menina no meio do perigo

776 Palavras
A música batia forte no peito. O baile estava cheio, luzes coloridas cortando a fumaça, corpos se movendo juntos, risadas altas. Sofia entrou com as meninas como quem pertencia àquele lugar — leve, solta, viva. Ela dançava. Não era provocação. Era alegria. O corpo dela se movia no ritmo como se a música morasse dentro dela desde sempre. O sorriso aparecia fácil, os olhos brilhavam. As amigas riam, rodavam, levantavam os copos. — Hoje a gente vai beber tudo! — uma delas gritou. Não demorou para os olhares aparecerem. Primeiro de longe. Depois mais perto. Alguns meninos se aproximaram, respeitosos demais para quem sabia quem ela era… mas ousados o suficiente para tentar. — Posso pagar uma bebida pra vocês? — um deles perguntou, já estendendo os copos. As amigas aceitaram na hora, rindo, agradecendo. Sofia hesitou um segundo… depois sorriu. — Obrigada. Ela segurou o copo, mas bebia devagar. Sempre assim. Observando. Sentindo. Diferente das outras. Ela dançava com elas, rodava o cabelo, ria alto… mas mantinha uma distância invisível. Não deixava mãos na cintura. Não deixava aproximação demais. Entre as amigas, Sofia ainda era menina-moça. Inocente de um jeito que ninguém ali imaginava. Ela nunca falava disso. Nunca deixava transparecer. O mundo achava que ela era livre demais, experiente demais, ousada demais. Mas a verdade ficava escondida atrás do sorriso e da dança. Ela gostava da festa. Gostava da música. Gostava de se sentir viva. Mas não sabia lidar com segundas intenções. Um dos meninos tentou puxá-la mais perto. Sofia riu, escapou com delicadeza, voltando para o meio das amigas. — Calma aí — disse leve. — Só tô dançando. Ele levantou as mãos, respeitando. — Tranquilo, linda. Ela voltou a sorrir, o coração acelerado, sem saber explicar por quê aquela sensação estranha sempre aparecia quando alguém chegava perto demais. Talvez fosse costume. Talvez fosse medo. Ou talvez fosse a sombra constante de Gabriel na vida dela, mesmo quando ele não estava ali. Do outro lado do morro, ele sentia. Não sabia como. Mas sentia. Enquanto Sofia dançava sem maldade nenhuma, sem perceber os olhares mais perigosos, o destino começava a se mover. Porque naquela festa, nem todos viam uma menina sorridente. Alguns viam desafio. Outros, oportunidade. E quando alguém confunde inocência com fraqueza… o inferno costuma responder rápido. A música continuava alta quando ele se aproximou de novo. — Manda um beijo — o cara disse, rindo, já meio bêbado. Sofia hesitou só um segundo. Ela não queria ser grossa. Não queria chamar atenção. Não queria confusão. Sorriu. — Tá… um beijo. Mandou um beijo no ar e, num impulso inocente, deu um beijo rápido no rosto dele. Nada demais. Nada m*l-intencionado. Depois virou, voltou pra dança, se juntou às amigas outra vez. Mas ele não entendeu daquele jeito. Pouco tempo depois, sentiu uma mão firme demais na cintura. Ela virou rápido. Era ele. — Ei… — Sofia falou, tentando manter o tom leve. — Vem cá, dança mais pertinho de mim, tá? Ela respirou fundo. Pensou em sair. Pensou em chamar as meninas. Mas ficou. Só por alguns segundos. Ele chegou mais perto, o corpo colando demais, a mão descendo onde não devia. O sorriso dele já não era amigável. — Ei… não. Assim não — ela disse, afastando a mão dele. Ele riu. — Ah, gatinha, que isso… para com isso. O riso fez o estômago dela gelar. Sofia se soltou rápido, o coração disparado. — Não — repetiu, mais firme. — Não faz isso. Sem esperar resposta, saiu dali quase correndo, passando entre as pessoas, sentindo o corpo tremendo. O banheiro parecia um refúgio. Ela entrou, trancou a porta, respirou fundo várias vezes, apoiando as mãos na pia. O sorriso tinha sumido. O brilho também. — Calma… — sussurrou pra si mesma. — Já passou. Molhou o rosto, ajeitou o cabelo, tentou parecer normal outra vez. Quando saiu do banheiro… Ele estava lá. Encostado na parede, esperando. O sorriso sumiu do rosto dele quando viu o susto nos olhos dela. — Você fugiu — ele disse, dando um passo à frente. O coração de Sofia disparou. — Eu… eu só fui ao banheiro. — Não precisa correr — ele respondeu, se aproximando mais. — A gente tava se divertindo. Ela deu um passo pra trás. — Eu falei que não — a voz saiu baixa, trêmula. — Me deixa passar. O corredor parecia estreito demais. O som da música vinha distante agora, abafado pelo medo. E, naquele instante, Sofia entendeu algo que nunca tinha sentido antes naquele lugar. Ela não estava segura. E em algum ponto do morro, como se o destino tivesse puxado um fio invisível… Gabriel ia sentir.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR