Acho que, se não fosse por Lohan, eu teria demorado um pouco mais a conseguir sair da água. A inclinação fazia com que toda a faixa próxima ao mar se tornasse um escorregador mais liso do que piso ensaboado. O segredo para caminhar pela areia molhada é afundar a ponta dos dedos nela. Eu não tinha ideia do que essa estranha areia era composta, mas foi só depois disso que descobri o quanto era pesada. Eu provavelmente não teria forças para carregar um balde cheio dessa areia, mesmo com a força da minha loba. Fazer castelo de areia nessa praia era algo completamente fora de cogitação.
— Por que não me leva para conhecer a cidade? Adoraria ver como é a alcateia! — pedi a ele depois que retornamos ao pátio do palácio.
— Inviável no momento. — respondeu-me com a voz suave.
— Quando então? — insisti. Quase não havia guardas no caminho por onde passamos, e quase não conheci ninguém desde que vim a este mundo. Eu podia jurar que Lohan ordenou que os guardas se afastassem dos lugares onde ele me levaria. Em um contexto normal, eu acharia romântico que pudéssemos fazer um passeio a dois sem sermos incomodados, mas eu sabia que nenhum de nós dois éramos normais. Por algum motivo, ele estava tentando me afastar das pessoas, e isso ficou claro por conta de proibições como essa. — Quando vou poder conhecer outras pessoas?
— Não está satisfeita comigo? — perguntou-me com a voz um pouco mais séria.
— Lohan, não é isso! Eu só quero conhecer mais sobre as pessoas com quem você convive. Você está com vergonha de me apresentar a eles? — Minha respiração ficou pesada e baixei o olhar. Lembranças de como William me rejeitara por conta da opinião das pessoas vieram à mente. Será que as pessoas aqui teriam uma opinião r**m de mim, a meio humana do outro mundo?
— Não é isso! — disse ele, tocando minha face e elevando-a para que eu pudesse olhar em seus olhos. — Você é o meu maior tesouro e não me importo que todos saibam disso. Como meu tesouro, devo protegê-la e, até que eu tenha certeza de que será seguro para você, peço que continue sob minha guarda e acate os meus conselhos.
Ele realmente sabia como convencer uma garota. Seu maior tesouro, é? É por causa de cantadas como essa que eu ficava sorrindo de amores o tempo inteiro. Apesar disso, não pude deixar de me questionar sobre suas palavras. Por que ele precisaria me proteger? Ninguém nesse mundo me conhece, então que tipo de inimigos eu teria? Talvez a pergunta certa seja: que tipo de inimigos ele tem?
Como se quisesse me dar um mimo por não poder realizar meu último pedido, ele me mostrou uma escada no pátio que levava ao segundo andar. Entramos em um corredor com vários acessos e paramos de frente a uma grande porta dupla de madeira.
— É o que estou pensando? — perguntei ansiosa. Ele sorriu para mim como se dissesse que sim e convidou-me a abrir a porta. — A sala mágica!
Ali no centro estava a cama, as paredes todas como espelhos que não refletiam nada e o teto brilhante como se ele inteiro fosse uma lâmpada.
— Chamamos de centro de observação e invocação. — explicou-me. Dito isso, fechou a porta e caminhou até a cama, sentando-se nela com as pernas cruzadas.
— Minha caixa do tesouro! — Estive tão distraída no último mês que sequer tinha parado para perguntar a ele o que fizera com ela. Estava por cima da mesma prateleira perto da porta, no mesmo lugar que ele a havia colocado quando vim aqui pela primeira vez.
— Deixei aí como um lembrete. — disse-me suavemente, esticando a mão em minha direção. Aproximei-me dele, atendendo ao seu chamado.
— Lembrete de quê? — perguntei curiosa enquanto me sentava ao lado dele.
— De nunca desistir. — Assim que ele disse isso, todas as paredes da sala começaram a brilhar, revelando imagens de incontáveis paisagens. Era como uma sala de vigilância e monitoramento, mas havia milhares de telas espalhadas pelas paredes. Os mais diversos sons se sincronizavam pelo que tinham em comum entre si. O barulho de águas correndo era tudo o que se podia ouvir.
— É daqui que você me via? — Meus olhos começaram a vasculhar essas paredes mágicas procurando entre as imagens a que correspondia à minha cachoeira. Era quase impossível encontrá-la. Além disso, não fazia ideia de como ele poderia me ouvir falar com ele assim. O som das águas era tão alto que abafaria qualquer conversa que rolasse do outro lado.
— Chamamos de zona de reflexão mágica interdimensional. Eu só preciso projetar minha consciência mágica para que a conexão com as fontes demarcadas aconteça e este lado espelhe tudo o que está do outro lado.
— Bem, vou chamar de monitor mágico. — Tudo nesse mundo já era complexo demais para mim não simplificar. — Como você conseguia me ouvir?
Assim que perguntei isso, uma única imagem tomou conta de toda a parede. Era a cachoeira que eu gostava de ir, a nossa cachoeira. Doces lembranças invadiram minha memória enquanto me lembrava de todos os momentos em que fui até ali conversar com ele, o meu senhor misterioso.
— Posso me focar somente em um ponto específico.
— Mas para isso você precisa parar de monitorar as demais fontes. Como vai ouvir se alguém disser aquelas palavras mágicas?
— Aquelas palavras mágicas não precisam ser ouvidas. Elas ativam automaticamente a pedra de invocação e eu recebo o alerta consciente, independentemente de onde estiver ou do que estiver fazendo.
— Tipo um alarme disparando? — Ele sorriu, mas não respondeu. Aposto que não sabia do que eu estava falando.
— É como uma ligação telefônica. — disse ele, tentando traduzir de uma forma que nós dois compreendêssemos. — As palavras mágicas são como os números a serem discados e a pedra de invocação é o receptor final. Tudo que preciso fazer é atender a ligação para completá-la.
— Oh! — Mostrei os polegares para cima para indicar que compreendi. Meu companheiro, sem dúvidas, é o melhor!
— Todo este lugar é uma complexa estrutura criada única e exclusivamente para isso. A informação de como ativá-la finalmente chegou ao outro lado e espero que os resultados possam vir em breve.
— Qual o plano, companheiro? — A resposta dele veio com a imagem que apareceu no monitor mágico. Era a cachoeira de Arches, onde lhe apresentei Damian. Não havia ninguém lá, mas eu sabia o que ele queria dizer com isso.
— Aquele alfa é o mais aberto entre eles a aceitar a ideia de migrar para este mundo. Contei-lhe a verdade sobre quem eu sou, sobre o projeto e sobre o Devorador. Se o maior clã daquele mundo abraçar a causa, todos os demais acabarão por segui-lo.
— Uma guerra só se vence com os aliados certos. — Lembrei-me do que ele me dissera a respeito dos meus amigos. — Então ele soube que você é um rei antes de mim? O que mais ele sabe que eu não sei?
— Você deveria pensar no que tem vantagem. Damian não sabe como este mundo é. — Definitivamente ele acertou o ponto principal. Não importa quantas informações Damian tenha sobre o projeto, eu fui a primeira a atravessar para este lado e ver a magia deste mundo com meus próprios olhos.
— Para alguém com uma missão tão grande, você parece bem tranquilo. — Ele poderia ter me pedido para espalhar a informação no outro mundo, mas, em vez disso, escolheu apenas uma pessoa para confiar. É como se não tivesse pressa.
— Há um jeito certo de se fazer as coisas. Apressá-las é um risco que nem sempre dá certo. Além disso, agora tenho algo que eu não tinha antes, a brecha que me permite atravessar para o outro lado no momento de interferência. Não é um evento raro, e tenho muitos anos pela frente para ir preparando o caminho.
— Sobre o surgimento da brecha — achei que devia aproveitar que ele estava aberto a responder para terminar de sanar minhas outras curiosidades — você tem alguma ideia de como ela surgiu e por que surgiu?
— Há hipóteses. — Ele olhou para o alto, para o teto. Segui seu olhar, mas não havia nada lá além da luz. Não consegui olhar muito tempo para cima por causa dessa claridade. — Depois da primeira vez que fui ao seu mundo, solicitei uma vistoria urgente aos fundadores do projeto. Eles eram os únicos capacitados a dizer o que havia acontecido com a pedra de invocação. Eraply e Willow vieram pessoalmente verificar. De início, estavam céticos sobre eu ter atravessado, mas isso mudou depois que mostrei os seus brincos como prova. Essa foi, sem dúvida, a notícia mais surpreendente do último milênio.
— E eles descobriram o que ocasionou a brecha? — Já não me surpreendia em nada saber que Eraply também está vivo. Questões relativas à idade já nem faziam mais parte dos meus questionamentos.
— Apenas hipóteses. — Falou ele com seriedade. — De acordo com Eraply, a magia essencial continua a mesma. Contudo, Willow detectou algo nas inscrições mágicas que ela criou. Disse que houve uma ruptura no ponto de chamado. Concluiu-se que foi por eu forçar uma travessia coincidentemente quando havia uma interferência mágica de forte intensidade do outro lado.