Capítulo 9: Elena Santoro

785 Palavras
A brisa salgada da noite acariciava minha pele enquanto eu permanecia sentada no banco de pedra, cercada pelo perfume das magnólias que resistiam ao vento marítimo. O som das ondas quebrando nas rochas abaixo da mansão era quase hipnótico, um ritmo constante que contrastava com o turbilhão dentro de mim. Não importava quantas vezes eu tentasse, o sono me escapava. Minhas mãos descansavam no colo, entrelaçadas, enquanto meus pensamentos se perdiam no desconhecido do futuro. O casamento havia sido selado em papel, e dentro de dias seria selado perante o mundo. Como matriarca da Cosa Nostra, quais seriam meus deveres? Quais os sacrifícios que ainda teriam que ser feitos? Eu nunca conheci liberdade, apenas uma coleira dourada que mudava de formato ao longo dos anos. Mas agora, ironicamente, o casamento que deveria me aprisionar parecia prestes a me dar algo diferente. Um lugar de verdadeiro poder. Um destino que eu jamais escolheria, mas que talvez fosse inevitável. O ronco grave de motores cortou a tranquilidade do jardim. Meus olhos se voltaram para os portões de ferro que se abriram, revelando uma fileira de carros pretos deslizando pelo pátio. Fiquei onde estava, imóvel, observando os soldados descerem primeiro, rígidos, atentos. Pietro surgiu em seguida, a expressão inalterada, e Matia, ligeiramente agitado, como sempre. Por fim, Luca. Ele saiu do carro com uma aura de autoridade natural, distribuindo ordens com precisão, os olhos escuros atentos a cada detalhe. Mesmo no meio da escuridão, havia algo nele que dominava o espaço ao redor. Seus homens obedeceram sem hesitar, dispersando-se rapidamente. Mas Luca não entrou na casa. Ele me viu. Nossos olhares se encontraram, e um arrepio percorreu minha espinha. Sem pressa, Luca caminhou na minha direção, os passos firmes ecoando no piso de pedra. Eu deveria desviar os olhos. Deveria me levantar e sair. Mas permaneci ali, esperando, desafiando silenciosamente aquele homem que agora controlava meu destino. — Por que ainda está acordada? — Sua voz veio baixa, mas carregada de algo que não consegui identificar. Cansaço, talvez. Ou curiosidade. — Ainda não me acostumei ao quarto. — Minha resposta saiu sem rodeios, mas não era uma mentira. Aquele espaço era frio, estranho. Nunca seria meu. Luca inclinou levemente a cabeça. — Precisa que troquem seu quarto? Ou sua cama? Senti minha garganta apertar, não pelo tom da pergunta, mas pelo que estava implícito nela. Ele resolveria qualquer incômodo com a mesma facilidade que dava ordens para matar. — Não. — Engoli em seco, tentando manter minha postura. — Não precisa se incomodar, Luca. De qualquer forma, dormiremos em quartos separados. O silêncio que seguiu minhas palavras foi mais pesado que a umidade da noite. Luca me observou por um momento que pareceu se arrastar, e então uma sobrancelha arqueou. Um sinal sutil de surpresa, talvez. Ou divertimento. — Isso não existe aqui. Meus olhos se estreitaram levemente. — O quê? Ele se aproximou mais um passo, a presença dele consumindo o espaço entre nós. — Minha esposa dorme no mesmo quarto que eu. Meu coração acelerou antes que eu pudesse impedir. Não era pela insinuação, mas pela certeza absoluta em sua voz. Ele estava estabelecendo uma regra. E regras, na nossa realidade, eram leis imutáveis. Pisquei devagar, mantendo a respiração controlada. — E se eu recusar? Um fantasma de sorriso tocou os lábios de Luca, um brilho perigoso em seus olhos. — Então você aprenderá a conviver com isso. As palavras pairaram entre nós, carregadas de promessas e desafios. A noite ainda era jovem, mas algo dentro de mim dizia que eu já tinha perdido essa batalha. — Eu não esperava isso — murmurei, minha voz saindo mais suave do que pretendia. — Que você desejasse compartilhar da minha presença. Na minha família, as mulheres são educadas para serem invisíveis. Luca ergueu a mão, seus dedos roçando de leve minha pele enquanto tocava meu rosto. O calor de seu toque contrastava com a brisa fria, e um arrepio percorreu minha espinha. Meu corpo reagiu antes que minha mente pudesse se rebelar, e um rubor aqueceu minhas bochechas. — Quando nos casarmos, sua família será a Cosa Nostra — ele disse, a voz firme e sem hesitação. — Assim como sua lealdade. O que você aprendeu não existe mais. No meu domínio, as mulheres são educadas para serem fortes e inteligentes. E minha esposa será tudo, menos invisível. Minhas mãos se fecharam levemente sobre meu colo, quando ele se abaixou e beijou minha bochecha de forma demorada, antes de se virar e caminhar para dentro da casa com as mãos nos bolsos. Me deixando com o coração e o corpo em chamas. Eu não sabia se o que senti naquele momento era medo ou algo muito mais perigoso.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR