Capítulo 4

1134 Palavras
Na manhã seguinte, depois de deixar Renata na escola e subir os quatro andares de escada, encontro Maurício deixando sua sala. - Pensei que não vinhesse hoje – diz sem me olhar. - A polícia estava na favela, revisitando quem saia e quem entrava. Morávamos desde sempre na favela do Jacarezinho, com aproximadamente 37 mil moradores. Considerada uma das favelas mais violentas do Rio de Janeiro e também uma das que possuía mais negros. Toda aquela área pertencia a família do presidente Getúlio Vargas, que doou o espaço para famílias locais o ocupassem. Pessoas como o Maurício, tinham muito preconceito com os moradores, como eu, que morava em favelas. - Se não morasse em uma comunidade quilombola, isto com certeza não estaria acontecendo com você – diz passando por mim. - Não vai trabalhar hoje? Ele se vira, forçando um meio sorriso. - Querida, ao contrário de você, sou responsável e tenho uma audiência. A contra gosto, sigo Maurício até seu Cronos branco. Não gostava de sair com ele. Quando saíamos, sempre enxergava pena no rosto das pessoas e quase que podia ouvir seus pensamentos. O que ela está fazendo com ele? Será que são casados? Ele é muito bonito para ela. Deve ser a empregada, tadinha. Ele me olha entrar no veículo e colocar minha bolsa surrada sobre o colo, para em seguida por o cinto de segurança. Para só então voltar a atenção para a chave na ignição. Minutos mais tarde ao entrarmos no fórum, acabamos por encontrar alguns advogados particulares conhecidos de Maurício e acabo por ficando de lado. Procuro por um resultado de um concurso público que havia feito há dias atrás, já esperando mentalmente a pior nota. Abro minha boca num O quando vejo meu nome nas primeiras linhas da lista. Era o meu nome! Gabriela Duarte Mendonça. Dou um pequeno gritinho, atraindo a atenção de Maurício e dos outros advogados. Volto a olhar para o celular sem acreditar. Podia advogar na defensoria pública. Minha vida iria finalmente mudar. Minha alegria começa a diminuir quando paro para pensar. Não seria tão fácil assim. Precisaria juntar algum dinheiro antes de me demitir do estágio. Pois, iria demorar para receber meu salário do estado. Sentada em um banco de madeira, esperando Maurício sair da audiência, decido ficar no estágio por mais alguns dias e advogar em algum caso. Era o plano perfeito. Na hora do almoço, m*l toco em minha marmita composta por arroz , feijão e legumes. Saindo as pressas da sala de Maurício que, naquela tarde ainda teria mais outra audiência, espero impaciente no ponto de ônibus, até que finalmente quase dez minutos depois, o ônibus que estava aguardando, resolver aparecer. Sento ao lado de uma senhora, me concentrando na visão que tinha no corredor. Apesar de ser hora do almoço, ainda tinha um leve congestionamento, acabando por demorar o dobro do tempo para chegar na sede da OAB. Como esperado, encontrei o prédio fechado. Então me pus a esperar. Sentada na calçada, noto poucos olhares na minha direção. As vezes eram olhadas rápidas e as vezes até sustentavam meu olhar. Um homem num carro e outro andando, assovia e diz gracejos. Era algo que nunca me acostumava e que não considerava normal. Onde estivesse, era sexualizada por causa do meu corpo. Como mulher, n***a, não me sentia segura nas ruas, transportes coletivos ou muito menos em táxis. Além do racismo estampado na cara de algumas pessoas e o preconceito de vir de uma favela, tinha medo de não voltar para casa, de ser assediada e até pior. Existia uma “lenda” criada pela sociedade, de que todos os negros eram fogosos e bem dotados. Muitas pessoas acreditavam nisso, sendo que a verdade estava longe de ser essa. Uma mulher destranca a porta dupla com grades, faltando poucos minutos para às duas da tarde. Entro na recepção gélida, contente por sair do mormaço. - Está aqui para falar com alguém? – pergunta arrumando algumas coisas sobre o balcão de mármore preto. - Passei no concurso para defensoria pública – A senhora de aparentemente quarenta anos, ergue as sobrancelhas e arregala um pouco os olhos por trás dos óculos, surpresa. - Terá que esperar Cíntia chegar. Ela que cuida disso. Olho para o relógio, assentindo, torcendo mentalmente que a audiência de Maurício durasse o restante da tarde. Cíntia resolve aparecer meia hora mais tarde, como se não estivesse passado do seu horário de trabalho. Segurando duas bolsas em cada lado do braço e uma sacola plástica com algum lanche. - Cíntia, essa mulher quer falar com você – Ela me olha por cima do ombro, deixando evidente as bochechas vermelhas. - É sobre o concurso? - É sim. - Vamos na minha sala. Entro com ela no elevador, só então notando que ela estava ofegante. Cíntia era uma mulher de que deveria estar na casa dos trinta anos, acima do peso. Era baixa, possuía grossas, quadril largo e ombros largos. Como a maioria das mulheres, acreditava que usar roupa preta num calor de sensação termina de 40 graus, para disfarçar algumas gordurinhas, iria realmente disfarçar, apesar de eu saber hoje em dia que existe outras técnicas para isto. Já havia passado por isto e só me frustrava. - Qual seu nome? – pergunta quando entramos em sua sala, ligando o ar-condicionado antes de se sentar atrás de sua mesa. - Gabriela – Sento em sua frente – Gabriela Duarte Mendonça – finalizo. Seus dedos deslizam rapidamente pelo teclado do computador, enquanto seus olhos ágeis passeavam pela tela. - Aqui está. Gabriela Duarte Mendonça – repete – Passou em sexto lugar – Seus olhos se fixam em mim – Foi muito boa. - Obrigada. - Você é a primeira que apareceu aqui hoje – continua – Irei precisar dos seus documentos para colocar no sistema. Os pego separados dentro da bolsa, colocando em sua frente. A impressão que tinha, era que os minutos seguintes eram decisivos para minha vida e eram na verdade, trabalhar para o Estado foi tudo o que almejei ainda na faculdade. Tiro algumas dúvidas, enquanto a mesma se mantém ocupada, precisando ter certeza de que nada daria errado. Prontamente, Cíntia responde todas minhas perguntas. - Irá receber na próxima folha de pagamento – continua. - Quando posso começar? Ela dá de ombros. - Já está apta para isto. Dou um sorriso contido. Os olhos dela volta para o computador. - Tem um processo no qual um detento alega que não pode pagar um advogado – diz imprimindo algumas folhas – Para começar, acho que está perfeito para você. Apenas consigo assentir, graças ao nervosismo. Cintia grampeia as folhas, as colocando em seguida em uma pasta bege, antes de me entregar. - Boa sorte – diz por fim. Agradeço levantando, sentindo o peso da responsabilidade naquela pasta.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR