Não havia se quer saído da cozinha. Muito menos terminado
de lavar toda a louça.
A impressão que tinha, era que quanto mais lavava os copos,
mais eles se multiplicavam, além dos pratos e todas aquelas panelas.
Não pareciam ter fim! Só conseguia pensar, aonde tudo isto iria
parar, me questionava se quando Christian tivesse sua vingança, se
iria me deixar ir. Ou me matar.
Não aguentava ficar em pé mais, minhas pernas não paravam
de tremer, além disso, meu estômago roncava dolorosamente e já
não sabia a quanto tempo estava naquele jejum forçado. Eu só
sentia aquela necessidade extrema de comer o mais rápido possível e
meu corpo ainda mais fraco, por falta de alimento.
Tento chegar na cadeira mais próxima para me sentar,
esperando que se fizesse isso, me sentiria um pouco melhor mas,
falho no momento em que tento puxar a cadeira, batendo com força
minha cabeça na própria, antes de cair ao chão.
Reviro meus olhos nas órbitas, me sentindo incapaz de manter
meus olhos abertos, agora a minha cabeça além de girar sem parar,
ainda por cima doía. Uma dor aguda e profunda, assim como as
demais que já haviam em meu corpo.
Tento focar meus olhos em algum ponto no teto, me manter
acordada, lúcida.
- Você não está fazendo o que mandei - Ouço a voz de Christian
inicialmente ao longe, só então após alguns instantes, percebo que
estava próximo de mim, para ser mais exata, perto do meu corpo.
-... não consigo mais - sussurro.
- Consegue, Laura. Você consegue - diz me forçando a tentar ficar
sentada, mas não conseguia, meu corpo já não obedecia e todas
aquelas dores... já não as suportava mais - Levanta, agora - Sua voz
soa entre dentes. Respiro pela boca, não conseguindo manter meusolhos abertos - Agora! - Grita, quando sua ordem não tem nenhum
efeito sobre mim.
Meu corpo faz um som estranho, quando bate no chão, movo
minha cabeça para o lado, sentindo minhas pálpebras ainda mais
pesadas, além de sentir o gosto persistente de sangue em minha boca.
Aquele gosto amargo parecia que nunca mais me abandonaria.
Ouço ele conversando com alguém, talvez com Matias,
encontrando um jeito de se livrar do meu corpo. Eu sabia que existia
diversos métodos para se livrar do corpo de uma pessoa e que eles
não arrumariam nenhum problema com isto.
Em determinado momento, não consigo mais processar o que
estava acontecendo ao meu redor. Era como se eu fosse uma
máquina, sendo tirada de repente da tomada.
De vez em quando, recobro a consciência, não por muito
tempo, apenas para perceber que não estava sozinha. Havia pelo
menos duas pessoas, só não conseguia identificar suas vozes. E
latidos.
Muitos latidos. Perto de mim e ao longe. O cheiro pelo menos
era familiar e característico de um pet shop, mas eu não tinha ideia
do que poderia estar fazendo naquele lugar.
Alguém se inclina sobre mim, estava deitada sobre algo
metálico e frio, pude perceber que a superfície era lisa, graças as
pontas dos meus dedos que ali roçaram. O homem fala consigo
mesmo, enquanto suas mãos mexem em mim, mas não de um jeito
obsceno, era como se estivesse me examinando.
Sinto algo entrar em uma das veias do meu braço, só que não
tenho nenhuma reação, apenas sinto o líquido se espalhando
gradativamente.
Depois disso, perco a consciência novamente. Acordo mais
uma vez com os latidos, com aquela superfície desconfortável e a
vontade de beber água. Meus lábios estavam secos e rachados,
quando passava a língua sobre eles, os sentia arder.
Abro meus olhos o máximo que posso, movendo a cabeça de
um lado para o outro, tentando ver o local que estava. Parecia ser
uma sala de hospital, mas eu sabia que não era. Os barulhos externosnão eram de um hospital, havia diversos latidos vindo da parte de
fora.
- Que bom que está acordada - diz um homem de repente, se
aproximando - Isto é bom. Seu corpo está reagindo.
- Estou no hospital? - pergunto mesmo sabendo que a resposta é
negativa.
- Longe disso - diz sem parar de se mover ao meu redor - Está na
minha humilde clínica veterinária - Abro e fecho minha boca, pasma,
puxando fortes lufadas de ar pela minha boca.
- Como assim?! - Consigo elevar a voz e ao mesmo tentar tentar
sentar.
- Ei. Continue deitada - Ele ordena, empurrando meu peito para
baixo - Não está ouvindo os latidos? - Estavam ali, bem depois
daquela porta. Alto e claro.
