Não é você que decide alguma coisa aqui. Sou eu, se já não percebeu - Passo as mãos pelo rosto, trêmula. - Eu já entendi que está se vingando e eu... - Cala a boca - diz ele devagar, com seus olhos vazios - Você não tem ideia de absolutamente nada. Para mim estava óbvio que sim, tudo se ligava me minha cabeça. Não havia outra explicação, só havia aquela e ele não queria admitir, talvez achando que seu plano iria por água abaixo.- Eu não aguento mais - digo em meio as lágrimas, continuando a dar passos para trás. Num ato de desespero, pego outra faca, não tinha mais a intenção de matar Christian e sim a mim mesma. - Solta essa faca - diz ele com a sua calma característica. - Eu não aguento mais - Repito mais uma vez, baixo, segurando com mais força a faca, determinada em acabar com a minha vida e com todas as humilhações. Me parecia ser o mais certo a se fazer, eu iria conseguia a minha liberdade. Tomando coragem, prendo o ar e fecho meus olhos com força. Minhas mãos a essa altura já tremiam e estavam suadas, ignoro, pois sabia que se pensasse muito, não teria coragem e eu precisava acabar com isso, aproveitar aquela oportunidade, já que não sabia se teria outra chance ou não. Quando a faca corta minha pele, reprimo um grito e a enfiou ainda mas minha carne, tentando ignorar a ardência que se seguiu em seguida.
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