Ele vem

898 Palavras
Sofia não esperou mais. O corredor parecia fechar em volta dela, o ar pesado demais pra respirar. Ela desviou do homem rápido, quase correndo, empurrando a porta lateral do baile e saindo pra rua iluminada só por postes fracos. O som da música ficou pra trás. O coração batia tão forte que doía. — Calma… é só ir embora — murmurou, andando rápido, abraçando a bolsa contra o corpo. Ela não quis ligar. Não quis chamar atenção. Só queria chegar em casa. Mas ouviu passos atrás dela. — Ei, espera aí — a voz dele veio arrastada. Ela acelerou. — Para — ele chamou de novo, mais perto agora. Quando sentiu a mão segurar seu braço, o medo virou pânico. — Me solta! — Sofia puxou o braço com força. — Qual foi? — ele riu. — Vai fugir agora? Ela tentou se soltar, o corpo tremendo. — Eu falei não — disse, a voz quase falhando. Antes que ele respondesse, alguém apareceu do outro lado da rua. — Deixa ela. Era um dos homens de Gabriel. Ele não gritava. Não ameaçava. Mas o olhar dizia tudo. O cara soltou o braço dela, irritado. — Tá achando que manda aqui? — Tô mandando agora — o homem respondeu, já com o celular na mão. Sofia se afastou rápido, respirando m*l, as pernas fracas. Ela ouviu quando ele se virou um pouco e falou baixo ao telefone: — Chefe… deu r**m. Do outro lado da cidade, Gabriel atendeu na primeira chamada. — Fala. — Um cara passou do limite com a Sofia. Tentou segurar ela. Ela tá tentando ir embora sozinha. O silêncio do outro lado foi curto. Pesado. — Onde ela tá? — Saindo do baile. A pé. Gabriel desligou sem dizer mais nada. Em menos de um minuto, ele já estava na garagem. Pegou a moto como quem pega uma arma. O motor rugiu alto quando ele arrancou, descendo o morro como um míssil, o vento batendo forte no rosto, a raiva queimando por dentro. — Eu falei pra ninguém tocar nela — rosnou, acelerando mais. Na rua, Sofia andava rápido, olhando pra trás o tempo todo, sentindo o coração disparar a cada barulho. Até ouvir o som que conhecia melhor do que qualquer música. A moto. Ela virou o rosto a tempo de ver o farol se aproximando rápido demais. Gabriel freou forte, a moto parando ao lado dela. — Sobe — ele ordenou, a voz dura. — Gabriel… — ela começou. — Agora. Não era grito. Era pior. Ela subiu tremendo, se segurando nele com força quando a moto arrancou de novo. Gabriel não olhou pra trás. Mas por dentro, algo tinha quebrado. Porque aquilo não era mais só ciúme. Não era só controle. Era guerra. E alguém tinha acabado de escolher o lado errado. A moto subiu o morro rápido demais. Sofia se segurava nele com força, o rosto escondido nas costas largas, o corpo ainda tremendo. O vento secava as lágrimas, mas não acalmava o coração. Quando chegaram em casa, Gabriel desligou a moto com violência. — Desce — ele disse, curto. Ela obedeceu em silêncio. Assim que a porta se fechou atrás deles, ele explodiu. — Que p***a você tinha na cabeça, Sofia?! Ela se encolheu no lugar, os olhos marejados. — Eu tentei resolver sozinha… — a voz saiu fraca, quebrada. — Resolver sozinha?! — ele passou a mão pelos cabelos, andando de um lado pro outro. — Cadê as meninas, c*****o?! Cadê elas?! Ela respirou fundo, chorando. — Elas tavam com alguns meninos lá… depois eu não vi mais, eu juro. — limpou o rosto com as mãos. — Ele tentou me tocar. Eu fui pro banheiro. Quando eu saí, ele falou que eu tinha fugido… eu disse que não, que eu não queria… e fui embora. O silêncio caiu pesado por um segundo. Então ele virou pra ela com os olhos em chamas. — Você tem noção, c*****o, do que poderia ter acontecido?! Sofia começou a chorar de vez. — Não grita… — pediu, a voz tremendo. — Por favor, não grita comigo. Ele bateu a mão na parede. — Eu grito sim! — a voz ecoou pela casa. — Porque você não pode fazer isso! Não pode sair sozinha, não pode confiar assim! Ela levantou o rosto, as lágrimas escorrendo sem controle. — Talvez o problema seja esse… — disse, quase sussurrando. — Talvez eu só precise deixar de ser tapada. De ser menininha. Ele travou. — Que p***a você tá falando? — É por isso que essas coisas acontecem comigo — ela continuou, o choro vindo com raiva agora. — Se eu fosse mais esperta… mais malandra… sei lá, como essas mulheres do morro… eu ia saber resolver essas coisas. Mas eu não sou! A voz dela falhou. — Eu sou só uma garotinha indefesa… e eu odeio isso. Gabriel parou de andar. A fúria começou a rachar por dentro, dando lugar a algo pior. Culpa. Ele se aproximou devagar, mas não tocou nela. — Você não é fraca — disse mais baixo. — E isso não aconteceu porque você é inocente. Ela balançou a cabeça, chorando. — Então por que sempre acontece comigo? Ele não respondeu. Porque no fundo… ele sabia. Aquele mundo era sujo demais para alguém como ela. E ele, que mandava em tudo ali… não conseguia protegê-la de tudo. Principalmente de si mesmo.
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