Proposta

1449 Palavras
A casa dos Kolesnikov ficava afastada do centro, cercada por muros altos e árvores antigas que bloqueavam a visão da rua. Não era uma mansão ostensiva como as dos novos ricos da Bratva, mas carregava o peso de uma família antiga, construída sobre sobrevivência e silêncio. Arkady percebeu os detalhes com precisão automática: o número de homens na segurança, as câmeras discretas, a forma como os portões se fecharam atrás deles com um som seco e definitivo. Nada ali era improvisado. Viktor Kolesnikov sempre fora cuidadoso. Foram recebidos com cordialidade excessiva. Sorrisos, cumprimentos formais, vozes baixas demais. O tipo de recepção que denunciava nervosismo disfarçado de respeito. Arkady caminhava ao lado do irmão sem dizer uma palavra, deixando que Aleksandr conduzisse os protocolos. Viktor apareceu no topo da escada, vestindo um terno escuro impecável, o rosto marcado pelo tempo e pelas decisões erradas que ainda não haviam cobrado seu preço final. — Aleksandr Volkov — disse ele, abrindo os braços com entusiasmo contido. — Que honra. — Viktor — respondeu o Pakhan, com um sorriso breve. — Precisamos conversar. O anfitrião não fez perguntas. Apenas assentiu e indicou o caminho. O escritório ficava no fundo da casa, isolado do restante, como se tivesse sido projetado para conversas que não deveriam ecoar. Madeira escura, estantes cheias de livros que raramente eram lidos, uma mesa larga demais para um homem que sempre negociara à distância. Assim que a porta se fechou, o ar mudou. Aleksandr tomou a palavra primeiro. Falou com clareza, sem rodeios, apresentando a proposta como o que ela era: uma solução elegante para problemas futuros. Um casamento entre Arkady Volkov e Anya Kolesnikova. União. p******o. Estabilidade. Arkady permaneceu em silêncio, observando. Viktor não interrompeu. Não fez perguntas durante a exposição. Apenas ouviu, os dedos entrelaçados sobre a mesa, o olhar atento demais para alguém realmente surpreso. Quando Aleksandr terminou, o silêncio que se seguiu foi curto. Muito curto. Viktor soltou uma risada baixa, satisfeita, reclinando-se na cadeira. — Confesso que não esperava tamanha… honra — disse, ainda sorrindo. — Minha filha sob o sobrenome Volkov. Arkady estreitou levemente os olhos. Não gostou do tom. Não gostou da rapidez. — Anya será bem cuidada — continuou Viktor. — Sempre quis garantir um futuro seguro para ela. Seguro. Arkady reconhecia aquela palavra. Homens como Viktor a usavam quando queriam dizer conveniente. — Então aceita? — perguntou Aleksandr, direto. — Claro que aceito — respondeu Viktor sem hesitar. — Esse casamento resolve muitos problemas. Arkady conteve a reação. Para ele, aquela resposta confirmava o que já sabia: Anya nunca fora prioridade. Fora um risco administrado. Um detalhe inconveniente mantido fora de vista. — Há apenas uma coisa — disse Arkady, finalmente falando. Viktor voltou o olhar para ele, surpreso pela primeira vez desde o início da conversa. — Eu quero informar Anya pessoalmente. O sorriso de Viktor vacilou por um segundo. Quase imperceptível. Mas Arkady viu. — Não vejo necessidade — respondeu o homem, rápido demais. — Ela não entende esses assuntos. Minha esposa pode… — Eu informo — repetiu Arkady, a voz baixa, firme, sem margem para negociação. Aleksandr observava em silêncio, interessado. Viktor pigarreou, ajeitando-se na cadeira. — Arkady, ela é… sensível. Não reage bem a mudanças bruscas. — Então é melhor que ouça de mim — respondeu Arkady. — Não por terceiros. O anfitrião sustentou o olhar por alguns segundos, avaliando. Não havia ameaça explícita ali. Não havia violência. Apenas uma decisão que já não lhe pertencia. — Muito bem — disse Viktor, por fim. — Ela está no jardim de inverno. Gosta de passar o tempo lá. Arkady assentiu uma única vez. Ao se virar para sair do escritório, sentiu o peso daquele momento com clareza absoluta. Ele já havia decidido por ela. Já havia alterado o curso da vida de Anya antes mesmo de falar seu nome em voz alta. Ainda assim, queria que fosse ele a dizer. Não como Pakhan. Não como executor. Mas como o homem que acabara de se tornar seu futuro — gostasse ela disso ou não. E, pela primeira vez em anos, Arkady Volkov sentiu algo que raramente sentia antes de uma conversa importante. Não tensão. Responsabilidade. Anya foi chamada ao escritório do pai no fim da tarde. Ela atendeu sem perguntar o motivo. Vestia um vestido longo de mangas compridas, tecido simples demais para aquela casa grande demais. As mangas escondiam os pulsos, como sempre. O cabelo ruivo estava preso com cuidado, mas seu rosto denunciava cansaço — olhos fundos, expressão abatida, como se já estivesse acostumada a más notícias. O corredor parecia mais longo do que o normal. Quando empurrou a porta do escritório, parou por um instante. Arkady Volkov estava ali. A surpresa foi imediata. Seus olhos se arregalaram levemente, e o corpo ficou tenso antes que ela conseguisse se recompor. Não esperava vê-lo naquele espaço. Não ali. Não daquela forma. — Sente-se, Anya — disse o pai, indicando a cadeira à frente da mesa. — Este é Arkady. Ela já sabia. Mesmo assim, assentiu com a cabeça, educada, e sentou-se com cuidado. As mãos repousaram no colo, dedos entrelaçados com força contida. O medo estava ali, visível nos olhos atentos demais, no jeito como observava cada movimento. — Ele quer conversar com você — acrescentou Viktor, evitando olhá-la por muito tempo. Arkady permaneceu em silêncio. Aleksandr foi o primeiro a sair. Viktor hesitou apenas um segundo antes de acompanhar o Pakhan, fechando a porta atrás de si. O som seco da madeira se fechando ecoou pelo escritório. Agora estavam a sós. O silêncio não era estranho para Anya. Era o mundo dela. Mas, naquele momento, pesava diferente. Não era vazio. Era expectativa. Arkady deu um passo à frente, parando a uma distância respeitosa. Não se sentou. Não tentou suavizar a presença. — Lembra-se de mim, Anya? — perguntou, a voz baixa, firme. Ela assentiu imediatamente. Sim. Ele percebeu o pequeno tremor nas mãos dela. — Eu fiz uma proposta ao seu pai — continuou. — Uma proposta que diz respeito diretamente a você. Ela levantou o olhar devagar, o medo agora mais evidente. Não desviou. Apenas aguardou. Arkady respirou fundo. — Eu pedi sua mão em casamento — disse, sem rodeios. — Quero me casar com você. O impacto foi imediato. Anya arregalou os olhos, o ar parecendo faltar por um instante. O corpo inteiro ficou rígido, como se aquela frase tivesse atravessado sua pele. Casamento nunca fora uma possibilidade concreta em sua mente. Nunca algo pensado, desejado ou sequer permitido. Ela levou as mãos ao peito por reflexo, depois começou a gesticular, os movimentos rápidos demais no início. Por quê? Arkady observou cada gesto com atenção absoluta. — Porque me encantei com você — respondeu, com honestidade crua. Ela pareceu ainda mais confusa. Encantamento não fazia parte do vocabulário que usavam para ela. Ela gesticulou novamente, dessa vez mais devagar, como se precisasse ter certeza de que estava sendo compreendida. Sou muda. Arkady não hesitou. — Para mim, isso não faz diferença. Os olhos dela se encheram de algo que não chegava a ser alívio. Era incredulidade. Ela continuou. Eu não sei ser esposa. Não sei falar. Não sei… Ele a interrompeu com suavidade, erguendo a mão apenas o suficiente para pedir atenção. — Você não precisa saber nada além de ser quem você é — disse. — Eu vou cuidar de você. Anya o encarou, buscando sinais de mentira, de armadilha, de algo escondido por trás daquelas palavras. — Vou protegê-la — continuou Arkady. — Você não será exposta. Não será usada. Não será descartada. Ela engoliu em seco. — Tudo o que eu peço — disse ele, aproximando-se apenas um pouco mais — é que fique ao meu lado. Silêncio. O tipo de silêncio que pesa, que decide destinos. Anya baixou o olhar para as próprias mãos. Pensou no pai. Na casa. No modo como sempre fora mantida à margem, protegida demais para ser livre, frágil demais para ser útil. Pensou no mundo lá fora — c***l, barulhento, impiedoso com pessoas como ela. Quando voltou a olhar para Arkady, algo havia mudado. Ainda havia medo. Mas havia, também, uma chance. Ela gesticulou com cuidado, os movimentos lentos, deliberados. Se eu disser não? Arkady respondeu sem dureza, mas sem mentira. — Seu pai encontrará outra solução — disse. — E ela não será melhor. Anya fechou os olhos por um breve instante. Quando os abriu, havia aceitação silenciosa ali. Não felicidade. Não esperança exagerada. Mas escolha. Ela gesticulou novamente. Você promete? Arkady não desviou o olhar. — Eu prometo. Anya assentiu. Uma única vez. O destino dela acabava de mudar. E, pela primeira vez, não foi sem que ela soubesse exatamente quem estava diante dela.
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