O salto do sapato de Lorrany ecoava firme pelo mármore do saguão.
Postura ereta.
Queixo levemente erguido.
Controle absoluto.
O Hotel Imperial não aceitava falhas — e ela menos ainda.
— Conferiram a suíte presidencial? — perguntou sem diminuir o ritmo.
— Sim, gerente. Está impecável.
Impecável não era suficiente.
Ela mesma verificou cada detalhe: flores trocadas, champanhe no gelo, iluminação ajustada, aroma suave no ambiente.
O hóspede daquela noite não era qualquer um.
Nikólaos Stavros.
Empresário grego. Investidor internacional. Frio nos negócios.
E extremamente reservado.
— Ele já chegou? — perguntou à recepcionista.
— O carro acabou de entrar na garagem.
O ar pareceu mudar.
Lorrany não acreditava em energia… mas acreditava em presença.
E algo dizia que aquele homem teria presença.
Minutos depois, as portas de vidro se abriram.
Primeiro entrou o segurança.
Depois ele.
Alto.
O tipo de homem que não precisa levantar a voz para ser notado.
Terno escuro sob medida. Ombros largos. Passos lentos e seguros.
Mas não foi o porte que chamou atenção de Lorrany.
Foi o olhar.
Não apressado.
Não invasivo.
Observador.
Como se ele registrasse cada detalhe antes de decidir qualquer coisa.
Ela caminhou até ele.
Profissional.
Controlada.
— Senhor Stavros. Seja bem-vindo ao Imperial.
Ele a encarou por um segundo a mais do que o necessário.
Não no corpo.
Nos olhos.
Como se avaliasse algo além da aparência.
— Senhorita…?
— Lorrany Albuquerque. Gerente geral.
Um pequeno arquear de sobrancelha.
Ele não esperava aquilo.
Provavelmente imaginou uma gerente mais velha.
Ou mais maleável.
— Impressionante — disse ele, com leve sotaque carregando cada sílaba.
Ela manteve o tom neutro.
— Nosso objetivo é oferecer excelência.
Ele quase sorriu.
— Eu não estava falando do hotel.
Ela sustentou o olhar.
Não desviou.
Não corou.
Não se encolheu.
— Sua suíte está pronta.
Ela fez um gesto sutil indicando o elevador privativo.
Durante o trajeto, o silêncio era espesso.
Não desconfortável.
Mas carregado.
Quando as portas do elevador se fecharam, o espaço pareceu menor.
Ele estava próximo.
Muito próximo.
O perfume dele era amadeirado. Intenso.
Mas Lorrany se recusou a reagir.
Ela já tinha visto homens como ele.
Ricos.
Confiantes.
Acostumados a conseguir tudo.
O que ele não sabia…
É que ela não era algo que se conseguia.
A porta da suíte se abriu.
Ela entrou primeiro, explicando detalhes técnicos, serviços exclusivos, horários personalizados.
Ele andava pelo ambiente como quem avalia território.
— Você administra tudo isso sozinha? — perguntou.
— Eu lidero uma equipe.
— Mas quem decide é você.
Não era pergunta.
Ela virou-se para ele.
— Sim.
Um silêncio breve.
Ele se aproximou da janela panorâmica.
A vista da cidade iluminada refletia no vidro — e também no olhar dele.
— No meu país — começou ele — mulheres como você não costumam estar à frente de negócios dessa magnitude.
Ela cruzou os braços.
— Então o senhor deveria investir mais no meu país.
O canto da boca dele se moveu.
Primeira reação verdadeira.
— Você não se intimida.
— Não vejo motivo.
Ele se aproximou mais.
Agora a distância entre eles era mínima.
Mas não havia toque.
Só tensão.
— A maioria das pessoas muda o tom quando descobre quem eu sou.
— Eu já sei quem o senhor é.
— E não se impressiona?
Ela sustentou o olhar mais uma vez.
— Títulos não me impressionam. Caráter, talvez.
O silêncio que veio depois não era comum.
Era denso.
Desafiador.
E pela primeira vez em muito tempo, Nikólaos Stavros sentiu algo inesperado:
Interesse real.
Não físico.
Não imediato.
Curiosidade.
— Você sempre fala assim com seus hóspedes? — ele perguntou.
— Apenas com os que testam meus limites.
Ele deu um passo mais perto.
O suficiente para que o ar entre eles esquentasse.
Mas ele não tocou.
Não invadiu.
— Eu não testo limites.
— Todo homem poderoso testa.
Os olhos dele escureceram.
Mas não de raiva.
De admiração.
— Talvez você seja a primeira que não tenha medo de mim.
Ela inclinou levemente o rosto.
— Talvez o senhor ainda não tenha me dado motivos.
Desafio.
Puro.
O telefone dela vibrou.
Ela se afastou um passo, quebrando a tensão.
Mensagem da mãe.
“Ele voltou.”
O estômago dela se contraiu.
Mas o rosto permaneceu neutro.
Nikólaos percebeu.
— Algo errado?
— Nada que interfira no seu conforto.
Ele observou o modo como os dedos dela apertaram levemente o celular.
Controle demais.
Para alguém que dizia que estava tudo bem.
— Senhorita Albuquerque.
Ela ergueu os olhos.
— Se algo estiver errado… eu não tolero que problemas pessoais afetem minha equipe.
Ela quase sorriu.
— Não sou sua equipe.
Um segundo de silêncio.
Ele se aproximou outra vez.
Mais devagar.
Mais atento.
— Ainda não.
O coração dela bateu mais forte.
Mas sua postura não mudou.
— Aproveite sua estadia, senhor Stavros.
Ela se virou para sair.
Mas antes que alcançasse a porta, ele falou:
— Lorrany.
O modo como ele disse seu nome soou diferente.
Mais baixo.
Mais direto.
Ela parou.
— Você não parece alguém que aceita ajuda.
Ela não se virou completamente.
— Porque eu não aceito.
— Todo mundo precisa de alguém em algum momento.
Agora ela o encarou.
Olhos firmes.
Mas com algo escondido.
— Eu aprendi cedo a não depender de ninguém.
Ele a observou sair.
E enquanto a porta se fechava…
Nikólaos sabia de uma coisa com absoluta certeza:
Ele não queria conquistá-la.
Queria entender por que uma mulher tão jovem carregava o peso de quem já sobreviveu demais.
E lá fora, no corredor silencioso…
Lorrany respirava fundo, tentando controlar a tempestade interna.
Porque pela primeira vez…
Um homem não tinha olhado para seu corpo.
Tinha olhado para suas defesas.
E isso era infinitamente mais perigoso.