A noite estava silenciosa demais.
Sofia não conseguia dormir.
Levantou devagar e foi até a cozinha pegar água. Estava de moletom largo, cabelo preso de qualquer jeito, o rosto ainda marcado pelo choro dos últimos dias.
Gabriel estava sentado à mesa, no escuro, com um copo de café frio à frente. Parecia cansado. Tenso. Pensativo.
— Você ainda tá acordado? — ela perguntou baixo.
Ele levantou o olhar devagar.
— Tô.
O silêncio entre eles pesou.
Sofia se aproximou do filtro de água, mas as mãos tremiam. Derramou um pouco no chão.
— Droga… — murmurou.
Gabriel se levantou na hora.
— Deixa — disse, pegando o pano. — Você tá nervosa.
Ela respirou fundo.
— Eu tô confusa.
Ele parou.
— Com o quê?
Ela hesitou, apertando o copo entre os dedos.
— Com tudo.
Gabriel ficou muito perto sem perceber. Perto demais. O cheiro dele, a presença forte, o jeito como ocupava o espaço.
Sofia sentiu algo estranho no peito.
Não era medo.
Não era conforto também.
Era outra coisa.
— Você não precisa se cobrar tanto — ele falou, mais baixo. — Você passou por muita coisa.
— Eu sei… — ela respondeu, mas não se afastou.
O olhar deles se prendeu por tempo demais.
Gabriel percebeu primeiro.
Deu um passo atrás, tenso.
— Você devia voltar pro quarto.
— Gabriel… — ela chamou, sem saber por quê.
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Não faz isso.
— Fazer o quê? — ela perguntou, confusa.
Ele abriu os olhos, o olhar carregado.
— Me olhar desse jeito.
Sofia sentiu o rosto queimar.
— Eu não tô fazendo nada…
— Tá sim — ele respondeu, a voz rouca. — E você não percebe.
Ela engoliu seco.
— Eu só… — parou. — Eu comecei a te ver diferente.
O ar ficou pesado.
Gabriel passou a mão pelo rosto, claramente lutando consigo mesmo.
— Sofia… você tá machucada. Confundindo as coisas.
— Talvez… — ela disse. — Ou talvez eu só esteja crescendo.
A frase atingiu ele em cheio.
Ele deu mais um passo pra trás.
— Isso não pode acontecer.
— Eu não disse que ia — ela respondeu rápido. — Eu nem sei o que eu sinto.
Mas o corpo dela dizia algo que a cabeça ainda não entendia.
O coração acelerado.
A respiração curta.
A forma como os olhos procuravam os dele sem querer.
Gabriel virou de costas.
— Vai dormir — falou firme. — Antes que a gente passe de um limite que não tem volta.
Sofia ficou ali, parada, sentindo o coração bater forte demais.
— Boa noite… — disse, quase num sussurro.
— Boa noite — ele respondeu, sem olhar.
Ela voltou pro quarto com a sensação estranha de que algo tinha mudado.
E Gabriel ficou sozinho na cozinha, apoiado na pia, respirando fundo.
Porque pela primeira vez…
Ele não via mais a menina que precisava proteger.
Via a mulher que ele não podia desejar.
E isso o assustava mais do que qualquer guerra no morro.
Aquela noite não acabou quando Sofia fechou a porta do quarto.
Ela deitou, virou de um lado pro outro, puxou o lençol até o queixo… e nada do sono vir.
A imagem de Gabriel na cozinha voltava inteira.
O olhar pesado.
A voz baixa.
A tensão no ar.
— Para com isso… — sussurrou pra si mesma.
Mas o corpo não obedecia.
Quando finalmente dormiu, o sonho veio confuso.
Ela estava num baile vazio. A música tocava longe. As luzes piscavam fracas. Sofia dançava sozinha… até sentir mãos firmes na cintura.
Virou assustada.
Era Gabriel.
Não com o rosto duro de sempre.
Mas com um olhar diferente. Mais intenso. Mais quente.
— Você não devia estar aqui sozinha — ele dizia no sonho.
— Eu não tô sozinha… — ela respondia.
A proximidade era sufocante. O coração disparava. Ela queria se afastar… mas não conseguia.
Acordou ofegante.
O quarto escuro. O silêncio pesado.
Sofia sentou na cama, abraçando os joelhos.
— Que coisa doida… — murmurou, com o rosto queimando de vergonha.
Culpa.
Uma culpa estranha, confusa.
— Ele é minha família… — repetiu. — Ele sempre foi.
Mas o coração não se acalmava.
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Na outra ponta da casa, Gabriel também não dormia.
Estava sentado na beira da cama, cotovelos apoiados nos joelhos, encarando o nada.
A lembrança do olhar dela não saía da cabeça.
O jeito como ela disse “eu comecei a te ver diferente”.
— Merda… — rosnou baixo.
Passou a mão pelos cabelos, nervoso.
Ele tentou se convencer.
Ela tá fragilizada.
Ela tá confusa.
Isso é só carência.
Mas o corpo dele reagia antes da razão.
O cheiro dela ainda parecia grudado no ar.
A imagem dela tão perto… perto demais.
Quando fechou os olhos, o sonho veio.
Sofia rindo.
Sofia dançando.
Sofia olhando pra ele sem medo.
No sonho, ele segurava o rosto dela… e antes que qualquer coisa acontecesse, acordou brusco, respirando pesado.
Levantou da cama num pulo.
— Não… — disse firme, como se alguém pudesse ouvir. — Isso não.
Andou pela casa no escuro, inquieto.
Culpa queimava no peito.
— Eu prometi proteger — murmurou. — Não desejar.
Ele se apoiou na parede, fechando os olhos.
Mas a verdade era c***l demais pra ignorar.
O ciúme já não era só proteção.
O controle já não era só cuidado.
E a raiva que sentia quando alguém se aproximava dela…
Não era mais só medo de perdê-la.
Era medo de si mesmo.
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No dia seguinte, os dois se cruzaram no corredor.
Um olhar rápido.
Um silêncio longo demais.
— Bom dia — Sofia disse, sem encarar.
— Bom dia — Gabriel respondeu, rígido.
Nenhum dos dois falou do que sonhou.
Nenhum dos dois falou do que sentiu.
Mas os pensamentos gritavam.
Ela, tentando entender por que o coração batia diferente perto dele.
Ele, tentando sufocar algo que já tinha criado raízes.
E ambos sabiam, mesmo sem admitir:
Depois daquela noite,
não era mais possível fingir que nada estava acontecendo.