A madrugada em Palermo é silenciosa, tão silenciosa que parece que até o vento respeita o código de mudeza que paira sobre esta cidade. Outra noite em que o sono não vem. Viro na cama, o eco dos meus pensamentos mais alto que o tic-tac do relógio na parede. A mansão dos Grecco, este pequeno castelo sombrio, parece respirar segredos. Os funcionários m*l falam comigo, seus olhares sempre fugidios, como se eu fosse uma intrusa em um mundo que não me pertence. E talvez eu seja.
Mas hoje, a curiosidade vence o medo. Levanto-me da cama, envolta em um roupão fino, e deslizo pelos corredores escuros. As escadas rangem sob meus pés descalços, mas não há ninguém para me ouvir. Luca não está em casa. Ele nunca está. As noites são dele, e eu não me permito pensar no que ele faz enquanto a lua brilha sobre Palermo.
O terceiro andar é proibido para mim, mas é justamente por isso que vou. A ala de Luca é um mistério que não consigo ignorar. Os corredores são estreitos, as paredes adornadas com quadros antigos que parecem me observar com desaprovação. Até que chego a um arco que leva a um escritório. A porta está entreaberta, e a luz fraca de uma tela de computador pisca no escuro.
Entro. O ar é pesado, carregado de algo que não consigo nomear. O computador de Luca ainda está ligado, mas não me atrevo a tocá-lo. Em vez disso, meus dedos deslizam pelas prateleiras repletas de livros. São tantos títulos que sinto uma pontada de inveja. Eu sempre quis ter liberdade para explorar, para ler, para saber. Mas meus pais nunca permitiram. Aqui, entre estas páginas, há um mundo que sempre me foi negado.
Até que um livro em particular chama minha atenção. Puxo-o delicadamente, e é então que ouço um clique suave. A estante se move, revelando uma portinhola escondida. Meu coração acelera. Dentro, há uma pasta grossa, cheia de documentos e fotos. Puxo-a com mãos trêmulas e abro-a sobre a mesa.
As fotos são antigas, desbotadas pelo tempo. Homens em trajes elegantes, sorrisos falsos, olhares sombrios. E então vejo uma foto que me faz parar. É o pai de Luca, ou pelo menos acho que é. Ele está deitado em uma poça de sangue, os olhos ainda abertos, congelados em um último momento de surpresa. Meus dedos tremem ao virar as páginas. Documentos, relatórios, nomes que reconheço. Minha família está envolvida. Meu estômago embrulha.
Antes que eu possa processar o que estou vendo, uma voz corta o silêncio como uma faca.
— O que você está fazendo aqui?
É Luca. A voz dele é fria, mas há algo mais por trás dela. Raiva? Medo? Não consigo dizer. Eu me viro tão rápido que os papéis voam para todos os lados, espalhando-se pelo chão como folhas ao vento.
Ele está parado na porta, o casaco ainda vestido, o olhar tão sombrio quanto a noite lá fora. Meu coração parece querer sair do peito. Eu fui pega. E agora, não há como voltar atrás.