O HOMEM QUE VOLTA

945 Palavras
Lorrany só permitiu que o ar escapasse dos pulmões quando a porta do elevador se fechou. O reflexo dela no espelho parecia inabalável. Mas por dentro, tudo estava em alerta. “Ele voltou.” A mensagem da mãe piscava na tela. Ela sabia exatamente o que aquilo significava. Significava desculpas ensaiadas. Significava promessas vazias. Significava portas batendo de madrugada. Ela digitou rápido: “Estou indo.” Mas não foi. Ainda não. Ela era gerente. Tinha um hotel cheio. Tinha responsabilidades. E acima de tudo, tinha orgulho. No entanto, enquanto caminhava pelo lobby novamente, a presença dele ainda parecia ocupar o espaço. Nikólaos Stavros. Ela não gostava do modo como ele a observava. Não era como os outros homens. Não media suas pernas. Não avaliava sua boca. Não despia com os olhos. Ele analisava. Como se tentasse entender o que ela escondia. E isso a deixava exposta. — Ele pediu que qualquer necessidade fosse tratada diretamente com você — disse a recepcionista, aproximando-se. Lorrany franziu levemente a testa. — Ele disse isso? — Sim, gerente. Claro que disse. Homens como ele não pediam. Determinavam. Ela respirou fundo. Não permitiria que ele atravessasse limites. Às vinte e duas horas, quando finalmente deixou o hotel, o céu estava pesado, ameaçando chuva. O bairro onde morava era simples. Casas próximas demais. Muros baixos demais. Memórias demais. Ela entrou e o encontrou sentado no sofá. O padrasto. Geraldo. Camisa aberta. Cheiro de álcool. Controle falso no olhar. — A princesa chegou — ele disse, com aquele sorriso que nunca alcançava os olhos. Lorrany ignorou. Foi direto até a mãe. — Você está bem? A mãe assentiu rápido demais. Mentira. Sempre mentira. — Não precisa me tratar como inimigo, garota — Geraldo falou, levantando-se. — Eu sustentei essa casa quando seu pai morreu. Ela virou lentamente. — Minha mãe sustenta essa casa. Eu sustento essa casa. O olhar dele endureceu. Ele deu um passo à frente. Instintivamente, Lorrany manteve a postura firme. Não recuou. Nunca recuava. — Você acha que manda aqui? — ele provocou. — Eu mando no que é meu. O silêncio ficou pesado. A mãe tentou intervir, mas Geraldo levantou a mão, irritado. E foi nesse momento que algo mudou. Ele não a tocou. Mas o gesto foi suficiente para trazer memórias que ela tentava manter enterradas. Aos dezesseis anos. A porta trancada. A respiração pesada no corredor. Ela piscou, voltando ao presente. Não. Não permitiria que aquele passado a dominasse. — Eu não tenho medo de você — disse, firme. Ele riu. Mas havia frustração ali. Porque ela não era mais uma adolescente. Era uma mulher. Independente. E perigosa. — Você devia aprender a ser mais… feminina — ele murmurou, quase venenoso. Ela se aproximou. Olho no olho. — E você devia aprender a ser homem. O silêncio foi cortado pelo som do celular dela vibrando. Número desconhecido. Ela sabia quem era antes mesmo de atender. Saiu da casa sem olhar para trás. — Senhor Stavros — disse ao colocar o telefone no ouvido. — Você saiu do hotel diferente — ele respondeu, direto. Ela parou na calçada. — Está monitorando minha expressão agora? — Eu observo detalhes. Chuva começou a cair, fina. — É seu trabalho como investidor? — Não. É instinto. Ela fechou os olhos por um segundo. — O que deseja? — Garantir que você chegou em segurança. Aquilo a desarmou. Ninguém perguntava isso. Ninguém. — Cheguei. Silêncio do outro lado. Mas não desligaram. — Você não gosta que cuidem de você — ele disse, quase pensativo. — Eu sei me cuidar. — Eu não duvido. Ela respirou fundo. A chuva agora molhava seus cabelos, escorrendo pelo pescoço. — Então por que ligou? — ela perguntou. Ele demorou. — Porque quando seu telefone vibrou naquela suíte… você mudou. Ela ficou imóvel. — Você imagina coisas demais. — Não. Eu reconheço quando alguém está lutando sozinho. A frase atravessou direto. — Eu não estou sozinha. — Tem certeza? A chuva aumentou. Ela sentiu os olhos arderem. Não pela água. Pelo cansaço. — Você não me conhece. — Ainda não. O jeito como ele disse aquilo fez algo dentro dela vacilar. — Eu não preciso de um salvador. — Eu não quero ser um. Aquilo a fez abrir os olhos. A rua estava vazia. A casa atrás dela parecia menor do que nunca. — Então o que quer? A resposta veio baixa. Firme. — Quero que você pare de agir como se carregar o mundo fosse obrigação sua. O coração dela disparou. Ele não sabia detalhes. Mas tinha entendido a essência. — Boa noite, senhor Stavros. Ela desligou antes que a voz traísse qualquer emoção. Mas enquanto caminhava de volta para dentro… Percebeu algo assustador. Ela não tinha sentido medo quando ele se aproximou no elevador. Não tinha sentido ameaça quando ele observou suas reações. Ela tinha sentido… Segurança. E isso era perigoso. Muito mais perigoso do que atração. Do outro lado da cidade, Nikólaos observava a chuva cair através da varanda do hotel. Ele não gostava da sensação que ela provocava. Não era desejo imediato. Era necessidade de compreender. E quando ouviu a chuva pelo telefone, imaginou-a sozinha na rua. Isso o incomodou. Não porque ela fosse frágil. Mas porque ninguém parecia estar ao lado dela. Ele tomou uma decisão silenciosa. Investigaria. Não para controlá-la. Mas para entender o que estava por trás daquele olhar que não pedia ajuda… mas gritava por descanso. E enquanto Lorrany entrava em casa novamente… Geraldo a observava da sala. Dessa vez, sem sorrir. Sem provocar. Apenas avaliando. Como se tivesse percebido que algo — ou alguém — começava a mudar o equilíbrio da casa. E ele não gostava disso.
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