Pré-visualização gratuita Capítulo 01
Uma vez que a realidade em que você vive te atinge, você não consegue mais se livrar dela. A vida ao seu redor passa a ter um cheiro pútrido, as pessoas deixam de ser interessantes e a única coisa que você quer é a oportunidade de se desvecilhar de tudo que te faz lembrar o passado de onde você veio.
Sim, eu sei que parece algo egoísta. Afinal, fomos ensinados a sempre lembrar de nossas raízes, de onde viemos. Mas eu nunca quis lembrar de minhas raízes. Na verdade, eu cortei minhas raízes assim que consegui sair delas.
Sempre sonhei com coisas grandes, procurei as melhores oportunidades e não deixei que ninguém soubesse de onde eu vim. Desde cedo, aprendi que beleza abre portas, que inteligência faz com que as pessoas te admirem e que postura e posicionamento conquistam respeito. Me moldei para caber no padrão de uma sociedade onde eu não nasci, mas escolhi me inserir. Consegui bolsa de estudo na melhor escola particular do Rio de Janeiro, escolhi me formar em Relações Internacionais e construí um nome que todos conhecem, mas poucos têm acesso: Viviane Beltrão. Minha presença é requerida nas melhores festas, em eventos de luxo. As instituições de caridade me escolhem para promover suas campanhas. Alguns podem me olhar e não ver nada além de um corpo esbelto e uma beleza encantadora, no entanto, eu tenho um diferencial que me torna melhor do que muitas mulheres: a sagacidade, perspicácia e ambição de uma raposa. Afinal, eu não chegaria onde cheguei se não tivesse aperfeiçoado a mim mesma.
Nesse exato momento, enfrento um dilema diante do espelho: qual vestido usarei para marcar presença na inauguração do hotel Maison Rubra, uma nova filial de uma das maiores e mais luxuosas redes de hotel do mundo. Claro que eu não poderia ficar de fora desse evento.
Agora, escute: se você pensa ou já pensou em se tornar uma socialite, você precisa saber quando e onde as festas mais renomadas vão acontecer. Você precisa criar laços com pessoas importantes, ser interessante o suficiente para que elas queiram te convidar para um brunch ou para o próximo evento. E socializar é o que eu faço de melhor.
Encarei meu reflexo no espelho: meus longos cabelos negros escorriam pelo meu ombro esquerdo, texturizado com ondas abertas. A maquinagem em meu rosto possuía uma transição perfeita entre elegante e sensual: delineado gatinho e um belo batom vermelho, capaz de atrair a atenção de qualquer um. Em minhas mãos, dois vestidos espetaculares que disputam para ver qual será o escolhido da noite. O primeiro deles é um lindíssimo tomara que caia sereia, com um decote coração, e tecido justo até o quadril. O segundo é vermelho, longo, com gola alta até o pescoço em contraste com o decote nas costas que faz até o mais comportado dos homens querer olhar mais. Olho para Raquel, uma das poucas amizades verdadeiras que tenho, com um olhar suplicante.
— Por favor, me ajude! — Choramingo um pouco. — Os dois são perfeitos!
Raquel sorriu, com a fita métrica pendurada em seu pescoço e algumas agulhas espetadas em uma pequena almofada de mão. Bem, é claro que você não imaginou que Raquel seria uma amiga qualquer, certo? Ela é dona de um ateliê de luxo e minha estilista pessoal. Sempre que tenho algum lugar para ir, ela vem a meu socorro com suas melhores peças e me veste como uma Barbie. Sem sua ajuda, eu não seria sempre nomeada a presença mais bem vestida de todos os eventos que vou.
— Olhe, nem eu mesma sei escolher entre meus vestidos — Raquel deixou as agulhas em uma mesa e veio até mim. — Me conte mais sobre esse hotel, sei que você já fez sua pesquisa sobre os donos.
Sorri maliciosamente. Ela estava certa. Eu gosto de saber com quem estou lidando e se vale a pena atrair atenção.
— O dono, querida. O hotel Maison Rubra pertence a ninguém mais, ninguém menos, que Conrad van Dorn. Um dos homens mais ricos da Europa!
— Uau! Nunca ouvi falar, mas esse sobrenome deve valer milhões de dólares. — Raquel pendurou o vestido preto e me ajudou a vestir o vestido vermelho. — Você pretende chamar a atenção dele?
— Meu bem, ele é um homem de cinquenta e três anos. Deve ter esposa e filhos, e já deve ser bem difícil para ele conciliar sua atenção entre sua rede de hóteis milionária e sua família. Não, não quero a atenção dele. — Respirei fundo, enquanto Raquel ajustava o vestido em meu corpo.
— Bem, o vestido vermelho definitivamente é a melhor opção. A gola alta transmite elegância, pudor e mistério, mas quando você vira de costas... — Raquel encarou minhas costas nuas. — Um deslumbre sensual e irresistível. Você vai ser a mulher mais linda do evento, como sempre.
Eu estava simplesmente estonteante. Senti orgulho de mim mesma enquanto me admirava. Uma mulher não apenas bonita e inteligente, mas também, arrebatadora. Uma presença forte, hipnotizante, enfeitiçante. Sorri para mim mesma enquanto Raquel vinha em minha direção com o clássico par de scarpin Louboutin preto com sola vermelha, com uma bolsa clutch em couro da MiuMiu. A combinação perfeita para eu exibir naquela noite.
— Parfait! — Falou Raquel, com seu lindo sotaque francês que me causava inveja e me lembrava que ela vinha de uma família rica da França, e eu, de uma família pobre do Brasil. Raquel sempre falava em francês quando estava entusiasmada, brava ou triste; em resumo, quando qualquer emoção muito forte a atingia. — Ma chère, tu vas faire sensation!
— Acalme os ânimos, Raquel, eu ainda não falo francês. — Tentei me segurar para não revirar os olhos, afinal, não posso ser rude com uma das minhas únicas migas, mesmo que ela me lembre que nasceu em berço de ouro e foi alfabetizada em três línguas ernquanto eu tive que suar o triplo apenas para aprender o português formal.
— Oh, desculpe! — Ela emitiu um som fino, parecido com um riso contido, e deu os últimos retoques em meu vestido. — Quis dizer que você vai arrasar.
— Obrigada — Dei uma volta para ela contemplar sua obra de arte. — Como sempre, é claro.
— Agora vá, Vivi, antes que você seja a mais atrasada do evento!
— Bem, querida, eu gostaria de te pedir um último favor... — Segurei suas mãos, torcendo para que não parecesse muito interesseira. — Você pode me levar? Vai demorar muito para um Uber chegar, você sabe.
— Claro! Que tipo de amiga eu seria se deixasse você chegar de Uber em um evento tão chique? Mon Dieu, sou desnaturada!
Respirei de alívio enquanto Raquel procurava a chave de seu carro entre a bagunça de agulhas, alfinetes e linhas de costura em sua mesa. Eu não diria para ela que queria que ela me levasse porque seu carro era uma Porsche Panamera e o máximo que eu conseguiria em um Uber seria um Renault Sandero. Como Raquel era uma boa amiga, eu sabia que ela não iria me negar uma carona; mas como eu não era uma amiga tão boa assim, queria causar uma boa impressão chegando em um carro de luxo.
Claro, você deve estar se perguntando se eu me orgulho de ser assim. Uma amiga levemente invejosa e interesseira. Talvez, se eu vivesse uma vida normal, eu não precisaria ser assim. Eu iria me gabar de ter feito uma viagem a Dubai enquanto Raquel exibisse sua família rica e perfeita francesa, e eu não ia precisar que ela me levasse para algum lugar porque eu teria meu próprio carro de luxo e um motorista particular.
Porém, enquanto Raquel já nasceu nessa realidade, eu ainda estou construindo a minha.