Pré-visualização gratuita CAPÍTULO 1 - PERGUNTAS SEM RESPOSTAS
O despertador tocou às seis da manhã.
Como todos os dias.
Abri os olhos devagar e fiquei alguns segundos encarando o teto de madeira.
Do lado de fora da janela, o sol começava a surgir atrás das montanhas.
A pequena vila ainda estava silenciosa.
A maioria das pessoas continuava dormindo.
Mas eu não.
Nunca consegui dormir até tarde.
Sentei-me na cama e passei a mão pelos cabelos.
Foi quando ouvi passos correndo pelo corredor.
Sorri imediatamente.
— Mamãe!
A porta se abriu com força.
Uma menina de quatro anos entrou correndo no quarto.
Os cabelos castanhos estavam completamente bagunçados.
O vestido estava torto.
E ela segurava apenas um dos sapatos.
— Você esqueceu de colocar o outro.
Falei.
Ela olhou para os próprios pés.
Depois para mim.
E abriu um sorriso.
Um sorriso tão parecido com o meu que às vezes chegava a me assustar.
Os olhos azuis eram exatamente iguais aos meus.
Mas os cabelos escuros e levemente ondulados não.
Nem os cílios longos.
Nem aquele jeitinho teimoso de cruzar os braços sempre que era contrariada.
Muitas vezes me peguei observando seu rosto enquanto ela dormia, tentando encontrar alguma pista sobre o homem que era seu pai.
Mas tudo o que eu encontrava eram mais perguntas.
— Bom dia.
Ela se jogou na cama.
— Bom dia, princesa.
Beijei sua testa.
Emma apoiou a cabeça no meu colo.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
Até que ela suspirou.
— Mamãe, eu preciso mesmo ir para a escola hoje?
Sorri.
— Precisa.
Ela fez um biquinho.
— Eu não gosto.
Antes que eu pudesse responder, seus olhos começaram a ficar marejados.
Meu coração apertou imediatamente.
— O que aconteceu?
Ela abaixou a cabeça.
Mexendo nervosamente nos dedos.
— Meus colegas falaram que meu pai me abandonou.
Senti meu corpo inteiro congelar.
— Disseram que ele não gostou de mim quando me viu.
A voz saiu tão baixinha que quase não ouvi.
Por alguns segundos, não consegui responder.
Porque eu mesma não tinha respostas.
Nenhuma.
Já faziam cinco anos desde o acidente.
Cinco anos desde que acordei sem lembrar quem eu era.
Sem lembrar de onde vinha.
Sem lembrar de quase nada.
Restaram apenas alguns fragmentos da minha infância.
O cheiro da terra molhada.
A sensação de correr descalça.
Uma vida simples.
Mais nada.
Todo o resto desapareceu.
Como se alguém tivesse arrancado páginas inteiras da minha história.
Durante esses cinco anos tentei seguir em frente.
Tentei aceitar.
Mas existia um vazio dentro de mim.
Uma sensação constante de que alguma coisa importante havia ficado para trás.
Como se eu tivesse esquecido alguém.
Ou uma promessa.
Ou uma vida inteira.
Se não fosse minha filha e meu pai, eu provavelmente estaria completamente perdida.
Mas ainda assim...
Eu queria respostas.
Precisava delas.
E se o pai da Emma realmente tivesse ido embora quando descobriu a gravidez?
E se ele tivesse causado o acidente?
E se estivesse morto?
E se estivesse vivo?
E se estivesse me procurando?
Eram perguntas demais.
E respostas de menos.
— Mamãe?
A voz da minha filha me trouxe de volta.
Voltei os olhos para ela.
Emma me observava com expectativa.
Esperança.
Como se eu pudesse resolver tudo.
Como se mães soubessem todas as respostas.
Quem me dera.
Passei a mão em seus cabelos.
— Escuta uma coisa.
Ela assentiu.
— Você é perfeita.
Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios.
— Mesmo?
— Mesmo.
Beijei sua testa novamente.
— E seu pai vai voltar.
Minha garganta apertou.
Mas continuei.
— Ele só precisa de um pouco mais de tempo, está bem?
O sorriso que surgiu em seu rosto foi tão bonito quanto doloroso.
Ela me abraçou imediatamente.
Com toda a força que uma criança de quatro anos conseguia ter.
E eu a abracei de volta.
Tentando ignorar o aperto no peito.
Porque enquanto ela sorria cheia de esperança...
Eu estava mentindo.
Mentindo para minha filha.
Sobre um homem que eu não lembrava.
Sobre uma história que eu não conhecia.
Sobre alguém que talvez eu nunca encontrasse.
E meu peito doía ao ver aquele brilho surgir em seus olhos.
Porque ela acreditava que um dia conheceria o pai.
E eu nem sequer sabia se conseguiria encontrá-lo.
Enquanto tomava banho, passei a mão distraidamente pela barriga.
Meus dedos encontraram a cicatriz de sempre.
Uma linha fina e esbranquiçada que atravessava a parte inferior do meu abdômen.
Todos os dias eu me fazia a mesma pergunta.
De onde ela veio?
A parteira da vila dizia que parecia uma cicatriz de cesariana.
Mas aquilo não fazia sentido.
Emma nasceu de parto normal.
Eu me lembrava disso.
Ou pelo menos me lembrava do que me contaram.
Então por que aquela cicatriz estava ali?
Quando perguntei ao meu pai, ele respondeu que era consequência do acidente.
Como ele era veterinário e a pessoa que mais cuidou de mim durante todos esses anos, nunca insisti no assunto.
Mas, às vezes, aquela resposta não me convencia completamente.
Era como se alguma parte de mim soubesse que existia algo mais.
Algo que eu deveria lembrar.
Algo importante.
Balancei a cabeça.
Pensar demais nunca me levou a lugar nenhum.
Terminei o banho e me arrumei.
Quando desci, o cheiro de café recém-passado já dominava a casa.
Minha filha estava sentada à mesa, balançando as pernas enquanto comia um pedaço de pão com geleia.
O humor parecia bem melhor do que alguns minutos atrás.
O que me deixou aliviada.
Depois do café da manhã, peguei sua mochila.
— Vamos?
— Vamos.
Ela segurou minha mão imediatamente.
Como sempre fazia.
Saímos de casa.
O ar da manhã estava fresco.
As ruas estreitas da vila começavam a ganhar movimento.
Morávamos em uma pequena comunidade brasileira no interior da Holanda.
Um lugar simples.
Acolhedor.
Onde praticamente todo mundo se conhecia.
As casas tinham jardins coloridos.
Bicicletas estavam espalhadas pelas calçadas.
E quase sempre alguém parava para conversar durante o caminho.
— Bom dia, querida!
Gritou Dona Rosa da varanda.
— Bom dia!
Respondi sorrindo.
Mais adiante encontramos o senhor Joaquim cuidando das flores.
Depois a senhora Marta caminhando com seu cachorro.
E mais algumas pessoas que me cumprimentaram pelo nome.
Era impossível andar dez minutos naquela vila sem parar pelo menos três vezes.
Quando chegamos à escola, me abaixei diante da minha filha.
Arrumei uma mecha de cabelo atrás de sua orelha.
— Vai ficar tudo bem?
Ela assentiu.
Mas antes de entrar, me abraçou.
Forte.
Como se ainda estivesse pensando no assunto daquela manhã.
Meu coração apertou novamente.
— Eu te amo, mamãe.
Beijei sua testa.
— Eu também te amo, princesa.
Observei enquanto ela corria para dentro da escola.
Esperando até desaparecer completamente da minha vista.
Só então continuei caminhando.
Dessa vez em direção à casa do meu pai.
Enquanto percorria as ruas da vila, uma sensação estranha voltou a me acompanhar.
A mesma sensação de sempre.
Como se eu estivesse esquecendo alguma coisa.
Ou alguém.
Como se uma parte da minha vida continuasse me esperando em algum lugar.
E eu ainda não soubesse disso.