Pré-visualização gratuita um encontro inesperado
_ Kyra, você vai se atrasar!
A voz de sua mãe atravessou a pequena casa, chegando ao quarto no exato momento em que Kyra tentava prender os cabelos diante do espelho.
— Eu sei, mãe! — respondeu, segurando um elástico entre os dentes.
— Se sabe, por que ainda está aí?
— Porque saber que estou atrasada não faz o tempo parar!
Da cozinha, sua avó soltou uma gargalhada.
— Essa menina sempre tem uma resposta pronta — comentou dona Margarida, retirando do forno alguns pães de queijo.
Kyra conseguiu prender os cabelos num r**o de cavalo, embora algumas mechas continuassem caindo sobre seu rosto. Pegou a bolsa, vestiu o casaco às pressas e saiu do quarto pulando enquanto tentava calçar um dos tênis.
A casa onde morava com a mãe e a avó era pequena, simples e cheia de vida. Nas paredes havia fotografias antigas, flores artificiais e lembranças de uma família que, apesar das dificuldades, sempre permanecera unida.
Helena tinha engravidado aos dezesseis anos e criado a filha sem a ajuda do pai da criança. Kyra não o conhecia. Durante a infância, fizera muitas perguntas sobre ele, mas as respostas da mãe sempre foram vagas. Com o tempo, ela aprendera a fingir que não se importava.
Helena e dona Margarida haviam sido mais do que suficientes para cercá-la de amor.
— Coma alguma coisa antes de sair — ordenou sua avó.
— Não dá, vó. A dona Celeste vai me transformar em adubo se eu me atrasar outra vez.
Dona Margarida colocou dois pães de queijo dentro de um guardanapo e entregou a ela.
— Então coma no caminho.
— A senhora é a melhor avó do mundo! — Kyra beijou o rosto dela. — E a senhora também é a melhor mãe do mundo — acrescentou, dando um beijo apressado em Helena.
— Tome cuidado com essa bicicleta — pediu a mãe. — E olhe para os dois lados antes de atravessar a rua.
— Eu sempre olho!
Helena cruzou os braços.
— Na semana passada, você quase atropelou um cachorro.
— O cachorro estava correndo atrás de mim!
— Porque você pegou a bola dele — lembrou dona Margarida.
— Foi sem querer!
Kyra saiu antes que as duas continuassem enumerando suas pequenas desventuras.
A bicicleta azul estava encostada junto ao portão. Era antiga, tinha uma cesta de palha na frente e fazia um barulho estranho sempre que Kyra freava. Ainda assim, era seu principal meio de transporte.
Ela guardou os pães de queijo na cesta, subiu na bicicleta e começou a pedalar o mais rápido que conseguia.
Kyra trabalhava em uma floricultura no centro da cidade. Não ganhava muito, mas adorava o emprego. Gostava do perfume das flores, das cores e, principalmente, das histórias por trás de cada pedido. Havia flores para aniversários, casamentos, pedidos de desculpas e declarações de amor.
Kyra achava curioso que as pessoas recorressem às flores quando as palavras não eram suficientes.
Enquanto pedalava, o vento frio atingia seu rosto. Ela desviou de um buraco, quase perdeu o equilíbrio e, mesmo assim, não diminuiu a velocidade.
— Desculpa! — gritou para um homem que precisou sair do caminho.
— Tenha cuidado, menina!
— Estou tendo!
O homem olhou para a bicicleta torta se afastando e balançou a cabeça.
Do outro lado da cidade, a manhã começava de uma maneira completamente diferente.
Bernardo estava diante do espelho, terminando de abotoar a camisa. Todos os seus movimentos eram precisos, silenciosos e controlados. Não havia música no quarto, nem televisão ligada. Apenas o som discreto do relógio marcando a passagem do tempo.
Ele pegou o relógio sobre a cômoda e, por alguns segundos, seus olhos se fixaram no porta-retratos ao lado.
Na fotografia, uma mulher sorria enquanto o abraçava. Bernardo também sorria.
Era difícil reconhecer naquele homem feliz o médico sério e distante que ele havia se tornado.
Sua esposa morrera em um acidente de carro. Desde aquele dia, Bernardo parecia ter fechado todas as portas que pudessem conduzir alguém ao seu coração. Continuava trabalhando, cuidando de seus pacientes e cumprindo suas responsabilidades, mas não vivia verdadeiramente.
Apenas seguia em frente porque não sabia fazer outra coisa.
Ele desviou os olhos da fotografia, pegou o paletó e saiu do quarto.
Ao chegar à sala de jantar, encontrou Aurora tomando café e lendo algumas mensagens no celular. A irmã do meio estava vestida de maneira elegante e já parecia preparada para um longo dia de trabalho.
Brenda, por outro lado, procurava alguma coisa entre as almofadas do sofá.
— Onde está a chave do carro? — perguntou ela.
Bernardo parou no meio da sala.
— Você não vai pegar o meu carro.
— Bom dia para você também.
— Onde está o seu?
— Na oficina.
Aurora levantou os olhos do celular.
— Porque você bateu em uma lixeira.
— A lixeira apareceu de repente.
— Ela estava parada — disse Aurora.
— Exatamente. Ninguém espera que uma coisa parada apareça no meio do caminho.
Bernardo respirou fundo. Aos vinte anos, Brenda era rebelde, impulsiva e acreditava que todas as regras do mundo haviam sido criadas apenas para contrariá-la.
Aurora era o seu completo oposto. Responsável, calma e sensata, costumava resolver os problemas que Brenda provocava.
— Você não vai dirigir o meu carro — repetiu Bernardo.
— Eu preciso ir até a faculdade.
— Pode ir com Aurora.
— Eu também preciso passar no shopping — acrescentou Brenda.
— A faculdade fica em uma direção. O shopping fica em outra.
— Por isso precisamos do carro. Para ir aos dois lugares.
Bernardo lançou um olhar para Aurora.
— Não deixe Brenda dirigir.
— Eu não tenho cinco anos — protestou a caçula.
— Crianças de cinco anos costumam ser mais responsáveis.
Brenda fez uma careta.
— A sua falta de bom humor está piorando.
Bernardo não respondeu. Pegou sua pasta e caminhou até a porta.
— Bernardo — chamou Aurora, com delicadeza.
Ele parou.
— Você vai jantar conosco hoje?
— Provavelmente estarei no hospital.
— Você sempre está no hospital.
Por um instante, o rosto de Bernardo mudou. Não chegou a demonstrar tristeza, mas o silêncio que surgiu dizia mais do que qualquer resposta.
— Não me esperem — disse ele, antes de sair.
Brenda esperou a porta se fechar.
— Ele precisa urgentemente começar a viver.
— E você precisa urgentemente começar a pensar antes de agir — respondeu Aurora.
Brenda tirou uma chave de dentro do bolso e a balançou no ar.
— Encontrei!
Aurora estreitou os olhos.
— Você disse que estava procurando a chave.
— E estava.
— No seu bolso?
Brenda sorriu.
— Vamos?
Aurora não gostou da ideia. Ainda assim, pegou a bolsa e decidiu acompanhá-la. Era melhor estar no carro e tentar controlar a irmã do que permitir que ela saísse sozinha.
Pouco tempo depois, Brenda dirigia pelas ruas movimentadas enquanto Aurora segurava o cinto de segurança com força.
— Você pode diminuir a velocidade? — pediu Aurora.
— Eu estou dentro do limite.
— Desde quando você se importa com limites?
— Estou tentando amadurecer.
— Há cinco minutos, você avançou um sinal amarelo.
— Estava amarelo, não vermelho.
Brenda aumentou o volume da música.
— Abaixe isso — pediu Aurora.
— Você está ficando igual ao Bernardo.
— Alguém nesta família precisa ter juízo.
Brenda soltou uma risada e desviou os olhos da rua apenas por um segundo, tentando trocar a música no painel.
Foi o suficiente.
Kyra surgiu no cruzamento, pedalando depressa. Ela olhou para um lado, mas um ônibus parado bloqueava parte de sua visão. Quando avançou, escutou o som de uma buzina.
Tudo aconteceu rápido demais.
O carro atingiu a roda traseira da bicicleta. Kyra perdeu o equilíbrio e caiu no asfalto, apoiando o peso do corpo sobre um dos braços. A bicicleta deslizou por alguns metros, espalhando os pães de queijo pelo chão.
Brenda freou bruscamente.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
— Meu Deus! — Aurora retirou o cinto. — Você atropelou alguém!
— Eu não a atropelei! Eu bati na bicicleta!
— E havia uma pessoa em cima dela!
As duas saíram do carro correndo.
Kyra estava sentada no asfalto, com os olhos fechados e uma das mãos segurando o braço esquerdo. Algumas pessoas começaram a se aproximar.
— Você está bem? — perguntou Aurora, ajoelhando-se ao lado dela.
Kyra abriu os olhos devagar.
— Se eu disser que sim, vocês vão acreditar?
— Eu sinto muito — disse Brenda, assustada. — Você apareceu do nada.
— Eu estava numa bicicleta azul. Não sou exatamente invisível.
Brenda abriu a boca para responder, mas não encontrou uma justificativa.
Kyra tentou se levantar. Assim que apoiou o braço no chão, soltou um gemido de dor.
— Não se mexa — pediu Aurora. — Você pode ter se machucado seriamente.
— Eu preciso trabalhar.
— Você acabou de sofrer um acidente!
— E já estou atrasada. Se eu chegar machucada, talvez a dona Celeste fique com pena e não me demita.
Apesar da preocupação, Aurora quase sorriu.
Brenda observou o braço dela.
— Acho que precisamos levá-la a um hospital.
— Não precisa. Eu estou bem.
— Você não consegue mexer o braço — argumentou Aurora.
— Ainda tenho o outro.
— Você sempre leva tudo assim? — perguntou Brenda.
Kyra olhou para a bicicleta caída.
— Só quando não estou chorando.
Aurora percebeu que, por trás das brincadeiras, ela estava assustada.
— Vamos levá-la ao hospital — disse em tom firme. — O meu irmão trabalha lá.
— Ele é enfermeiro?
— Médico — respondeu Brenda. — Um médico muito importante.
— Brenda — repreendeu Aurora.
— O quê? Ele é.
Kyra olhou para o próprio braço e suspirou.
— Está bem. Mas alguém precisa avisar a dona Celeste que as flores vão ter que esperar.
Aurora ajudou Kyra a entrar no carro, enquanto Brenda colocou a bicicleta danificada no porta-malas. Em seguida, seguiram para o hospital.
Durante o trajeto, Brenda dirigiu tão devagar que chegou a irritar outros motoristas.
— Você pode acelerar um pouco — pediu Kyra, apoiando o braço junto ao corpo.
— Não posso. Estou traumatizada.
— Você está traumatizada?
— Eu nunca tinha batido em uma pessoa.
— Você disse que bateu na bicicleta.
Aurora tentou esconder um sorriso.
Quando chegaram ao hospital, Brenda correu para pedir ajuda. Kyra foi levada até uma sala de atendimento, onde uma enfermeira examinou seu braço e solicitou uma radiografia.
— Parece que não houve fratura — explicou a enfermeira. — Mas o médico precisa avaliar.
Kyra estava sentada na maca quando a porta se abriu.
Bernardo entrou olhando para o prontuário.
— Kyra Almeida? — perguntou.
— Depende. Se for para cobrar alguma coisa, não sou eu.
Ele ergueu os olhos.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
Kyra reparou imediatamente na postura séria, nos cabelos bem arrumados e no olhar intenso do médico. Bernardo, por sua vez, encontrou uma jovem com os cabelos bagunçados, uma pequena mancha de sujeira no rosto e um brilho curioso nos olhos, apesar da dor.
Havia alguma coisa nela que parecia iluminar o ambiente.
Bernardo desviou o olhar primeiro.
— Sou o doutor Bernardo Vasconcelos. Vou examinar o seu braço.
— Vasconcelos? — Kyra olhou para Brenda e Aurora, que estavam próximas à porta. — Então você é o irmão delas.
— Infelizmente — respondeu ele.
— Eu ouvi isso! — protestou Brenda.
Bernardo se aproximou da maca.
— O que aconteceu?
— A sua irmã tentou acabar com a minha carreira de florista.
— Foi um acidente — disse Brenda.
— Ela bateu na minha bicicleta — explicou Kyra. — Mas, em defesa dela, eu também estava atrasada e atravessei a rua rápido demais.
Bernardo lançou um olhar severo para Brenda.
— Você estava dirigindo?
— Sim.
— Eu disse para Aurora não deixar você dirigir.
— Não coloque a culpa em mim — disse Aurora. — Quando percebi, ela já estava com o carro em movimento.
— Nós podemos discutir isso depois? — pediu Kyra. — De preferência quando o meu braço parar de doer.
Bernardo voltou sua atenção para ela.
— Consegue movimentar os dedos?
Kyra mexeu os dedos lentamente.
— Consigo.
— E o pulso?
Ela tentou movê-lo, mas seu rosto se contraiu.
— Dói.
Bernardo segurou sua mão com cuidado. O toque fez Kyra prender a respiração por um instante. Ele percebeu, mas não comentou.
— Vou precisar examinar o cotovelo.
— Tudo bem.
Quando Bernardo deslizou os dedos pelo braço dela, Kyra voltou a encará-lo. De perto, notou que ele tinha olheiras discretas e uma tristeza silenciosa no olhar. Era um homem bonito, mas parecia carregar uma tempestade inteira atrás daquela expressão controlada.
Bernardo também sentiu algo estranho. A voz dela, o jeito espontâneo e a maneira como ainda conseguia brincar depois de um acidente despertaram uma sensação que ele não reconhecia havia muito tempo.
Isso o incomodou.
— A radiografia não mostra nenhuma fratura — disse, soltando o braço dela. — Foi uma contusão. Você precisará usar uma tipoia por alguns dias, tomar um analgésico e evitar esforço.
— Evitar esforço por quantos dias?
— Pelo menos uma semana.
— Uma semana? Eu trabalho numa floricultura. Preciso carregar vasos, caixas e baldes.
— Então não carregue.
Kyra soltou uma pequena risada.
— É fácil dizer isso quando não é o seu salário que está em risco.
Bernardo manteve o tom sério.
— Se não seguir as recomendações, pode piorar a lesão.
— E se eu não trabalhar, posso perder o emprego.
O clima entre os dois mudou. Bernardo não estava acostumado a ser questionado por pacientes, muito menos por uma jovem que parecia não se intimidar com ele.
— A sua saúde deve ser prioridade.
— Para quem tem dinheiro, talvez. Para quem precisa pagar contas, as prioridades costumam brigar entre si.
Brenda e Aurora trocaram um olhar.
A diferença entre Kyra e Bernardo ficava evidente. Ele vinha de uma família rica, era um médico respeitado e estava acostumado a solucionar problemas com ordens precisas. Kyra vivia uma realidade em que até descansar por uma semana podia custar caro demais.
Bernardo pegou uma folha e começou a escrever.
— Vou fornecer um atestado médico.
— A dona Celeste não é um hospital. Ela pode simplesmente contratar outra pessoa.
— Então ela estará infringindo a lei.
Kyra balançou a cabeça.
— Você realmente acredita que o mundo funciona exatamente como deveria, doutor?
Bernardo interrompeu a escrita e a encarou.
— Não. Há muito tempo deixei de acreditar nisso.
A resposta foi tão fria e dolorosa que Kyra perdeu o sorriso por um instante.
Antes que pudesse dizer alguma coisa, Bernardo entregou a receita.
— A enfermeira colocará a tipoia. Se a dor aumentar, volte ao hospital.
Kyra pegou o papel.
— Só isso?
— Só isso.
— Você sempre é tão simpático?
— Apenas quando estou de bom humor.
— Então eu tive azar de conhecer você hoje.
— Você teve azar quando atravessou a rua sem prestar atenção.
Kyra ergueu as sobrancelhas.
— A sua irmã estava dirigindo!
— E você mesma admitiu que atravessou depressa demais.
— Eu retiro tudo o que disse em defesa dela.
Brenda deu um passo para trás.
— Não me coloquem no meio dessa discussão.
Aurora não conseguiu conter uma risada. Kyra olhou para ela, surpresa, e acabou rindo também.
Bernardo permaneceu sério, embora por um breve instante o canto de seus lábios ameaçasse se mover. Foi um gesto quase imperceptível, mas Aurora percebeu.
E ficou surpresa.
Desde a morte da esposa, ela não se lembrava de ter visto o irmão tão perto de sorrir.
Bernardo se virou em direção à porta.
— Vou pedir que preparem a sua alta.
— Obrigada, doutor Bernardo — disse Kyra.
Ele parou, mas não olhou para trás.
— Tenha mais cuidado da próxima vez.
— Diga isso à sua irmã.
Brenda cruzou os braços.
— Eu já pedi desculpas.
Bernardo saiu da sala sem responder.
Kyra acompanhou-o com os olhos até a porta se fechar.
— Ele é sempre assim? — perguntou.
— Assim como? — quis saber Aurora.
— Como se estivesse zangado com o mundo inteiro.
O sorriso de Aurora desapareceu.
— Ele não era assim antes.
Kyra percebeu a tristeza em sua voz e decidiu não fazer mais perguntas.
Pouco depois, ela deixou o hospital com o braço imobilizado e a certeza de que teria problemas no trabalho. Brenda prometeu pagar o conserto da bicicleta e levá-la até a floricultura para explicar pessoalmente o acidente.
Antes de entrar no carro, Kyra olhou para o prédio do hospital.
Bernardo observava as três pela janela de um dos corredores. Assim que percebeu que ela havia levantado o rosto, afastou-se rapidamente.
Kyra não conseguiu evitar um pequeno sorriso.
Aquele médico era arrogante, frio e provavelmente a pessoa mais m*l-humorada que ela já conhecera.
Ainda assim, havia algo no olhar dele que despertava sua curiosidade.
Bernardo voltou para o trabalho tentando afastar da memória o rosto da jovem. Porém, durante o restante da manhã, ele se lembrou várias vezes do sorriso dela.
Um sorriso vivo, espontâneo e irritantemente bonito.
O tipo de sorriso que já não fazia parte de sua vida.
E que, por alguma razão, havia chegado perto demais de despertar o seu.