A última prova

1838 Palavras
São tantos dias dentro do quarto que eu sinceramente já desisti de sair daqui algum dia, até as vindas de Matilde ao meu quarto são quase nulas. Não sei pelo que estão me punindo, mas na verdade isso não importa, não tenho escolhas e controle nenhum sobre a minha vida. O pior disso tudo é a comida, nem sei se o vestido vai me servir, pois minha mãe tem determinado milimétricamente o que eu tenho comido, isso tem me feito perder peso, já se pode notar nas roupas que eu visto. Tenho decidido encarar a minha vida de outro modo, agora não me vejo mais como simplemente a Stacie, me sinto uma daquelas princesas que ficam presas em castelos, esperando o seu príncipe vir buscá-la. Decidi por Alfonso em alta conta, não o conheço então o imagino com todas as qualidades que o homem dos meus sonhos tem. Confesso que é terrível, pois minha opinião está muito influenciada pelos romances que eu leio. Eles são tão bobos, até porque não coheço homem algum que tenha essas qualidades. A maior parte o julgo pelo meu pai, nunca o veria como um dos príncipes dos meus romances de certo ele e mamãe seriam os vilões. Mamãe entra abruptamente no quarto, eu estava descalça e debruçada sobre a janela, eu não esperava que ela fosse vir até aqui. Ela já me olha dos pés à cabeça, com um olhar de total desaprovação, esses olhares dela me matam. Corro para o puf que fica em frente a minha penteadeira e onde meus sapatos estão descansando. Se eu não ia sair daqui, não vejo necessidade de usá-los a todo momento. Ela apenas me observa, mas sei que vem bronca por aí. - É assim que você se comporta quando te damos um pouco de liberdade princesa? - Tenho vontade de rir, estou presa por um tempo que eu nem sei mais qual é e ela me diz que estou livre, mas não adianta retrucar. - Sabe muito bem que se não seguimos as regras quando não precisamos seguí-las, quando precisamos, também não conseguiremos. - Me perdoe Alteza, não vai se repetir. - Digo olhando para o chão. - Sabes muito bem que teu tempo está acabando Princesa, precisa estar pronta agora, o casamento de teus primos é daqui a três dias. Stacie se sobressalta quando a mãe diz isso, ela não fazia ideia de já se havia passado tanto tempo. - Agora, vamos para a última prova do seu vestido. Ela sai do quarto e sei que devo seguí-la, uma vida toda de obediência e ninguém tem a mínima consideração para comigo. Nós seguimos pelo corredor e mamãe nem me olha, eu revio meus olhos e parece que ela de alguma maneira sabe o que estou fazendo, porque ela para brevemente, mas depois segue seu caminho, ufa. Todo o castelo está movimentado e fico um pouco tonta com tantas pessoas circulando, depois de tantos dias presa naquele quarto, é plausível que eu reaja assim, tento disfarçar o máximo que posso, não quero mais uma repreensão de mamãe. A costureira também está bastante agitada, anda de um lado para o outro ao meu redor. Mas, o vestido que ela me dá para vestir tem uma cor diferente do que eu vesti da última vez, fico encarando o mesmo na minha frente, em meio a dúvida de vestí-lo ou de lhe apontar a diferença. No entanto, não há tempo para pensar mamãe me diz: - Vamos Princesa, o que está esperando? Não temos o dia todo. Eu me apresso para o reservado, visto rapidamente o vestido e saio dali. Fico surpresa, pois perdi bastante peso e achei que ele ficaria folgado, porém coube como se tivesse sido feito para suas medidas atuais, mas isso é explicado quando a costureira diz: - Realmente tinha razão Alteza, aquelas medidas antigas não iriam servir, fazer o vestido alguns números menores foi bastante inteligente. Stacie entendeu que a mãe estava a mantendo em regime de fome de propósito, se magoou ainda mais, porém não podia demonstrar nada. Essa foi apenas mais uma das feridas que eles lhe abriram ao coração. Quando chegou ao reservado, uma lágrima lhe caiu sobre a face, mas ela tratou logo de espantá-la, se quisesse sobreviver, percebeu que teria de ser tão fria quanto todos a sua volta, aquele momento pareceu que lhe desligou algo dentro do coração, estava nascendo alguém diferente dentro dela. Quando saíram da sala de provas a mãe a acompanhou até o quarto, chegando lá haviam algumas criadas a arrumarem as coisas de Stacie em baús de viagem. Então breve seria a sua viagem. Enfim sairia para além dos muros daquele castelo, mas aquilo não a animou, a liberdade para ela era uma ilusão, ela já havia aprendido isso, não seria mais iludida. - Vocês ainda não terminaram? - Minha mãe se dirige a elas ainda mais gélida do que ela me trata. As mulheres apenas abaixam suas cabeças e aceleram o trabalho. Matilde aparece na porta e pergunta: - Algum problema Vossa Alteza? - Essas servas ainda não terminaram de arrumar as coisas da Princesa, não posso lidar com isso Matilde. Quero Stacie com tudo pronto daqui a uma hora nas carruagens, sabe que o Rei não tolera atrasos. - Pode deixar Vossa Alteza, ela estará lá no horário certo. Olho para Tilde, não sei o que está acontecendo, ela levanta a mão e me acalma, ela sabe o quanto fico ansiosa sem saber o que está acontecendo. Respiro fundo, minha mãe ainda