Toda a limpeza da casa ainda me esperava, quando retornei
para a casa de Christian.
Me sentia um verdadeiro zumbi, naquelas roupas sujas e
arrastando meus pés de um lado para o outro, limpando e
organizando os cômodos.
Já havia anoitecido algum tempo, mesmo assim tinha ordens
expressas para não parar de limpar, quando aquela casa não
estivesse completamente limpa.
Fora toda a pressão psicológica e física que Christian estava
colocando sobe mim, ainda havia o Lord, com certeza ele conseguia
ser tão assustador quanto seu dono. Seus olhos azuis claro,
ameaçadores, me acompanham enquanto eu limpava. Quando
achava que estava segura em um cômodo, logo ele aparecia e ali em
pé, me encarava como o dono e neste momento, me sentia incapaz
até de me mexer ou fazer algum movimento brusco.
Sentia que o cachorro poderia avançar sobre mim e arrancar um
dos meus braços, até mesmo me matar.
Eu sabia que era mais do que tarde, quando me dei conta do
silêncio da rua, notando que o único lugar que estava ainda na
algazarra, era aquela casa, cujo na sala de estar, havia seis homens,
diante de uma televisão.
- Laura - Olho para trás, terminando de secar a área da frente, após a
lavar, quando ouço meu nome vindo de Christian - Vá na cozinha e
faça alguns petiscos. Estou com fome e o Lorde também - Olho para
o cão deitado ao seu lado, apenas parando com o que estava fazendo,
indo para a cozinha.
Ainda não havia comido e estar diante de tanta comida e não
poder comer, era horrível. Havia salame, queijo e presunto na
geladeira, os corto em cubos e os coloco em um prato, encontro
sachês para o Lord em outra parte do armário e também o sirvo.- É disso que estava falando - diz um dos homens, quando me
aproximo, colocando o prato sobre a mesinha de centro. Olho para o
cachorro aparentemente adormecido, cogitando a ideia de deixar seu
prato azul ali perto e terminar o que estava fazendo.
- Lorde - Olho no mesmo segundo para Christian, quando ele chama
o cachorro, que ergue a cabeça no mesmo momento. Meu coração
acelera, quando ambos olham para mim ao mesmo tempo - Comida -
Esta única palavra foi o suficiente para que o cachorro levantasse e
olhasse diretamente para mim.
Tudo estava indicando que ele não comeria apenas sua comida,
mas eu também. Sem pensar direito no que faria, me abaixo devagar
e solto o prato, me afastando rapidamente, temendo uma mordida.
Christian ri, assim como os demais.
A festa de Christian continua por mais algumas horas,
entrando pela madrugada e indo até o começo do outro dia. Meu
corpo parecia estar todo moído e só conseguia pensar na cama que
havia em um dos quatro quartos.
Volto para a sala de estar, no momento em que o último
homem deixa aquela casa e termino de limpar a sujeira que haviam
feito. No sofá, meio grogue, por causa de todo o álcool que havia
ingerido, estava Christian.
-... eu terminei - sussurro.
- Não estou ouvindo você! - Sua voz soa arrastada.
- Eu terminei- digo um pouco mais alto. Ele olha com calma ao
redor, com certeza procurando algo que dissesse o contrário.
- Terminou mesmo?
- Terminei - digo convicta - Agora eu queria dormir - Não me
importava que estava imunda, eu só queria dormir - Posso ficar em
um dos quartos?
- Todos os quartos estão ocupados.
- Mais alguém mora aqui? - Outras pessoas morando ali, explicaria
facilmente isso.
- Lorde usa todos - Olho para o cão dormindo incrédula, percebendo
que ele ainda não havia parado com seu jogo.- Aonde eu posso dormir? - Resolvo perguntar, evitando olhar
diretamente para ele.
- Lá fora - diz com um suspiro, se aconchegando no sofá. Olho pela
porta de vidro, ciente que estava frio lá fora - E nem tente fugir, a
ordem que dei, é que devem matar você se a verem em fuga - As
palavras saem de sua boca, enquanto ele mantém os olhos fechados
e menos de cinco minutos depois, ouço seus roncos baixos.
Ele estava bêbado e duvidava que fosse descobrir em um dos
quartos. Mas havia aquela pequena chance dele descobrir e eu
apenas piorar mais ainda mais a minha situação.
Mas antes de ir dormir do lado de fora, procuro por um
celular, para ser mais exata. O celular dele. Eu sabia que o havia
visto ali, em algum lugar, e mesmo com a sala organizada não
conseguia achar.
Estava quase desistindo, quando o notei em baixo do
cachorro. Fecho meus olhos, inspirando profundamente sem
conseguir me imaginar, colocando a mão justamente ali. Era
evidente que ele iria me morder.
Quando uma opção surge, não hesito em seguir minha
intuição. Na cozinha, pego mais um sachê e coloco no prato do
cachorro, voltando o mais rápido que consigo para a sala, sacudindo
o conteúdo para chamar a atenção dele.
- Olha a comida, cachorrinho - digo baixo, temendo acordar
Christian. Entretanto, o cachorro nem se mexe - Vem - Assovio
baixo, esperançosa de que agora prestaria atenção em mim. E mais
uma vez o cachorro não se mexe.
Por mais algum tempo, tento aquela tática, não conseguindo
obter sucesso. O cão realmente era fio ao seu dono e isto não deveria
me admirar.
Acabo por desistir, indo para a sacada, olhando por um tempo
o sol nascer, antes de me acomodar em um dos cantos, perto de uma
das plantas, tentando dessa forma dissipar o frio. Abraço meu corpo
e espero o sono chegar pacientemente e ele chega e, logo me sinto
também abraçada por ele e completamente entregue, ficando alheia a
tudo ao meu redor.Já fazia algum tempo que não me via diante daqueles sonos
“gostosos’, no qual não queremos acordar e só dormir. O sono
estava cada vez mais convidativo e mesmo estando dormindo
sentada, não era um bom motivo para me fazer despertar. Mas algo
gelado sendo jogado contra mim, isso sim.
Acordo com um sobressalto, assustada, olhando rapidamente
ao meu redor, tentando entender o que havia acabado de acontecer
ali e por quê estava molhada.
Meus olhos não demoram para encontrar Christian, ele estava
em pé, na minha frente, segurando uma mangueira e ao seu lado, seu
fiel amigo, Lorde.
- Meu café da manhã, não vai se fazer sozinho - diz calmamente,
voltando para dentro da casa. Com as sobrancelhas erguidas e os
lábios entre abertos, fico ali parada, ainda processando o
comportamento dele.
Com frio entro na casa, imaginando que ele estava no segundo
andar, vou para a cozinha, preparando seu café da manhã com o que
tinha ali em disposição. Arrumo a mesa e fico ao seu aguardo, já que
não tinha para onde eu ir.
Estava tremendo de frio, quando ele entra na cozinha e sem
me olhar, senta diante da mesa.
- Não comeu nada, comeu? - pergunta, se servindo de café.
- Não - Eu sabia que os seres humanos poderiam ficar dias sem
comer, menos sem beber água. Quanto tempo eu estava ali? Três
dias? Quatro...? Eu não sabia.
Christian começa a comer os ovos mexidos, saboreando o
alimento.
- Até que dá para comer. Não está perfeito, mas você aprende - Ele
me olha de cima a baixo, aparentemente não se importando nem um
pouco por estar molhada, suja e fedendo.
Ele não come toda a comida e sou obrigada a jogar a comida
que sobrou fora, mesmo uma parte de mim querendo comer o resto
que sobrou. Depois de uma luta interna, consigo limpar toda a
cozinha, organizar tudo, mesmo sabendo que logo tudo estaria fora
do lugar novamente, já que ele mandaria eu preparar seu almoço.Estava em um estado, zumbi, definitivamente. Eu tinha
certeza que estava me tornando um, já que não estava dormindo
mais, não me alimentava e me arrastava de um lado para o outro,
fazendo tarefas domésticas e as repetindo quando Christian achava
que não estava limpo o suficiente e que havia sido desleixada.
Mesmo não aguento, mesmo estando em meu limite, eu
continuo e a pior parte é alimentar o cachorro. O medo m
atravessava toda vez que eu me aproximava dele e seus olhos se
fixavam em mim, conseguia perceber que Christian estava se
divertindo com isso, era divertido para ver como eu ficava diante do
cão. Ele sabia que eu temia o Lorde e também sabia o que fui capaz
de fazer no passado.
Tudo aquilo continuava sendo um maldito jogo para ele e ele
estava se divertindo com o meu sofrimento. Me perguntava se
Rafael sabia o que estava acontecendo ali, se sabia do jogo doentio
do irmão carregado de vingança, que não só o consumia, mas
também à mim, que me sentia em uma areia movediça, que me
engolia toda vez que tentava me mexer.