- Por que estou aqui? - Choramingo, mexendo a cabeça de um lado
para o outro.
- Diablo mandou você para cá.
- Quem?! - De quem ele estava falando? E por que minha cabeça
não parava de rodar a vontade de vomitar estava cada vez maior.
- Ele conhece você, pelo o que parece. O Christian!
Pisco algumas vezes, mantendo o cenho franzido.
- O Christian... - murmuro ainda pasma - Ele me mandou para um
pet shop...
- Eu falei da UPA, mas ele disse que você não precisava de tantas
mordomias - Fecho meus olhos por alguns instantes. Como ele
pôde?, era a apenas essa pergunta que estava fixa em mim. O que
ele estava pretendendo no final das contas? - Está sentindo alguma
coisa? - Ele começa a me examinar.
- Sede.
Ele se afasta e quando volta é com um copo descartável com
água, erguendo um pouco minha cabeça, faz com que o líquido
chegue até a minha boca, onde não hesito em beber de uma vez.
Acabando por vomitar logo em seguida.
- Era para beber com mais devagar - Meu estômago doí, me fazendo
me contorcer.-.... eu preciso que me ajude - murmuro.
- Já estou fazendo isso. Dando meu melhor.
- Não dessa forma. Preciso que me ajude a fugir - O homem de
cabelos grisalhos e óculos quadrados, para, sustentando meu olhar -
Não era para eu estar aqui. Fui estuprada por diversos homens e
estou sendo mantida em cativeiro - Ele escuta com atenção, até que
desvia o olhar.
- Eu sinto muito...
- Mas ainda você pode me ajudar.
- Não, eu não posso - diz sem ao menos pensar, voltando a se mover.
- Você poderia dizer que eu fugi - argumento.
- Está fraca demais e não chegaria muito longe.
Meus lábios tremem e meus olhos se enchem de lágrimas.
- Só preciso que me ajude, não me importo com o que irá dizer.
- Eu já disso. Eu sinto muito - diz sério, olhando para a porta de
repente, saindo dali em passos largos.
Tento virar meu corpo de lado para poder sentar, até este
simples gesto era uma agonia. Meu corpo doía e os hematomas pelos
meus braços, explicavam parte da dor. Parecia que ninguém naquele
lugar sentia piedade, nem um médico veterinário.
- Ela deveria descansar mais - Ouço a voz do homem novamente, só
que agora ele não está mais falando sozinho, muito menos só tem ele
ali - Pelo menos, é o que eu acho - Entram no cômodo, o homem
para perto da porta, enquanto Christian se aproxima de mim - Já que
tocamos no assunto. O que aconteceu com ela?
Christian suspira, olhando ao redor, menos para mim.
- Faça ela levantar.
- Mas... - Ele olha para o homem que não hesita mais, tira o acesso
que estava em mim e gentilmente me ajuda a sentar. Tudo ao meu
redor, gira ao redor e preciso respirar pela boca para não desmaiar.
Sustento o olhar de Christian, com meu corpo indo levemente
para frente e para trás, até que o mesmo sai do cômodo.
- Eu desejo boa sorte à você - diz o homem ao me ajudar a descer da
maca e caminhar para fora dali. Eu queria gritar para ele, que ele
teria sua parcela de culpa se qualquer coisa me aconteceria mas,simplesmente desisti ao ver Christian com um Pitbull preto de olhos
claros, ameaçador. Havia uma época que eu gostava de cachorros,
nossa família até tinha um, que minha mãe costuma tratar como uma
pessoa, mesmo nós achando estranho. Ela fazia com que o tratasse
da mesma forma e as pessoas ao redor.
Minha mãe chorou por dias, quase entrou em uma depressão
profunda, quando misteriosamente o cachorro “sumiu”. Até
recompensas ela ofereceu, espalhou cartazes e fez tudo o que estava
em seu alcance, mas a c****a nunca foi encontrada e minha mãe, não
quis ter outro cachorro.
- Conheça o m****o mais novo da minha família, Laura - diz
Christian segurando a coleira, fazendo um breve carinho na cabeça
do animal - Lorde - Um sorriso surge em seu rosto, logo ele desvia o
olhar do cachorro para mim e entendo naquele instante, que estava
em um jogo doentio. Lorde me parecia ser um nome contraditório ao
nome da c****a da minha mãe. Princesa - E sua mais nova tarefa,
depois de deixar a casa brilhando, será cuidar dele. Como se ele
fosse a pessoa mais importante, pois ele é - O sorriso se estreita em
seu rosto sombrio.