Assim como prometido, recebi meus primeiros conjuntos de roupa logo na manhã do dia seguinte. Era muito bom poder me vestir com minhas próprias roupas. Apesar disso, sei que sentiria muita falta do cheiro de Lohan em mim.
— Como estou? — O vestido branco era relativamente simples. As alças eram finas e o comprimento ia até perto do joelho.
— Maravilhosa! — Seus olhos me sondaram por completo. Havia aprovação neles. Aproximei-me, peguei sua mão e fiz novamente o pedido que há tanto eu queria.
— Vai me levar para conhecer a sua casa agora? Quero ver tudo!
— O que eu não faço por você? — disse-me com um daqueles lindos sorrisos que me deixavam entusiasmada.
O tour me deixou especialmente animada. Tudo dentro do palácio era alto, espaçoso e cheio de corredores. Mesmo me esforçando para tentar gravar onde ficava cada coisa, sentia que levaria tempo até andar por aqui sem me perder.
— Que cozinha enorme! — comentei admirada. Eu sabia que era uma cozinha por conta dos diferentes aromas de comida. Utensílios e panelas eram similares, mas o formato da área em que os alimentos eram cozidos era bem diferente dos convencionais fogões. Eram circulares e divididos por níveis.
Nunca pensei que uma cozinha pudesse ser tão grande. Era maior do que o refeitório do colégio Siram e tinha portas para diversas direções. Havia quase trinta mulheres preparando coisas e circulando para lá e para cá. Quando entramos, todos desviaram o olhar para o chão.
— Aqui é a ala comum entre os blocos que dividem o palácio. Toda a área que te mostrei anteriormente faz parte dos aposentos reais que pertencem somente a mim.
— Há mais alguma área comum? — perguntei curiosa. Lembro que no caminho passamos por algumas portas que Lohan não abriu para mim. Disse-me que eram áreas que eu deveria evitar.
— Algumas. — respondeu, me guiando novamente pelos corredores. Inevitavelmente, me peguei observando cada detalhe pelo caminho. Nesse lugar imenso, toda a arquitetura era simples e, ainda assim, elegante.
Abrindo uma porta um pouco além da cozinha, me deparei com fileiras intermináveis de armários, todos repletos de livros. Era a maior biblioteca que eu já tinha visto na minha vida. A biblioteca era circular e ocupava os três andares do palácio.
— O segundo e o terceiro andar são só para registros. Nada muito empolgante para se ler. Aquela parte no canto esquerdo é a zona real e pertence a mim, então se quiser vir ler aqui dentro, pode se acomodar ali.
Ele apontou para um canto cuja única delimitação era um pequeno degrau. Era bem iluminado por conta de duas grandes janelas que havia de frente. Possuía algumas poltronas luxuosas recobertas com aquele material branco e fofo, algumas estantes nos entornos e uma mesa no centro esculpida em pedra branca.
— O tipo de cantinho que eu amo. — comentei com satisfação. Era no extremo oposto às demais mesas e cadeiras e me daria a tranquilidade necessária caso eu precisasse ler alguns livros aqui.
Saindo da biblioteca, entrei em um corredor aberto e bem iluminado que levava até o jardim. Meus pés descalços sentiam satisfação em pisar no chão da área externa, recoberto por um tipo de grama baixa e aveludada.
— Pode vir aqui sempre que quiser. Esse pátio em específico pertence exclusivamente a mim. Ele é delimitado por cozatas vermelhas, aquelas plantas de formato helicoidal. — Precisei focar muito minha visão para conseguir enxergar o lugar para onde ele estava apontando. As plantas em questão formam uma cerca viva, mas não são muito altas. Qualquer um pode saltar facilmente por cima.
— E o jardim além disso?
— Área comum, mas prefiro que não o frequente por um tempo. — Ele me olhou com seriedade e algo me dizia que isso era mais uma ordem do que um pedido. Mesmo que eu quisesse dar uma de rebelde, ele saberia por conta da marca. Apenas sorri e assenti, afinal, “por um tempo” significa que é apenas temporário.
— Me leva para conhecer o mar? — pedi entusiasmada. Eu podia sentir a brisa úmida vindo em nossa direção.
— Vamos correr então! — disse ele, tomando forma de lobo. Fiz o mesmo, deixando Lisa sair. Ela, mais do que eu, queria isso.
"É tão bom poder se transformar sem se preocupar com a questão das roupas!", falei a ela.
— Tranquilidade é liberdade! — respondeu-me de volta. Ela, mais do que eu, odiava preocupações desnecessárias. Só queria correr e fazer as coisas que ama sem se preocupar com mais nada.
A sensação de poder correr ao lado do meu companheiro neste mundo era simplesmente maravilhosa! Ele corria em ritmo lento para que eu pudesse acompanhá-lo. Jamais pensei que encontraria alguém mais rápido que eu, e era inevitável pensar que, neste mundo, eu provavelmente seria a loba mais lerda por não ter genética pura.
O mar ficava a apenas quinze minutos de corrida do palácio. A areia prateada cintilava de leve. Era lisa e extremamente escorregadia nas áreas molhadas. Como se eu tivesse voltado a ser criança, corri em direção à areia molhada e me joguei, escorregando por vários metros antes de parar.
— Isso é muito divertido! — exclamei, rindo, assim que voltei para a forma humana. Caminhei cuidadosamente até a faixa seca, tentando não escorregar, voltei a correr e me joguei novamente na faixa molhada, dessa vez indo direto para dentro da água.
— Minha pequena travessa! — Lohan havia voltado à forma humana e se sentara na parte seca. Ele estava rindo, e sua risada me deixou hipnotizada.
— Isso é incrível! — deslizei algumas vezes para dentro da água enquanto tentava sair. Sorte a minha que quase não havia ondas, ou do contrário, eu estaria me revirando enquanto tentava sair. Meus pés continuavam escorregando, e acabei desistindo e me jogando de vez para dentro.
— Hmmm, a água é doce. — comentei após um mergulho rápido. Não doce de potável, mas doce de ter um sabor adocicado mesmo. Era gostosa, mas não pude deixar de me perguntar sobre o que tinha dentro dela e se eu realmente podia ingerir isso. — No meu mundo, a água do mar é salgada.
— Se está preocupada, não precisa. O adocicado vem de uma planta aquática predominante desta região, que é, inclusive, um dos principais ingredientes para as nossas sobremesas.
Ele se aproximou da água e saltou para dentro, nadando até o meu lado. Acabei parando um pouco mais ao fundo por conta dos meus pés não terem apoio na areia escorregadia.
— Isso é mais doce! — disse ele, segurando-me contra ele e me beijando. Envolvi os braços em torno do pescoço dele enquanto nos beijávamos apaixonadamente.
— As melhores experiências da minha vida estou tendo ao seu lado. — comentei enquanto olhávamos profundamente nos olhos um do outro. É muito difícil não sorrir quando estou ao lado dele. — Obrigada por me mostrar o seu mundo e por me deixar fazer parte dele, companheiro!