A música virou mais pesada.
O grave bateu fundo, fazendo o camarote vibrar.
Sofia estava dançando sozinha quando um dos homens de Gabriel se aproximou. Ele era conhecido, respeitoso — pelo menos achava que era.
— Dança comigo? — perguntou perto do ouvido dela, tentando ser ouvido no meio do som.
Sofia hesitou por um segundo.
Olhou rápido na direção de Gabriel.
Ele estava de costas… tenso.
Ela respirou fundo e aceitou.
O homem segurou a cintura dela, firme, mas sem puxar. Sofia dançava solta, no ritmo, o corpo acompanhando a música como sempre fez. Nada exagerado. Nada indecente.
Só dança.
Mas pra Gabriel…
Foi o limite.
Ele viu a mão na cintura dela.
Viu a proximidade.
Viu o corpo dela se movendo com outro homem.
O sangue subiu.
Num segundo, Gabriel já estava avançando, empurrando gente, o olhar escuro.
— TIRA A MÃO DELA — rosnou, partindo pra cima do cara.
O baile inteiro sentiu o clima mudar.
O homem soltou Sofia na hora, levantando as mãos.
— Foi m*l, chefe, eu—
— Gabriel! — Sofia chamou alto, se colocando na frente. — Calma. Não precisa disso.
Ela segurou o braço dele.
O toque fez ele parar… mas não esfriou.
— Não me provoca, Sofia — ele disse baixo, perigoso. — Não faz isso comigo.
Ela sustentou o olhar por um segundo.
Então… sorriu.
Não de deboche.
De desafio contido.
De quem estava cansada de se encolher.
— Eu não tô provocando — disse calma. — Eu tô vivendo.
Virou, pegou um copo de whisky da mesa e virou de uma vez, sentindo a bebida queimar a garganta.
Gabriel arregalou os olhos.
— Sofia—
Mas ela já tinha se afastado.
Voltou pro meio do camarote… e começou a dançar sozinha.
Livre.
Solta.
Sem olhar pra ninguém.
Os cachos balançavam. O corpo seguia o ritmo com naturalidade. O sorriso voltou — não pra provocar, mas pra afirmar.
Gabriel ficou parado, o peito subindo e descendo rápido.
Ciúme.
Raiva.
Desejo.
Tudo misturado.
Ele sabia.
Ela sabia.
Aquilo não era mais só proteção.
Não era mais só cuidado.
Era uma guerra silenciosa entre controle e liberdade.
E naquela noite, no meio do baile…
Sofia estava deixando claro que não ia mais dançar presa ao medo dele.
Mesmo que isso custasse caro pros dois.
Sofia virou mais um copo.
E depois outro.
O whisky descia queimando, mas ela já não se importava. A cabeça começava a ficar leve, o corpo solto demais, o riso fácil demais.
— Tá tudo bem… — murmurou pra si mesma, dançando sozinha no meio do camarote.
A música parecia mais alta.
As luzes mais fortes.
O mundo girava no ritmo do grave.
Ela cantava alto, errava a letra, ria de nada. O equilíbrio falhava um pouco, mas ela se segurava na mesa, depois voltava a dançar.
Gabriel observava tudo de longe.
E aquilo começou a assustar.
Ela não bebia assim.
Nunca bebia assim.
— Quem deu mais bebida pra ela? — perguntou seco, sem tirar os olhos dela.
Ninguém respondeu.
Sofia tentou virar mais um copo… e dessa vez a mão tremeu.
— Ei, Sofi… — uma das meninas do camarote tentou falar. — Já deu, né?
— Deu nada! — ela riu, puxando o copo de volta. — Hoje eu tô feliz!
Ela rodou, quase tropeçou, se apoiou em alguém e riu de novo.
Gabriel chegou rápido.
Segurou o braço dela antes que caísse.
— Já chega — disse firme.
Ela levantou o rosto, os olhos brilhando demais, o sorriso torto.
— Você não manda em mim… — falou arrastado. — Eu tô bem.
— Não tá — ele respondeu baixo. — Você tá bêbada.
Ela tentou se soltar.
— Me solta, Gabriel… — riu. — Você fica tão sério… relaxa um pouco.
Ele fechou a mão com mais cuidado no braço dela, não apertando, mas sustentando.
— Você vai acabar passando m*l.
— E se eu passar? — ela desafiou, mas a voz saiu fraca.
O mundo deu uma leve girada e, dessa vez, ela não conseguiu disfarçar. A cabeça pesou, o estômago revirou.
Gabriel percebeu na hora.
— Chega. — falou decidido.
— Não… — ela tentou protestar, mas o corpo já não obedecia tanto.
Ele passou o braço pelas costas dela, firme, protetor, e a puxou pra perto.
Sofia encostou sem perceber.
— Eu só queria… — murmurou, confusa. — Só queria esquecer um pouco.
Gabriel sentiu o peito apertar.
— Eu sei.
Tirou ela do camarote, ignorando os olhares. O baile continuou, mas pra eles a noite tinha acabado ali.
Sofia caminhava tropeçando levemente, apoiada nele.
— Você tá bravo comigo? — perguntou de repente, com voz de choro.
— Não — ele respondeu. — Tô preocupado.
Ela encostou a testa no ombro dele por um segundo.
— Desculpa…
Ele não respondeu.
Porque naquele momento, segurando ela daquele jeito, sentindo o peso do corpo dela confiar nele sem defesas…
Gabriel percebeu o quanto aquela linha entre proteger e querer já estava perigosamente fina.
E Sofia, meio bêbada, meio lúcida…
Sabia que estava segura.
Mesmo sem entender direito o que estava acontecendo dentro dela — e entre eles.