eu to te vendo diferente

1004 Palavras
A noite estava silenciosa demais. Sofia não conseguia dormir. Levantou devagar e foi até a cozinha pegar água. Estava de moletom largo, cabelo preso de qualquer jeito, o rosto ainda marcado pelo choro dos últimos dias. Gabriel estava sentado à mesa, no escuro, com um copo de café frio à frente. Parecia cansado. Tenso. Pensativo. — Você ainda tá acordado? — ela perguntou baixo. Ele levantou o olhar devagar. — Tô. O silêncio entre eles pesou. Sofia se aproximou do filtro de água, mas as mãos tremiam. Derramou um pouco no chão. — Droga… — murmurou. Gabriel se levantou na hora. — Deixa — disse, pegando o pano. — Você tá nervosa. Ela respirou fundo. — Eu tô confusa. Ele parou. — Com o quê? Ela hesitou, apertando o copo entre os dedos. — Com tudo. Gabriel ficou muito perto sem perceber. Perto demais. O cheiro dele, a presença forte, o jeito como ocupava o espaço. Sofia sentiu algo estranho no peito. Não era medo. Não era conforto também. Era outra coisa. — Você não precisa se cobrar tanto — ele falou, mais baixo. — Você passou por muita coisa. — Eu sei… — ela respondeu, mas não se afastou. O olhar deles se prendeu por tempo demais. Gabriel percebeu primeiro. Deu um passo atrás, tenso. — Você devia voltar pro quarto. — Gabriel… — ela chamou, sem saber por quê. Ele fechou os olhos por um segundo. — Não faz isso. — Fazer o quê? — ela perguntou, confusa. Ele abriu os olhos, o olhar carregado. — Me olhar desse jeito. Sofia sentiu o rosto queimar. — Eu não tô fazendo nada… — Tá sim — ele respondeu, a voz rouca. — E você não percebe. Ela engoliu seco. — Eu só… — parou. — Eu comecei a te ver diferente. O ar ficou pesado. Gabriel passou a mão pelo rosto, claramente lutando consigo mesmo. — Sofia… você tá machucada. Confundindo as coisas. — Talvez… — ela disse. — Ou talvez eu só esteja crescendo. A frase atingiu ele em cheio. Ele deu mais um passo pra trás. — Isso não pode acontecer. — Eu não disse que ia — ela respondeu rápido. — Eu nem sei o que eu sinto. Mas o corpo dela dizia algo que a cabeça ainda não entendia. O coração acelerado. A respiração curta. A forma como os olhos procuravam os dele sem querer. Gabriel virou de costas. — Vai dormir — falou firme. — Antes que a gente passe de um limite que não tem volta. Sofia ficou ali, parada, sentindo o coração bater forte demais. — Boa noite… — disse, quase num sussurro. — Boa noite — ele respondeu, sem olhar. Ela voltou pro quarto com a sensação estranha de que algo tinha mudado. E Gabriel ficou sozinho na cozinha, apoiado na pia, respirando fundo. Porque pela primeira vez… Ele não via mais a menina que precisava proteger. Via a mulher que ele não podia desejar. E isso o assustava mais do que qualquer guerra no morro. Aquela noite não acabou quando Sofia fechou a porta do quarto. Ela deitou, virou de um lado pro outro, puxou o lençol até o queixo… e nada do sono vir. A imagem de Gabriel na cozinha voltava inteira. O olhar pesado. A voz baixa. A tensão no ar. — Para com isso… — sussurrou pra si mesma. Mas o corpo não obedecia. Quando finalmente dormiu, o sonho veio confuso. Ela estava num baile vazio. A música tocava longe. As luzes piscavam fracas. Sofia dançava sozinha… até sentir mãos firmes na cintura. Virou assustada. Era Gabriel. Não com o rosto duro de sempre. Mas com um olhar diferente. Mais intenso. Mais quente. — Você não devia estar aqui sozinha — ele dizia no sonho. — Eu não tô sozinha… — ela respondia. A proximidade era sufocante. O coração disparava. Ela queria se afastar… mas não conseguia. Acordou ofegante. O quarto escuro. O silêncio pesado. Sofia sentou na cama, abraçando os joelhos. — Que coisa doida… — murmurou, com o rosto queimando de vergonha. Culpa. Uma culpa estranha, confusa. — Ele é minha família… — repetiu. — Ele sempre foi. Mas o coração não se acalmava. --- Na outra ponta da casa, Gabriel também não dormia. Estava sentado na beira da cama, cotovelos apoiados nos joelhos, encarando o nada. A lembrança do olhar dela não saía da cabeça. O jeito como ela disse “eu comecei a te ver diferente”. — Merda… — rosnou baixo. Passou a mão pelos cabelos, nervoso. Ele tentou se convencer. Ela tá fragilizada. Ela tá confusa. Isso é só carência. Mas o corpo dele reagia antes da razão. O cheiro dela ainda parecia grudado no ar. A imagem dela tão perto… perto demais. Quando fechou os olhos, o sonho veio. Sofia rindo. Sofia dançando. Sofia olhando pra ele sem medo. No sonho, ele segurava o rosto dela… e antes que qualquer coisa acontecesse, acordou brusco, respirando pesado. Levantou da cama num pulo. — Não… — disse firme, como se alguém pudesse ouvir. — Isso não. Andou pela casa no escuro, inquieto. Culpa queimava no peito. — Eu prometi proteger — murmurou. — Não desejar. Ele se apoiou na parede, fechando os olhos. Mas a verdade era c***l demais pra ignorar. O ciúme já não era só proteção. O controle já não era só cuidado. E a raiva que sentia quando alguém se aproximava dela… Não era mais só medo de perdê-la. Era medo de si mesmo. --- No dia seguinte, os dois se cruzaram no corredor. Um olhar rápido. Um silêncio longo demais. — Bom dia — Sofia disse, sem encarar. — Bom dia — Gabriel respondeu, rígido. Nenhum dos dois falou do que sonhou. Nenhum dos dois falou do que sentiu. Mas os pensamentos gritavam. Ela, tentando entender por que o coração batia diferente perto dele. Ele, tentando sufocar algo que já tinha criado raízes. E ambos sabiam, mesmo sem admitir: Depois daquela noite, não era mais possível fingir que nada estava acontecendo.
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