Capítulo 11: Luca Grecco

1147 Palavras
O motor do carro roncava baixo enquanto eu dirigia pelas ruas estreitas da cidade, os faróis cortando a escuridão da noite. Matia estava ao meu lado, sentado no banco do passageiro, os dedos batendo levemente no joelho, como sempre fazia quando estava prestes a dizer algo que sabia que eu não queria ouvir. Eu conhecia meu irmão melhor do que ninguém. Ele era a parte sensata de nós dois, o equilíbrio que eu precisava. Por isso o escolhi como meu subchefe. A Cosa Nostra precisava de um líder forte, mas também de alguém sábio e inteligente. E Matia era exatamente isso. Mas, às vezes, eu odiava como ele sempre parecia saber o que eu estava pensando. — Luca — ele começou, a voz calma, mas firme. — Você quer me dizer por que decidiu aparecer no ateliê hoje. Eu não respondi de imediato, mantendo os olhos fixos na estrada. Sabia que ele não ia gostar da resposta. Matia sempre foi direto, e eu sempre fui teimoso. Era uma dinâmica que funcionava, mas que também gerava atritos. — Só queria me certificar de que Elena estava sendo atendida — respondi, finalmente, tentando manter a voz neutra. Matia soltou um suspiro pesado, como se já esperasse aquela resposta. — Certo. E você acha que isso foi necessário? — ele perguntou, virando-se para me encarar. — Luca, estamos no meio de uma guerra. Traidores estão sendo caçados dentro e fora da família. Você não pode se dar ao luxo de desviar o foco para um casamento, ou... — ele fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado, — para um "pedaço de carne novo". Meus dedos apertaram o volante com mais força, os nósculos dos dedos ficando brancos. Eu sabia que ele estava certo, mas isso não significava que eu tinha que gostar. — Eu nunca falhei, Matia — disse, a voz cortante como uma lâmina. — E você deveria ficar com a boca fechada. Ele riu, um som seco e sem humor. — Claro, Luca. Porque você nunca erra, né? — ele respondeu, o tom sarcástico. — Mas vamos ser honestos. Você está se envolvendo demais com essa garota. E isso é perigoso. Para você, para ela, e para todos nós. Eu não respondi, mas senti um nó se formar no meu estômago. Matia estava errado. Eu não estava me envolvendo. Elena era apenas... uma peça no tabuleiro. Alguém que eu precisava manter por perto por razões estratégicas. Era isso. Nada mais. Mas, no fundo, eu sabia que não era tão simples. Desde o momento em que a vi no ateliê, cercada por aqueles vestidos ridículos, tentando manter a compostura enquanto minha mãe e a dela discutiam como se ela fosse um manequim, algo dentro de mim mudou. Aquele vestido de seda simples, que ela escolheu com tanta convicção, parecia refletir algo que eu não conseguia nomear. Algo que me fez querer protegê-la, mesmo que eu não soubesse exatamente por quê. — Luca — Matia chamou, interrompendo meus pensamentos. — Você está ouvindo? — Estou ouvindo - respondi, secamente. — E você já disse o que precisava dizer. Ele ficou em silêncio por um momento, e eu sabia que ele estava lutando contra o impulso de continuar discutindo. Matia sempre foi o mais paciente de nós dois, mas até ele tinha seus limites. — Só tome cuidado, irmão. Você sabe o que está em jogo. Eu sabia. Melhor do que ninguém. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu não tinha certeza se conseguia separar o que era estratégia do que era... outra coisa. A noite estava quieta quando chegamos à mansão, os portões se abrindo lentamente para nos receber. Desliguei o motor e fiquei sentado por um momento, as mãos ainda no volante, tentando ordenar meus pensamentos. Matia olhou para mim, mas não disse mais nada. Ele sabia quando era hora de parar. Em vez disso, ele apenas abriu a porta e saiu do carro, deixando-me sozinho com meus demônios. Eu olhei para o céu escuro, as estrelas brilhando fracamente acima de mim. Elena estava lá, em algum lugar, provavelmente se preparando para o casamento que nenhum de nós realmente queria. E eu estava aqui, tentando convencer a mim mesmo de que tudo isso era apenas um jogo. Mas, no fundo, eu sabia que estava mentindo. Matia entrou na mansão sem olhar para trás, as portas pesadas se fechando atrás dele com um som surdo. Fiquei sentado no carro por mais alguns segundos, o silêncio do motor desligado ecoando em meus ouvidos. A noite estava fria, e o ar parecia mais pesado do que o normal, como se carregasse o peso das palavras não ditas entre eu e meu irmão.Respirei fundo, tentando dissipar a tensão que ainda pairava no ar, e saí do carro. As luzes do jardim estavam acesas, projetando sombras longas sobre o caminho de pedras que levava até o lago. Era lá que eu a havia encontrado algumas noites atrás, sentada sozinha, olhando para a água como se estivesse tentando encontrar respostas que eu não poderia dar. Caminhei até o jardim, os passos ecoando no silêncio da noite. As rosas estavam florescendo, suas pétalas vermelhas e brancas brilhando sob a luz suave das lâmpadas. O cheiro doce e fresco das flores enchia o ar, mas algo estava faltando. Algo que eu não conseguia nomear. Quando cheguei ao banco onde ela costumava se sentar, parei. O lugar estava vazio. Nenhum vestígio dela, nenhum sinal de que ela havia estado ali. Apenas o vento balançando levemente as folhas das árvores, como um sussurro distante. Fiquei parado ali por um momento, olhando para o banco vazio, e então algo estranho aconteceu. Uma sensação que eu não esperava, que não queria reconhecer. Tristeza. Era isso. Uma pontada aguda e incômoda de tristeza, como se a ausência dela fosse um vazio que eu não sabia que existia. Eu não deveria sentir isso. Elena era apenas uma peça no tabuleiro, uma parte do jogo que eu precisava jogar. Mas, naquele momento, olhando para o banco vazio, eu me peguei desejando que ela estivesse lá. Desejando ver o reflexo da luz da lua em seu cabelo, ouvir o som suave de sua respiração enquanto ela olhava para a água. Era ridículo. O líder da família Grecco. Eu não tinha tempo para sentimentos, muito menos para uma mulher que m*l conhecia. Mas, pela primeira vez em muito tempo, eu me senti... sozinho. Virei-me bruscamente, tentando afastar esses pensamentos. Eu não podia me permitir isso. Não agora, não com tudo o que estava em jogo. A guerra interna, os traidores, a necessidade constante de manter o controle. Eu não podia me dar ao luxo de fraquejar. Mas, enquanto caminhava de volta para a mansão, a imagem do banco vazio ainda estava gravada em minha mente. E, pela primeira vez, eu me peguei pensando que talvez, apenas talvez, eu não fosse tão forte quanto imaginava.
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