o baile e o ciumes

930 Palavras
Depois daquela noite, Gabriel mudou. Ficou mais frio. Mais seco. Mais agressivo com tudo e todos. Falava pouco. Mandava muito. Qualquer coisa virava motivo pra explodir. E Sofia… sabia. Sabia que não era só estresse. Sabia que não era só o morro. Sabia que era ela. Ele evitava ficar perto. Saía mais cedo. Chegava tarde. Quando estava em casa, parecia uma muralha. Mas os olhos denunciavam. Numa tarde, Sofia entrou na sala devagar. — Gabriel… — chamou baixo. — Você viu meu carregador? Ele respondeu sem olhar. — Procura no teu quarto. O tom foi duro. Desnecessário. Ela parou onde estava. — Eu já procurei. — Então deve ter perdido — respondeu ríspido. — Não posso resolver tudo pra você. Aquelas palavras bateram como um tapa. Sofia sentiu os olhos marejarem, mas respirou fundo. Se aproximou devagar. — Por que você tá falando assim comigo? Gabriel levantou de repente. — Porque eu tô cansado, Sofia! — a voz saiu alta demais. — Cansado de drama, de silêncio, de problema! Ela estremeceu, mas não recuou. Pelo contrário. Ela estendeu a mão e tocou o braço dele. O toque foi leve… mas queimou. — Não precisa ser assim comigo, tá? — disse com a voz trêmula, mas firme. Gabriel congelou. Ela continuou, os olhos cheios, mas sem chorar. — A gente abriu uma porta… — engoliu seco. — Uma porta que tá difícil fechar. Ele fechou os punhos. — Você não sabe do que tá falando. — Eu sei sim — ela respondeu baixo. — E dói. Ele tentou se afastar, mas ela manteve a mão ali. — Não precisa me maltratar pra tentar esquecer — disse. — Isso machuca. Muito. O silêncio caiu pesado. Gabriel respirava fundo, o maxilar travado, o corpo inteiro em guerra. — Eu tô fazendo isso por você — ele murmurou. — Não — ela respondeu. — Você tá fazendo por você. Ele fechou os olhos. — Se eu ficar perto demais… — a voz falhou. — Eu posso errar. Sofia sentiu o coração apertar. — E me afastar machucando… também é errar. Ela finalmente deixou a mão cair. — Eu não te pedi nada — continuou. — Só não me machuca pra se proteger. Virou de costas antes que as lágrimas caíssem. Gabriel ficou ali, parado. Sentindo algo que ele não sentia há muito tempo. Vergonha. Porque pela primeira vez, ele percebeu: Ela não era só alguém que precisava ser protegida. Ela era alguém que sentia. Que entendia. Que via além. E ele… Estava se tornando exatamente aquilo que prometeu nunca ser pra ela. Quando Sofia fechou a porta do quarto, Gabriel passou a mão pelo rosto, respirando pesado. — Eu tô te perdendo… — murmurou, sozinho. E o mais c***l… Era que, mesmo tentando se controlar, cada passo atrás que ele dava só fazia o desejo crescer. dias depois era noite de baile ... o morro estava diferente naquela noite. Era daqueles dias em que todo mundo aparecia. As luzes cortavam o escuro, o som do funk misturado com pagode fazia o chão vibrar, e o morro inteiro parecia pulsar no mesmo ritmo. Sofia foi. Não porque queria provocar. Mas porque fazia parte dela. Por segurança — e por ordem de Gabriel — ela ficou no mesmo camarote que ele. Era necessário. Ninguém discutiu isso. Ela chegou discreta… mas impossível de passar despercebida. Usava um short curto, justo no corpo, um top simples que deixava à mostra a pele morena, quente. Os cachos longos soltos desciam pelas costas. O sorriso vinha fácil, natural. Ela estava linda. Sem esforço. Sem intenção. Ficou na dela. Encostada no canto do camarote, conversando pouco, observando. Até a música mudar. O funk começou a tocar. Depois, o pagode. E o corpo dela respondeu antes da cabeça. Sofia começou a dançar. Não pra chamar atenção. Não pra provocar. Ela dançava porque sempre dançou. Porque o ritmo morava nela. O molejo era único. Natural. Fluido. Quadril desenhado acompanhando o som. Os ombros soltos. O sorriso aberto. Ela cantava junto, se soltava, viva. E o baile parou pra olhar. Os homens do morro olharam. Os homens de Gabriel olharam. E isso estava matando ele. Gabriel estava recostado no fundo do camarote, braços cruzados, mandíbula travada. O olhar seguia cada movimento dela sem querer. Ele via os olhares dos outros. Via o desejo silencioso. Via a admiração. E sentia o sangue ferver. — Para de olhar — ele rosnou baixo para um dos homens. O cara desviou na hora. Mas Sofia não percebia. Ela só dançava. Era, sem exagero, a melhor dançarina do morro. Dona de um molejo que fazia o som parecer nascer dela. Cada música parecia feita pro corpo dela. As pessoas paravam pra admirar. E Gabriel sentia algo perigoso crescer no peito. Orgulho. Ciúme. Desejo. Tudo junto. Ela virou sem querer o rosto na direção dele. Os olhares se cruzaram. Por um segundo, o sorriso dela vacilou. Não sumiu… mas mudou. Ficou mais contido. Mais consciente. Ela sabia. Sabia que aquilo mexia com ele. Sabia que ele estava se controlando. Mesmo assim, não parou de dançar. Porque não estava fazendo nada errado. Só estava sendo ela. Gabriel desviou o olhar, respirando fundo. — Fica calma… — murmurou pra si mesmo. — Fica no controle. Mas o corpo traía a mente. Porque naquela noite, vendo Sofia ali, livre, linda, admirada… Ele percebeu algo que tentou negar por tempo demais: Ela não era mais só alguém que ele protegia. Era alguém que ele desejava — mesmo lutando contra isso. E quanto mais ele tentava se controlar… Mais difícil ficava não atravessar a linha.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR