Depois de lavar todo o assoalho de madeira da casa, as mãos de Aisha estavam latejantes. Desgostosa e desanimada, ela se sentou em sua cama pensativa. Só restavam dois dias para que os alunos aprovados, seguissem para a academia de Marah, o colégio da capital.
Aisha tinha certeza de que passaria no exame seletivo. Estava segura de que havia respondido todo o teste corretamente, pois depois do exame, corrigiu, criteriosamente, cada resposta com a ajuda de seus livros surrados.
Ela não entendia por que a sua carta de matricula estava demorando tanto para chegar. Vazia e triste a garota se recostou sobre a soleira da janela aberta, sentindo a brisa fraca, quente e solitária da tarde.
As vacas livres, pastavam alheias aos seus problemas. “não consegui” - Ela admitiu contrariada. Morreria naquela vila, se casaria e teria pelo menos uns três filhos e viveria para limpar a casa, alimentar os animais, fazer queijos e cuidar dos filhos – Pensou contrariada. Tudo o que a mãe fizera a vida toda. Tantas noites de estudos para alcançar seus ambiciosos sonhos e...
Nas madrugadas, Aisha sempre dormia se imaginando uma acusadora, ou uma defensora, ou quem sabe até mesmo uma julgadora. Agora fechando os olhos diante da janela ela só via a triste realidade. Uma fazenda cheia de serviços para tocar.
- Não é culpa sua – Lamentou Leda deitada na cama recém arrumada - Você não acreditou que conseguiria sair na frente dos alunos da capital, estudando com esses livros velhos, né?
- É, eu achei sim – Aisha respondeu azeda.
- Esses livros além de velhos, possuem várias folhas faltando. De verdade, não é culpa sua – Leda se levantando abraçou a irmã, tentando consolá-la – Nem tudo está perdido, pode conhecer um rapaz da capital e se casar com ele.
- Enquanto vendo queijos na feira? – Aisha debochou - Você não entende Leda. Não posso ser feliz aqui. Não é que eu não goste da fazenda. Gosto de tudo e gosto de todos, mas meu sonho é estudar, é trabalhar no departamento de justiça.
- Você sonha muito alto, irmã! – Leda lamentou.
- Já imaginou se eu me torno uma defensora? Ou uma acusadora - Os olhos de Aisha brilharam – Já se imaginou participando de um jantar com elfos? Viajar pelo mundo conhecendo outros reinos? Ser respeitada?
- Isso seria sem dúvida maravilhoso. Poder se casar com quem escolher e não viver rezando para ser escolhida – Leda disse se empurrando contra a soleira da janela - Se você tivesse uma oportunidade, teria coragem de passear nas nuvens com um elfo?
- Namorar um elfo? Ou Voar como um elfo, ou voar em um dragão? – Aisha olhou para a irmã tentando entender a pergunta.
- Namorar, beijar, voar – Leda sorriu com seus olhos visivelmente submersos em sonhos.
- Tudo isso está tão longe do nosso alcance que nem parece que vivemos no mesmo mundo que eles.
- Eles são perfeitos. Gostaria de pelo menos poder vê-los com mais frequência na cidade, mas papai e mamãe só se preocupam com os queijos e o leite – Leda reclamou.
- O que vocês estão aprontando? – Lia, a irmã mais nova, perguntou curiosa, disputando um lugar na janela, para tentar enxergar o que parecia atrair a atenção das duas irmãs mais velhas.
- Estamos sonhando sua abelhuda – Leda chiou.
- Com o que? – Ela perguntou animada e ansiosa.
- Sonhando com os elfos – Aisha sorriu dispersa, como se não estivesse a beira das lágrimas minutos antes.
- Não gosto de elfos, eles só se casam com as ninfas, prefiro guardar meu coração para um comum que me dê o devido valor – Lia disse empinando o nariz, como se fosse a mais velha das três, apesar de seus quinze anos.
- É mesmo? Vou já contar essa história para o papai – Leda ameaçou.
- Ele não vai acreditar em você.
- Isso é o que nós vamos ver – Leda correu para a porta, a passos largos.
- Me salva, Aisha! – Lia puxou a irmã às pressas e as três desceram as escadas em uma correria desordenada.
O sr. Leitão e seu cunhado, o sr. Castro, estavam conversando com o mensageiro, que havia acabado de chegar com a noticia de que tinha uma carta direcionada à família.
- Minha carta! – Aisha pulou na bolsa do mensageiro e lhe tomou todos os envelopes num entusiasmo desfreado e sem qualquer gentileza.
O vilarejo de Fugeo, era um povoado que ficava próximo a cidade de Lapur, a capital dos comuns, sua população era composta apenas por camponeses e poucos artesãos. Tudo o que acontecia em Fugeo era de conhecimento geral, por isso, a notícia de que Aisha havia recebido uma correspondência da academia de Marah, já tinha se espalhado antes mesmo que ela recebesse a carta.
Os pais de Aisha, a princípio, em vão tentaram convencer a filha a repensar, a desistir da ideia absurda, de viver sozinha longe de tudo e de todos. Apesar de receberem muitas felicitações, os pais da garota se sentiam mais seguros quando as três filhas estavam em casa, repousando sob a segurança do mesmo teto. Para eles, ter uma filha na capital era uma situação difícil de aceitar, mas mais difícil era convencer a garota a desistir.
Frank, o pai de Aisha, sabia que mesmo que ele amarrasse a filha no pé da cama, ela ainda sim daria um jeito de ir. Aisha era impossível quando colocava uma coisa na cabeça.
No dia seguinte, o g**o cantou atrasado para Aisha, que já revirava suas coisas, tentando não esquecer nada de importante para trás, enquanto suas irmãs ainda dormiam. O coração da garota martelava enfurecido, ela subia e descia as escadas fazendo a madeira do piso chorar, acordando até a mais preguiçosa das irmãs, Leda, que levantou reclamando e praguejando por causa do barulho.
- Já estamos atrasados papai – Aisha reclamou aflita com a mala nas mãos.
- Se acalme, o colégio não vai mudar de lugar – Leda reclamou com os olhos cheios de lágrimas.
- Não vou deixar você sair sem comer – Sua mãe ameaçou com o nariz fungando. Frank apesar de ter desistido de impedir a filha, estava sério e arredio. A única pessoa animada com a decisão de Aisha era Lia e ela mesma. Todos choraram ao se despedirem, menos Aisha que estava alerta e ansiosa demais pra isso. Em seu coração não havia nenhum resquício de dúvida do que ela queria, seu maior sonho se realizara, ela estava tendo uma chance, uma chance que ela aproveitaria cada minuto. Seu coração era apenas ansiedade e alegria.
As ruas de Lapur estavam como sempre muito movimentadas, Aisha e o pai foram na carroça que estava carregada com baldes de leite e queijos, que entregariam nas quitandas. Com sua malinha entre as pernas, ela desfilava na carroça como se fosse uma princesa. Apressada, ajudou o pai a descer os queijos e o leite, suspirando ao perceber que mais nada a impediria de chegar ao colégio.
- Fui classificada para estudar no departamento de justiça da academia de Marah – Ela entregou a carta a recepcionista do colégio. A moça olhando o papel, pareceu confusa.
- O que foi?
- Esse papel não é uma permissão para estudar nesse colégio.
- Como assim, se aí diz que eu fui aprovada? – A garota perguntou com o coração acelerado, o medo de algo dar errado embargando sua voz.
- Espere um momento, vou falar com o secretário – A garota sumiu com a carta de permissão de Aisha.
- O que aconteceu? – Frank ficou preocupado ao perceber a aflição da filha.
- Ela está dizendo que a minha permissão não é para essa faculdade – Aisha explicou ao pai, tentando manter a voz firme.
- O senhor secretario pediu para que aguardem por um momento. Ele logo irá atendê-los.
Aisha suspirou fundo, mesmo que não fosse para aquela academia, ela tinha um papel de permissão para estudar. Ela ficaria triste de ter que estudar em um colégio menor e menos prestigiado, mas o importante era estudar.
Quase uma hora depois, o secretario os chamou, os conduzindo direto para sua sala, que ficava localizada ainda nos repartimentos externos da academia. Entrando na sala do diretor, Aisha e o pai se sentaram nas poltronas macias. Adiantada a garota logo explicou detalhadamente o que estava acontecendo. Antes que o secretario, um homem do reino dos comuns, pudesse explicar algo, um elfo vestido em roupas militares, entrou no escritório. Tanto Aisha, como o pai, imediatamente se levantaram e se curvaram diante do elfo, em sinal de respeito.
- Suponho que você seja a srta. Aisha Leitão? – O general de semblante fechado, a avaliou de forma criteriosa.
- E o senhor, o pai dela? – O elfo também avaliou Frank com seu olhar firme e pediu que os dois se sentassem.
- Pedi que o secretario Kim me chamasse assim que vocês chegassem – O elfo disse olhando para o secretário, que demorou mais que o necessário para sair da sala, se desculpando ao perceber que o assunto era confidencial.
O general se sentou, ficando diante deles, com suas asas sobrepostas no encosto da poltrona, em uma elegância que só os elfos tinham.
- Sou o general Azgart Bélim, da sétima ordem – Ele finalmente se apresentou – Sua filha tirou a nota mais alta do exame, por isso a selecionamos para uma missão especial.
- Missão? – O pai de Aisha franziu o cenho confuso.
- Sim. Acredito que o senhor tenha acompanhado as notícias. Tivemos a perda de um soldado elfo, no colégio de Tunnel.
- Ouvimos falar – Frank assentiu, afinal era só sobre isso que Aisha falava em casa.
- Não acreditamos na inocência do acusado e nos preocupamos com o que possa estar acontecendo dentro do colégio, então precisamos de alguém la dentro, alguém que possa nos manter informados de qualquer tipo de conspiração.
- Como assim? – Agora foi Aisha quem perguntou – Querem que eu vá para o Colégio de Tunnel e aproveite para vigiar os bruxos, nos meus momentos livres?
- Na verdade, você irá entrar como uma estudante bruxa, os bruxos só confiam em bruxos.
- Não sou uma bruxa - Aisha respondeu ofendida.
- Sabemos disso garota, mas para os comuns é muito fácil se passar por um bruxo, afinal os bruxos viveram escondidos entre os comuns no passado.
- Não acho que isso seja seguro – Frank protestou – Também não quero minha filha envolvida com bruxos e tão pouco morando nesse colégio que não sabemos nem onde fica.
- Não quero proximidade com bruxos – Aisha concordou prontamente com o pai.
- Sr. Leitão e srta. Leitão , infelizmente não estou lhes fazendo um pedido – O general entregou um papel a Frank, que quando o abriu, Aisha sentiu o queixo adormecer ao ver o carimbo real – Como podem ver, é uma ordem do Rei supremo.
Por um longo momento, Aisha ficou sem voz, tentando digerir o que estava acontecendo, enquanto seu pai tentava argumentar com o general, procurando uma forma de livrar a filha daquela situação embaraçosa e descabida.
- Por quanto tempo terei que estudar com os bruxos? – Ela perguntou por fim, tentando organizar seus sonhos que se espalharam diante de seus olhos.
- Tudo depende do tempo que levar para descobrir a verdade.
- Se eles descobrirem que ela não é uma bruxa, o senhor sabe o que eles farão com ela? – Frank perguntou tentando controlar a voz diante do oficial.
- Sua filha tirou a maior nota da escola, ela possui um grau de inteligência elevado. No começo ela poderá alegar nunca ter usado magia, alegar bloqueio psicológico. Ela não estará sozinha, estaremos a orientando – O oficial tentou acalmar o pai desesperado diante dele – Caso percebamos que ela corre perigo, a tiraremos de lá imediatamente.
- Igual fizeram com o garoto morto? – Frank perguntou furioso.
- Senhor Leitão, não abuse da minha paciência. A ordem do Rei está aí, agora cabe a sua filha cumpri-la – O general empurrou o papel para Frank novamente – Não preciso dizer que essa situação é um segredo real. Ninguém tem permissão para saber, nem mesmo sua esposa – O general se levantou – Quando estiver pronta senhorita, estarei aguardando do lado de fora, irei acompanha-la durante a viagem até Tunnel.