Um dia será meu lar

1804 Palavras
Eu estava acostumada à riqueza do castelo do meu reino, mas no castelo de About foram novidades, desde o momento em que o avistei e até agora estou impressionada com sua grandiosidade e elegância, começo a achar que minha mãe tinha razão com tanta exigência para os meus treinos de bons modos, mas a verdade é que se eu circulasse entre outras pessoas, isso me seria bem mais natural e eu não precisaria de treinar. Conforme vamos nos aproximando do castelo, meu coração começa a acelerar, não faço ideia do que vou encontrar pela frente, quem estará lá e se essas pessoas vão gostar de mim. Matilde sempre me disse e agora está a repetir enquanto arruma meu cabelo em meio aos solavancos da carruagem: - Lembre-se menina, conquistar sua sogra é tão importante quanto conquistar seu marido, as sogras tem tanto poder como ele de tornarem seus dias felizes, ou transformá-los em um inferno. - Já me disse isso, Tilde. - Digo e repito, para que você esteja preparada. Ela pega uma caixa que esteve ali no canto, embaixo do assento durante toda a viagem e me entrega: - O que é isso? - É um presente para sua sogra, a Vossa Alteza Rainha de About. Sua mãe quem escolheu, então, acredito que ela vá gostar do presente. - Realmente, mamãe tem um gosto impecável. Tento levantar a tampa da caixa, mas Matilde bate na minha mão. - Ai, Tilde. - Deixe de ser curiosa, pode desmanchar o laço e isso seria um desastre. Me aquieto com a caixa na minha mão. Chegamos aos portões do castelo e posso ver que por aqui tem o dobro de soldados que tem em casa. Minha ansiedade está a milhão e começo a suar frio, me sinto um rato, acuado pelo gato, mas eu nem mesmo posso distinguir quem é o gato da vez. Ao passar pelo portão vislumbramos o mais lindo jardim que eu já vi na minha vida, embora tenha visto apenas o do castelo onde moro, mas nem se compara a beleza que estou a ver agora. Fico de boca aberta e Matilde também, nos olhamos surpreendidas e encantadas. A primeira coisa que eu vou fazer se tiver algum tempo livre é passear por esse lugar e cheirar o máximo de flores que eu conseguir. Tudo ali era majestoso, a entrada do castelo tinha uma grande porta vermelha com detalhes em dourado, que com toda a certeza era de ouro e o Brasão Imperial bem no meio da porta. Minha respiração começa a ficar cada vez mais difícil quando a carruagem para. Meus pais descem primeiro e vão na frente, eu vou mais atrás, uma pena Matilde não poder me acompanhar, então estou sozinha nessa, preciso manter a cabeça erguida, vou repassando mentalmente todas as instruções que devo seguir e agora, nesse momento, acho que nada daquilo não foi suficiente. Puxo a manga de mamãe, ela demora em me dar atenção, ela deve ter considerado que se me ignorasse eu pararia, mas eu preciso lhe falar. Ela apenas se vira e faz um gesto com a cabeça para que eu fale. - Talvez eu possa... - Agora não é hora princesa, assuma a postura e vamos em frente. Nesse momento o Mestre Sala nos anuncia e não há mais volta. A porta se abre e posso ver mesmo meus pais tapando quase toda a minha visão que há um corredor de pessoas ali e que no fim, a família real de About está em toda a sua majestade. O rei e a rainha sentados no trono e seus filhos de pé um de cada lado dos pais. Tomo uma respiração profunda, pois sinto que posso desmaiar a qualquer momento e fico repetindo em minha mente: - Sorrir e cumprimentar a todos, reverência completa para o rei e a rainha e meia reverência para o principe e a princesa. Não dirigir palavra nenhuma, é mais educado ouvir do que falar. Falar apenas quando for extremamente necessário. Sorrir sempre. Vamos passando pelo corredor de pessoas e quando estamos bem perto da família real, eu desejei que aquele corredor tivesse pelo menos mais uns trinta metros. Minhas mãos estão tremendo e fica bem difícil manter o presente em minhas mãos haja vista que ele não é nem um pouco leve. Será que mamãe está presenteando a rainha com uma bola de chumbo? Não me atrevo a olhar para meu futuro marido, se já estou nervosa sem ver, imagine eu vendo. Em vez disso procuro discretamente na multidão o rosto do homem que povoou os meus sonhos durante o meu tempo de isolamento, é decepcionante, mas não o vejo em lugar algum, talvez seja apenas um soldado de patente rasa que não tem a suposta importância o suficiente para estar aqui neste momento. Para esconder minha frustração abaixo minha cabeça, não será falta de educação, apenas vão supor que eu seja tímida. Os reis e rainhas se cumprimentam e então, é minha vez. Faço minha reverência completa para o rei e para a rainha e faço meia reverência para a princesa e minha curiosidade me vence, quando vou me endireitar de minha meia reverência para o príncipe meu olhar se ergue. Sou tomada por um espanto que não consigo disfarçar, é o soldado que levou o recado do rei para meu pai. Nos encaramos por um segundo, ele parece diferente daquele dia, mais sério, seu rosto está