Capítulo III - O REI ELFO

1633 Palavras
O uniforme preto com detalhes roxos deixaram Aisha com um aspecto sombrio. As bochechas pálidas, ressaltando suas olheiras que adquirira na noite anterior. O calor a fez tirar a capa preta e prender os cabelos castanhos em um coque com a ajuda de um grampo, a deixando ainda mais com cara de doente. “Que uniforme horroroso” - Pensou insatisfeita “Estou realmente com uma aparência de bruxa?” - Se perguntou duvidosa. - Você me confundiu srta. Leitão, achei que fosse uma comum! – O secretário admitiu sorrindo confuso. - Eu pareço uma comum? – Aisha o encarou séria, se perguntando se conseguiria passar por uma bruxa, pelo menos na aparência. - Não. Claro que não – Ele sorriu amarelo e saiu caminhando a passos largos, como se Aisha fosse transformá-lo em um sapo. - Pronto. Aqui estão seus amigos, se apresse pois a caravana saíra daqui a duas horas. A avenida L estava repleta de carruagens, com alunos vestidos em uniformes da academia de Tunnel, todos inquietos andando de um lado para outro na avenida, que estava bloqueada dos dois lados, impedindo qualquer fluxo de pessoas que não estivessem de uniforme. Aisha caminhou em direção as primeiras carruagens que estavam cercadas por alunos de uniformes pretos e detalhes verdes, os comuns. Ela os olhou com olhos cobiçosos, se imaginando entre eles. Alheios os alunos comuns sorriam e conversavam entre si. A passos lentos, ela continuou andando e alunos de peles enrugadas e secas, como cascas de arvores velhas, cabelos coloridos e olhos que lembravam os olhos de lagartos, passeavam de uniformes pretos com detalhes laranjas, ocupando as próximas carruagens. Eles eram Fadas. Alunos que estudavam a natureza, responsáveis pelo equilíbrio ambiental. Muitos fadas passavam com vasos de plantas, pedras e areia, alheios em suas peculiaridades. Uma fada exibia uma planta de folhas azuis para um garoto comum, que parecia maravilhado. Aisha tropeçou sobre uma garota que surgiu de uma fumaça escura. Ela era uma sangue- n***o. Os sangues-negros eram idênticos aos comuns, se diferenciando apenas na cor do sangue. Algumas carruagens estavam completamente envoltas por uma fumaça escura e densa, não permitindo que os alunos fossem vistos, mesmo com Aisha estreitando os olhos para vê-los. A escuridão que estava envolta das carruagens se expandiu pelo caminho que Aisha passava, ela sabia que os sangues negros controlavam a escuridão, mas nunca tinha visto nenhuma manifestação de seus poderes antes. Envolta naquela névoa escura, Aisha foi ficando cada vez mais cega e dar um passo à frente se tornou algo assustador. Então ela parou sem saber se retornava ou seguia adiante. - Não me obriguem a castiga-los, antes mesmo de chegarmos no colégio – A voz de um homem, provavelmente um professor, ameaçou e aos poucos a escuridão foi se desfazendo. Os sangues-negros usavam uniformes pretos com detalhes cinza. Até onde Aisha sabia, eles estudavam a vida depois da morte ou algo do gênero. Apressando-se, ela se distanciou deles, seguindo em frente. Em sua percepção, os sangues-negros eram tão assustadores quanto os bruxos. No vilarejo de Fugeo só viviam comuns e a cidade de Lapur era a capital dos comuns, Aisha já havia visto centauros e elfos quando tinha eventos festivos nas ruas, mas nunca vira pessoalmente ninfas e alfeus, ou sangues-negros, ou bruxos, ou fadas. Parando por um momento, ela não conseguia parar de olhar para as ninfas que estavam sentadas em suas carruagens encantadas. Até os cavalos das ninfas e alfeus eram brancos com uma aura de encantamento. Uma garota ninfa de cabelos cor lilás e olhos da cor de rosa lhe acenou com a mão, de um jeito delicado, lhe oferecendo um sorriso gentil. Aisha respondeu ao cumprimento com um sorriso frouxo. “Agora eu entendo porque os elfos preferem as ninfas, elas são magicamente lindas” – Pensou a garota. Os uniformes das ninfas e alfeus eram pretos com detalhes cor de rosa. Logo em seguida Aisha sentiu o coração congelar, a sua frente vários bruxos estavam parados, conversando próximos a suas respectivas carruagens. A medida que ela andava, eles a encaravam com semblantes fechados e sombrios. Nenhum deles estava sorrindo. Se portavam de forma hostil e fria. Aquele tipo de comportamento era o que Aisha esperava dos bruxos, mas ao perceber que não estava enganada em relação ao que esperava, sentiu a garganta ficar seca e áspera. Com olhos atentos, como os de uma águia, Aisha olhava para dentro de cada carruagem vendo se estavam ocupadas, em todas haviam uma ou duas pessoas sentadas. Diferente dos outros estudantes, os bruxos falavam muito baixo. Ela só conseguia perceber que eles conversavam entre si, porque via que movimentavam os lábios discretamente. A forma que eles olhavam uns para os outros, como a olhavam, dava a impressão de que todos estavam fazendo coisas suspeitas. Assim como pediu o general Bélim, ela se dirigiu para a última carruagem, que permanecia vazia e sentiu um grande alivio no peito por isso. Ela entregou a mala ao cocheiro e permaneceu parada observando o movimento. A sua frente, garotos elfos entravam e saiam de suas carruagens, todos em uniformes pretos, com detalhes dourados e suas asas expostas. Aisha franziu o cenho, se perguntando como eles faziam para manterem suas lindas asas tão bem cuidadas. Um rapaz elfo alto, de porte atlético, a encarou com olhos severos. Ela também o encarou, tentando entender porque ele a estava olhando daquela forma tão hostil. - Algum problema? – O elfo perguntou ao ficar diante dela, com seus olhos amarelos dourados, não humanos, a encarando de forma desafiadora. - Eu não sei – Ela respondeu segurando o olhar, como se ambos estivessem em uma disputa de poder. Aisha achava os elfos lindos e sempre sonhara em uma oportunidade de conversar com um deles, mas a forma como o rapaz a encarou, fez seus pelos se encresparem de irritação e desconforto, afinal ela estava apenas olhando pra eles, qual o problema nisso? Enquanto ela encarava o elfo, com a mesma autoridade que ele a encarava, outros três elfos se aproximaram, foi quando ela desviou o olhar para ver os outros rapazes. - Acho melhor você entrar em sua carruagem bruxa – Um dos elfos, com semblante sério e ao mesmo tempo bonito, disse ficando ao lado do rapaz que tentava a intimidar. - Vou entrar assim que achar que devo – Ela respondeu tentando não demonstrar qualquer vestígio de medo. - Talician, vamos entrar – O elfo, de asas marrom, o chamou com voz ponderada. - Só depois que ela sair da minha frente – O rapaz deu um sorriso diabólico e Aisha sentiu o estômago revirar. Aisha sempre associara os elfos a imagens de anjos e agora o elfo que estava a sua frente mais parecia o próprio d***o. Sem dar qualquer margem para mais conversas, ela deu as costas a Talician, na intensão de se retirar dali o quanto antes, mas ao se virar, bateu de frente com três garotos bruxos, que agora, encaravam os elfos ameaçadoramente. Sem se desculpar, ela se desviou e entrou em sua carruagem. “Melhor não arrumar confusão” – Pensou, tentando esquecer o olhar endiabrado do elfo. Pela janela, ela voltou a observar o movimento da rua, repleta de estudantes, todos ansiosos e felizes, cercados de amigos. Todos usavam os mesmos uniformes pretos, se diferenciando apenas com os detalhes, mas havia alguma coisa sombria nos bruxos. A forma como olhavam uns para os outros, os cochichos, os sorrisos abafados e traiçoeiros... - Todos em suas carruagens agora - Aisha ouviu a ordem do soldado centauro, vindo do lado de fora da carruagem, em um tom severo e autoritária. Logo em seguida, mais soldados centauros se aproximaram, então três rapazes entraram na carruagem em que ela estava. Aisha virou o rosto para a janela, para fingir que não estava vendo ninguém entrar. Os três bruxos entraram em silencio. Nenhum deles a cumprimentou. Talvez porque ela ter sido a primeira a virar o rosto, talvez porque eles não a cumprimentariam mesmo. Apesar de o silencio ter se mantido intocado por longos minutos, Aisha se sentiu sufocada. Parecia não haver oxigênio suficiente para tantas pessoas dentro da mesma carruagem. Discretamente, ela olhou para o piso da cabine, haviam três pares de pés como ela imaginava, dois a sua frente e um ao seu lado. Em uma passada rápida de olhos, ela percebeu que nenhum deles estava olhando em sua direção. O rapaz a sua frente estava recostado no banco com os olhos fechados, como se estivesse descansando. Os olhos estavam cobertos por um lenço preto, deixando claro que não queria ser perturbado. De relance, ela olhou para os outros e percebeu que todos tinham o mesmo porte físico, ombros largos, queixos quadrados e pernas compridas. O rapaz sentado, ao lado do que dormia, tinha o olhar fixo na janela oposta a que ela estava sentada. Ele tinha os cabelos curtos volumosos e lisos, em um tom cobre, a pele mais bronzeada e parecia ser muito bonito, apesar dela não ter conseguido ver a cor dos olhos dele. O garoto ao seu lado, também estava recostado no assento, com o antebraço esquerdo sobre os olhos, os protegendo da luz ensolarada de Lapur. A camisa branca tinha alguns botões abertos, exibindo uma serpente pintada no pescoço, com as presas ferozmente expostas. Aisha engoliu em seco, aquela marca era assustadoramente sinistra. Atentamente, ela observou que ele tinha outra pintura escura no antebraço esquerdo, mas não tinha ideia do que o desenho se tratava. O rapaz tinha os cabelos pretos, lisos e cortados de uma forma rebelde e assimétrica. A boca carnuda e perfeita se destacava em seu queixo quadrado. Aisha voltou a olhar pela janela. Os três rapazes eram muito bonitos, diferente dos outros bruxos do lado de fora da carruagem, que eram mirrados, magros e pálidos.
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