dá ordens e não para de falar, o que indica que ela está nervosa. Quando ela sai Matilde se apressa em me esclarecer as coisas. - Se acalme menina, toda a família real vai ir agora mesmo para o castelo de About, para o casamento dos seus primos, a viagem dura um dia inteiro, então seu pai o Rei decidiu sair imediatamente. - Mas... mas eu não estava preparada... - Vamos menina, você sempre teve vontade de ir além dessas paredes, agora você vai, porque parece exitar? Matilde me apressa a todo momento é as servas também, exatamente cinquenta minutos depois de minha mãe sair do quarto eu estou entrando na carruagem. Meus pais exigiram tanta pressa, mas ainda não estão ali. Matilde irá comigo na carruagem, enquanto meus pais irão em outra carruagem. Eu adoraria ir com eles, para passarmos esse tempo juntos, repreendo esse pensamento, a minha relação com eles era tão distante que imagino que passaríamos a viagem toda em silêncio, pelo menos com Tilde eu posso conversar. - Será que eles demoram. - Não se preocupe menina, quando eles acharem que é hora estarão aqui. Olho pela janela o castelo onde passei todos os dias desde que nasci, ele parece tão grande olhando daqui, não sei ao certo quando estarei de volta, mas no final, ainda vou sentir falta da minha rotina. Vejo o Rei e a Rainha descendo majestosos pela escada frontal, papai e mamãe passam a imagem de um reino inabalável e os servos todos em fileira e reverenciando-os enquanto passam mostra o quanto seus súditos os respeitam. Me dá um calafrio ao pensar que está bem perto do momento em que terei que assumir essa postura de rainha, mesmo sem ainda o ser, me pergunto se serei tão boa e eficiente como a minha mãe. Não há como saber, então decido viver. Em breve conhecerei meu futuro marido e um dos meus maiores medos é que ele seja tão rígido comigo como papai é com todos, então me bate uma curiosidade. - Tilde, você acha que minha mãe é feliz? - Que pergunta é essa agora menina? - Só quero saber se tenho alguma chance, mesmo me casando com alguém que eu não conheço. Ela sorri, Matilde sempre procurou me convencer a ver o lado bom das coisas espero que agora ela também tenha palavras que vão aquecer meu coração. - A sua mãe, a rainha é muito reservada, então não posso responder por ela. Mas, posso responder baseada no que te conheço. - Ela segura minha mão. - Você tem muito amor guardado aí nesse coraçãozinho, prontinho para dar. Se o Príncipe Alfonso for um bom homem, tenho certeza que o amor surgirá, mesmo que não sinta isso à primeira vista, você tem que entender que às vezes é preciso tempo. Talvez você já o ame e nem saiba. Achei essas últimas palavras de Matilde muito enigmáticas. Mas, como eu já previra, acalmaram meu coração para essa viagem. Para minha felicidade, Matilde havia contrabandeado bastante comida além do que a minha mãe havia terminantemente ordenado que era o que eu devia comer. - Tem que comer menina, o príncipe não vai gostar de ver que a futura esposa tem apenas ossos, os homens gostam de ter em que pegar. Eu rio e a provoco. - Diz isso para a Rainha minha mãe. Eu emagreci tanto que estou tendo dificuldades de me manter em minhas pernas Tilde. - Faço um certo drama, para que ela continue me dando o que comer. Nosso comboio viaja durante todo o dia e também durante a noite, normalmente, meu pai pararia em alguma base militar de um dos reinos, mas os rebeldes estão muito imprevisíveis e ousados, então ele só quer chegar o mais rápido possível. Tem muitos soldados nos acompanhando e outros tantos ficaram para proteger o castelo e a população. Matilde vai me contando muitas coisas durante a viagem, coisas que ela geralmente não me contaria, penso se há um motivo para isso, ou se ela apenas está feliz com a viagem. Ela é a minha ama desde que nasci, então se eu não fui a lugar algum, ela também não. É muito incômodo dormir dentro da carruagem, principalmente porque temos que dormir sentadas. Meu corpo reclama, pois não estou acostumada com tanta agitação. De tempos em tempos paramos para trocar os cavalos, eu só posso ver o que há lá fora pela janela da carruagem, não estou autorizada a sair, quando o dia vai nascendo já se pode avistar bem ao longe o castelo About, pelo que já posso ver ele parece ser maior que o castelo de Aberlon. Chacoalho a Matilde para que ela acorde, ela abre os olhos sobressaltada, até a mente lembrar que estamos em uma viagem. - O que foi menina, aconteceu algo? Você está bem? - Estou sim Tilde, apenas que estamos chegando, veja... - Aponto para o lado de fora da janela. - Estamos muito perto. - Venha, vou arrumar seu cabelo, está parecendo um ninho de rato. Não me oponho e nem retruco, estou ansiosa pela minha chegada, dentro de mim eu não quero admitir, mas bem lá no fundo eu tenho esperanças de ver aquele soldado que pediu informações nossas novamente. Seus profundo olhos azuis não abandonam minha mente, todas as vezes que fecho os olhos poço vê-los. Sei que não devo me enganar, pois a única pessoa que me é permitido ocupar a mente é o príncipe Alfonso, mas não posso evitar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR