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1479 Palavras
Toda a limpeza da casa ainda me esperava, quando retornei para a casa de Christian. Me sentia um verdadeiro zumbi, naquelas roupas sujas e arrastando meus pés de um lado para o outro, limpando e organizando os cômodos. Já havia anoitecido algum tempo, mesmo assim tinha ordens expressas para não parar de limpar, quando aquela casa não estivesse completamente limpa. Fora toda a pressão psicológica e física que Christian estava colocando sobe mim, ainda havia o Lord, com certeza ele conseguia ser tão assustador quanto seu dono. Seus olhos azuis claro, ameaçadores, me acompanham enquanto eu limpava. Quando achava que estava segura em um cômodo, logo ele aparecia e ali em pé, me encarava como o dono e neste momento, me sentia incapaz até de me mexer ou fazer algum movimento brusco. Sentia que o cachorro poderia avançar sobre mim e arrancar um dos meus braços, até mesmo me matar. Eu sabia que era mais do que tarde, quando me dei conta do silêncio da rua, notando que o único lugar que estava ainda na algazarra, era aquela casa, cujo na sala de estar, havia seis homens, diante de uma televisão. - Laura - Olho para trás, terminando de secar a área da frente, após a lavar, quando ouço meu nome vindo de Christian - Vá na cozinha e faça alguns petiscos. Estou com fome e o Lorde também - Olho para o cão deitado ao seu lado, apenas parando com o que estava fazendo, indo para a cozinha. Ainda não havia comido e estar diante de tanta comida e não poder comer, era horrível. Havia salame, queijo e presunto na geladeira, os corto em cubos e os coloco em um prato, encontro sachês para o Lord em outra parte do armário e também o sirvo.- É disso que estava falando - diz um dos homens, quando me aproximo, colocando o prato sobre a mesinha de centro. Olho para o cachorro aparentemente adormecido, cogitando a ideia de deixar seu prato azul ali perto e terminar o que estava fazendo. - Lorde - Olho no mesmo segundo para Christian, quando ele chama o cachorro, que ergue a cabeça no mesmo momento. Meu coração acelera, quando ambos olham para mim ao mesmo tempo - Comida - Esta única palavra foi o suficiente para que o cachorro levantasse e olhasse diretamente para mim. Tudo estava indicando que ele não comeria apenas sua comida, mas eu também. Sem pensar direito no que faria, me abaixo devagar e solto o prato, me afastando rapidamente, temendo uma mordida. Christian ri, assim como os demais. A festa de Christian continua por mais algumas horas, entrando pela madrugada e indo até o começo do outro dia. Meu corpo parecia estar todo moído e só conseguia pensar na cama que havia em um dos quatro quartos. Volto para a sala de estar, no momento em que o último homem deixa aquela casa e termino de limpar a sujeira que haviam feito. No sofá, meio grogue, por causa de todo o álcool que havia ingerido, estava Christian. -... eu terminei - sussurro. - Não estou ouvindo você! - Sua voz soa arrastada. - Eu terminei- digo um pouco mais alto. Ele olha com calma ao redor, com certeza procurando algo que dissesse o contrário. - Terminou mesmo? - Terminei - digo convicta - Agora eu queria dormir - Não me importava que estava imunda, eu só queria dormir - Posso ficar em um dos quartos? - Todos os quartos estão ocupados. - Mais alguém mora aqui? - Outras pessoas morando ali, explicaria facilmente isso. - Lorde usa todos - Olho para o cão dormindo incrédula, percebendo que ele ainda não havia parado com seu jogo.- Aonde eu posso dormir? - Resolvo perguntar, evitando olhar diretamente para ele. - Lá fora - diz com um suspiro, se aconchegando no sofá. Olho pela porta de vidro, ciente que estava frio lá fora - E nem tente fugir, a ordem que dei, é que devem matar você se a verem em fuga - As palavras saem de sua boca, enquanto ele mantém os olhos fechados e menos de cinco minutos depois, ouço seus roncos baixos. Ele estava bêbado e duvidava que fosse descobrir em um dos quartos. Mas havia aquela pequena chance dele descobrir e eu apenas piorar mais ainda mais a minha situação. Mas antes de ir dormir do lado de fora, procuro por um celular, para ser mais exata. O celular dele. Eu sabia que o havia visto ali, em algum lugar, e mesmo com a sala organizada não conseguia achar. Estava quase desistindo, quando o notei em baixo do cachorro. Fecho meus olhos, inspirando profundamente sem conseguir me imaginar, colocando a mão justamente ali. Era evidente que ele iria me morder. Quando uma opção surge, não hesito em seguir minha intuição. Na cozinha, pego mais um sachê e coloco no prato do cachorro, voltando o mais rápido que consigo para a sala, sacudindo o conteúdo para chamar a atenção dele. - Olha a comida, cachorrinho - digo baixo, temendo acordar Christian. Entretanto, o cachorro nem se mexe - Vem - Assovio baixo, esperançosa de que agora prestaria atenção em mim. E mais uma vez o cachorro não se mexe. Por mais algum tempo, tento aquela tática, não conseguindo obter sucesso. O cão realmente era fio ao seu dono e isto não deveria me admirar. Acabo por desistir, indo para a sacada, olhando por um tempo o sol nascer, antes de me acomodar em um dos cantos, perto de uma das plantas, tentando dessa forma dissipar o frio. Abraço meu corpo e espero o sono chegar pacientemente e ele chega e, logo me sinto também abraçada por ele e completamente entregue, ficando alheia a tudo ao meu redor.Já fazia algum tempo que não me via diante daqueles sonos “gostosos’, no qual não queremos acordar e só dormir. O sono estava cada vez mais convidativo e mesmo estando dormindo sentada, não era um bom motivo para me fazer despertar. Mas algo gelado sendo jogado contra mim, isso sim. Acordo com um sobressalto, assustada, olhando rapidamente ao meu redor, tentando entender o que havia acabado de acontecer ali e por quê estava molhada. Meus olhos não demoram para encontrar Christian, ele estava em pé, na minha frente, segurando uma mangueira e ao seu lado, seu fiel amigo, Lorde. - Meu café da manhã, não vai se fazer sozinho - diz calmamente, voltando para dentro da casa. Com as sobrancelhas erguidas e os lábios entre abertos, fico ali parada, ainda processando o comportamento dele. Com frio entro na casa, imaginando que ele estava no segundo andar, vou para a cozinha, preparando seu café da manhã com o que tinha ali em disposição. Arrumo a mesa e fico ao seu aguardo, já que não tinha para onde eu ir. Estava tremendo de frio, quando ele entra na cozinha e sem me olhar, senta diante da mesa. - Não comeu nada, comeu? - pergunta, se servindo de café. - Não - Eu sabia que os seres humanos poderiam ficar dias sem comer, menos sem beber água. Quanto tempo eu estava ali? Três dias? Quatro...? Eu não sabia. Christian começa a comer os ovos mexidos, saboreando o alimento. - Até que dá para comer. Não está perfeito, mas você aprende - Ele me olha de cima a baixo, aparentemente não se importando nem um pouco por estar molhada, suja e fedendo. Ele não come toda a comida e sou obrigada a jogar a comida que sobrou fora, mesmo uma parte de mim querendo comer o resto que sobrou. Depois de uma luta interna, consigo limpar toda a cozinha, organizar tudo, mesmo sabendo que logo tudo estaria fora do lugar novamente, já que ele mandaria eu preparar seu almoço.Estava em um estado, zumbi, definitivamente. Eu tinha certeza que estava me tornando um, já que não estava dormindo mais, não me alimentava e me arrastava de um lado para o outro, fazendo tarefas domésticas e as repetindo quando Christian achava que não estava limpo o suficiente e que havia sido desleixada. Mesmo não aguento, mesmo estando em meu limite, eu continuo e a pior parte é alimentar o cachorro. O medo m atravessava toda vez que eu me aproximava dele e seus olhos se fixavam em mim, conseguia perceber que Christian estava se divertindo com isso, era divertido para ver como eu ficava diante do cão. Ele sabia que eu temia o Lorde e também sabia o que fui capaz de fazer no passado. Tudo aquilo continuava sendo um maldito jogo para ele e ele estava se divertindo com o meu sofrimento. Me perguntava se Rafael sabia o que estava acontecendo ali, se sabia do jogo doentio do irmão carregado de vingança, que não só o consumia, mas também à mim, que me sentia em uma areia movediça, que me engolia toda vez que tentava me mexer.
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