ilegível, mas eu posso sentir que há algo lá no fundo. Sou tirada do transe pela alta exclamação da rainha ao ver o presente que eu lhe entreguei a pouco. É um lindo conjunto de jóias com pedras safiras, é realmente impressionante, o joalheiro do meu reino se superou infinitamente agora. Ele é muito bom no que faz e as outras duas rainhas, já tentaram o roubar da minha mãe, mas ela o cobre de agrados, que ele não a abandona por nada. Olho novamente para o príncipe, mas ele parece uma estátua, não coloca expressão alguma em seu rosto e também não olha em minha direção. Isso faz meu ânimo cair um pouco, pelo visto eu não lhe agrado, então minhas esperanças de um casamento com amor se esgotam por aqui. Temos uma cerimônia inicial de boas vindas, eu não aproveito nada, espero ansiosamente pelo momento em que vão me liberar e vou poder ficar sozinha, para chorar é claro. Depois de algum tempo Matilde aparece do meu lado. - Você já pode se recolher princesa, sua mãe já autorizou. - Graças à Deus. - Eu a sigo aliviada. - O que foi? Não está gostando da festa? - Não, algumas pessoas ficam me bajulando o tempo todo e outras me ignoram completamente, estava muito aborrecida. - Melhor você se acostumar, à noite você terá que participar por mais algum tempo da festa. - Eu não posso dizer que estou doente e ficar no quarto? - Está fora de si princesa? Sua mãe jamais permitiria, ela jamais deixaria que qualquer pessoa pensasse que há algo errado com você, melhor deixar essas suas ideias de lado. Você não quer passar mais um tempo com o seu noivo? - Pare com isso Matilde, você bem sabe que esse compromisso não é oficial, além do mais a julgar pela indiferença do príncipe em relação a mim... - Ele não foi educado com você? - Foi sim, no único segundo que estivemos juntos. Eu quase ponho tudo a perder, fiquei muito surpresa ao ver que ele era o mensageiro do outro dia. Abrindo a porta do quarto Matilde me diz: - Se acalme menina, não tire conclusões antes do tempo. Você está cansada e ele deve estar também, então amanhã vamos ver como tudo se passa. Agora, vá para o banho que eu preparei, não demore muito, assim você pode tirar um cochilo, antes de ir para o jantar. Tilde me ajudou a remover o vestido e o espartilho e eu entrei na banheira, a água estava morna do jeito que eu gosto. Deixei a água relaxar todos os meus músculos, que estão dolorido da viagem. Faço como Matilde disse e não me demoro muito no banho, ali e consegui remover toda a sujeira, mas não consegui tirar o Príncipe Alfonso de meus pensamentos, depois do banho me deitei e adormeci, pensando em seu rosto e em como seus olhos azuis perfuraram os meus. Fui acordada por uma certa comoção na porta, me sento na cama ainda um pouco desnorteada. Vejo minha mãe entrando pela porta. - Eu não autorizei a princesa a dormir Matilde, agora ela está atrasada para o jantar. - Mas senhora, ela estava muito cansada, talvez dormisse em cima dos pratos se não tirasse um cochilo. - Ela terá a noite toda para dormir, agora, levanta daí Stacie e vai já se arrumar. Minha mãe está tão nervosa que nem se apecebe que disse meu nome ao invés de me chamar pelo título. Fico muito comovida com isso, me levanto da cama e lhe dou um beijo na bochecha e um abraço, com muito carinho, mas muito rápidos também, para que ela não conteste e machuque meu coração. Abro imediatamente o armário, onde meus vestidos estão arrumados e escolho um de cor amarela, eu pretendia usar um verde musgo, mas meu ânimo se transformou completamente quando mamãe me chamou pelo nome. Pude ver que mesmo irritada ela no fundo tem algum carinho por mim. Ela fica muda com a minha atitude, mas ao ver a minha escolha de vestido, sorri e deixa o quarto. - Vamos Tilde, me ajude, preciso deixar meus pais orgulhosos hoje. - Eles já tem muito orgulho de tê-la como filha. Apenas sorrio e sigo vestindo minhas roupas, não é difícil colocar o espartilho, afinal eu estou magra e não é necessário que ele fique apertado. Coloca o vestido que acima de tudo, deixa seus olhos com a impressão de serem cinzas, ao invés do verde. Sua mãe sempre lhe dissera que ela deveria parecer um anjo e foi isso que Stacie viu quando se olhou no espelho. Um anjo, a cor clara de seu vestido, junto com a claridade de seu cabelo e seus olhos a deixava com uma aparência muito delicada. O cochilo a fizera muito bem, pois o roxo que estava destacado sob seus olhos logo cedo, havia desaparecido. Para finalizar a arrumação Matilde apertou suas bochechas e ela ficou com uma aparência saudável. Quando saiu no corredor, sua mãe a estava esperando, lhe deu um pouco de insegurança, mas quando a mãe a olhou dos pés à cabeça, Stacie viu em muito tempo o olhar de aprovação da mãe, aquilo a deixou imensamente feliz e esperançosa, talvez agora pudesse arrancar alguma expressão do príncipe. Ela e a mãe seguiram silenciosas numa cumplicidade sem par, parecia que essa viagem mudara sua vida.
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